Novela de mercado, talento de Flávio e ausência de Ba: tudo o que disse Rui Borges
— Que análise faz ao jogo, que decorreu numa casa praticamente cheia?
— A casa cheia é algo quase natural. É o que tem sido sempre ao longo deste tempo em que estamos no Sporting. A massa associativa tem apoiado sempre bastante. Que assim continue, porque precisamos dessa energia e desse apoio que nos têm dado.
Em relação ao jogo, controlámos do início ao fim. Na primeira parte, aqui ou ali fomos perdendo alguns passes, podemos e temos de melhorar. Mas acima de tudo fizemos o golo, criámos duas ou três situações de golo claras e penso que o guarda-redes deles até teve duas ou três grandes defesas. Não deixámos o Nacional crescer e criar transições, que sabíamos que eles queriam aproveitar com contra-ataques e ataques rápidos. A equipa esteve sempre ligada.
Na segunda parte foi igual. Chegámos ao 2-0, controlámos o jogo do início ao fim com bola. Depois com as alterações até conseguimos criar várias situações de finalização e golo. Poderíamos ter feito mais golos, merecíamos, acho que até houve jogadores que mereciam ter feito esse golo. Mas estou feliz pela consistência da equipa.
— Luis Suárez marcou e assistiu e confirmou o interesse do candidato à presidência do Fenerbahçe. Estas palavras são o fechar desta questão?
— Essas novelas não levam a nada. É um mercado natural. O Suárez fez bastantes golos, foi o melhor marcador do nosso campeonato, fez uma grande época individual. É natural que os clubes o procurem, não só a ele como a outros jogadores. Por isso é natural que em alguns momentos isso possa mexer com o pensamento deles. Sempre o vi focado no Sporting e a querer ajudar os colegas. Não só hoje, nos outros jogos também.
— Como viu este compromisso de Suárez com o candidato? Tirou-o para dar frescura ou para ele receber o aplauso?
— Tem sido sempre aplaudido, não só hoje como nos outros jogos. Em relação à parte da novela, isso é com a parte administrativa. Foi algo que se falou antes de começar a época, estava de férias. Não me preocupei absolutamente com nada. Estou preocupado com o meu trabalho. Desde que ele chegou, trabalhou como os outros: às vezes a sorrir mais, outras vezes a sorrir menos. Isso até eu. São coisas naturais. Vi-o acima de tudo sempre empenhado e sempre a dignificar o trabalho dele e o profissionalismo dele para com os colegas, para com a equipa, para com o clube. E isso tem demonstrado nos jogos. A mim não me mexeu absolutamente em nada.
— Com Debast e Gonçalo Inácio o Sporting tem uma forma diferente de sair com a bola?
— São dois jogadores que nos dão essa qualidade e essa tomada de decisão na saída média, tanto o Inácio como o Zeno. O Edu [Eduardo Quaresma] também, exatamente igual, com saídas curtas dá-nos qualidade também, se calhar não tem tanta bola longa. Mas não tem a ver só com a época, tem a ver muito com o jogo hoje. Se repararem, o 2-0 foi um pontapé para colocar profundidade, que era o que nós deveríamos ter feito mais vezes na primeira parte. O Nacional, numa fase inicial, começou com bloco até médio e bastante coeso, que estava a dar essa profundidade, dava-nos pouco espaço entre linhas. Então tínhamos de provocar essa profundidade. Falámos nisso ao intervalo e ainda bem que aconteceu o segundo golo dessa forma, foi algo que falámos, tentámos ajustar, fizemos.
Isso tem a ver com aquilo que o jogo pedia hoje, nesse ataque à profundidade. Por vezes acertaram, por vezes falharam, faz parte. Mas acima de tudo estou feliz porque eles são miúdos, têm de ter muita concentração, que é o que faz com que sejam melhores.
— Foi o jogo mais consistente da época? O que aconteceu para Ba estar ausente?
— O Ba sofreu um toque no joelho com o Alverca e então optámos por não correr esse risco. Já tinha ido para o banco com o toque no joelho [frente ao Rio Ave] e optámos por não correr esse risco, só isso. A equipa tem crescido acima de tudo na maturidade, no controlo de jogo ao longo de todo o tempo, 90, 95 minutos, o que for. Tem crescido nessa maturidade e nesse crescimento: estar ligado, estar com a energia em alta. Claro, vamos ter uma semana com três jogos, é natural que a gente pense em gerir. Mas acima de tudo houve oportunidades para os que têm estado fora, trabalham bem. A equipa é muito equilibrada em todas as posições, em todos os setores, e merecem também essas oportunidades. Têm correspondido e é isso que eu peço. A equipa tem dado essa resposta, acima de tudo estão todos ligados e querem mostrar que são peças importantes e que querem mais tempo de jogo. E isso é bom para mim.
— Altimira é o novo maestro do meio-campo do Sporting?
— Contratámos jogadores em quem acreditámos desde sempre, por isso é que foi até uma das primeiras contratações que fizemos. Sabíamos aquilo que ele é enquanto jogador e enquanto pessoa também, e é importante isso para vir para o Sporting. E sim, acho que ele, acima de tudo não só hoje, tem feito grandes jogos: muito equilibrado com e sem bola, está sempre muito bem posicionado, dá muito equilíbrio à equipa, dá muita saída de bola. A escola que teve também é dentro disso, nós sabíamos disso. Não tenho dúvidas que fará uma grande época e que será claramente um jogador com futuro no Sporting.
— Pensa em jogar com Ioannidis ao lado de Suárez? Quem é o substituto principal de Zalazar atrás do avançado?
O Flávio passou ali, nos outros jogos também têm variado um bocadinho a posição entre os dois. São dois jogadores que nos dão essa capacidade. O Flávio é um bocadinho mais virtuoso, mais fora da caixa em algumas coisas, mas temos outros jogadores. Naquela posição, além do Zalazar, tenho o Flávio, tenho o Luis Guilherme, que joga muito bem naquela posição também, tenho até o Jesse e, em alguns momentos, o Fotis [Ioannidis].
Às vezes custa ter o Fotis de fora porque também merece mais tempo, merece jogar. É ingrato para eles, para mim que tenho dois grandes avançados, dois belíssimos avançados, dão-me dores de cabeça. Para eles é ingrato quando um não joga. À partida poderão jogar os dois, poderá aqui ou ali acontecer jogarem juntos.
— Que diferenças vê em Flávio Gonçalves face a Pedro Gonçalves?
— O Pote tinha uma maturidade diferente do Flávio, que está no início da sua carreira, que acredito que seja uma grande e belíssima carreira. Tem a virtude de ter tomada de decisão às vezes fora da caixa, tem uma irreverência muito própria, muito boa, positiva. Tem 'ranho no nariz', é competitivo, trabalha bastante e tem merecido. As oportunidades não sou eu que dou, são eles que lutam por elas. Ele tem feito por isso. Não só este ano. Na época passada teve essa capacidade de perceber que estava a crescer, trabalhou quase sempre connosco ao longo de toda a época. E talvez por isso é que nesta fase inicial da época se nota o crescimento dele para com a equipa, e acima de tudo para um miúdo que jogava na segunda divisão na época passada.
É um miúdo que vai errar e eu sei que ele vai errar, está na idade de o fazer. Só que se calhar gosto tanto dele que a minha exigência com ele é assim!
— Houve muitos jogadores a caírem no lado esquerdo e a combinarem com Maxi Araújo. Como tem trabalhado esta flexibilidade?
— Há dinâmicas que já estão inseridas na equipa há algum tempo. Agora precisamos de melhorar esse conhecimento de uns para os outros, nomeadamente essa malta nova que chegou, mesmo o Flávio. Têm de perceber essa micro-relação que têm com o lateral, com o Zalazar, quando está à esquerda, com os próprios médios. Eles estão a conhecer-se ainda. É natural, entrou malta nova. As dinâmicas já existiam. O Maxi já faz coisas que fazia a época passada. Nós fomos sempre uma equipa muito móvel dentro de um jogo posicional muito forte a época passada, mas depois dávamos muita mobilidade e muita troca posicional.
Este ano se calhar temos uma equipa mais móvel, não com o jogo posicional tão acentuado como tínhamos na época passada, mas temos outras coisas: damos mais irreverência, de forma geral. E esse crescimento tem de acontecer.