Notas de uma noite perfeita
Mais do que solidariedade coletiva, o explorar de um flanco direito que tinha apenas Carreras contra o resto do mundo ou o golo de Trubin num gesto técnico a fazer lembrar Mário Jardel, existem sete notas a reter nesta noite histórica do Benfica de Mourinho contra o Real Madrid de Arbeloa.
1 - Os colossos não gostam de corajosos. E se há coisa que o Benfica demonstrou ontem foi coragem. Na forma como procurou pressionar alto. Na agressividade com que disputou todos os duelos. Na maneira como não se deixou abater quando esteve em desvantagem. Contra os maiores, a coragem não garante vitórias, mas aproxima das mesmas quem a ousa ter.
2 - Os mais inteligentes devem estar sobre o corredor central. Tomás Araújo, Aursnes, Sudakov e Pavlidis são os cérebros do Benfica dentro de campo. Cada um com as suas especificidades, mas todos complementares. Em comum, além do símbolo que trazem ao peito, a inteligência técnico-táctica ao serviço da equipa. A procura das melhores soluções sempre ao serviço da equipa.
3 - Aursnes no corredor central é um must. Quem diz que o norueguês não é intenso esquece que o futebol não se resume aos kms assinalados no GPS após o final do jogo. A maior e mais importante intensidade é a mental. Aquela que permite ler o jogo, antecipar cenários e tomar boas decisões ainda antes de ter a bola nos pés. No Benfica, e até mesmo em Portugal, é difícil encontrar jogadores mais intensos mentalmente que Aursnes.
4 - O Benfica é muito mais competente ofensivamente quando joga com Sudakov, Schjelderup e Prestianni. O ucraniano, liberto em termos de movimentações, deambula por onde a equipa precisa dele. Surge como ligação, pauta, segura, acelera de acordo com o que o jogo pede. Prestianni continua a ser o agitador de serviço, mas já começa a perceber que nem todas as acções requerem sprints desenfreados. Schjelderup é o que vimos ontem: associação, criatividade no 1 vs 1 em espaço reduzido, presença em zonas de finalização. E pode ser muito mais. Assim tenha quem o entenda e quem lhe dê a confiança necessária
5 - Há lesões e eliminações que vêm por bem. O ditado popular não é esse, mas a verdade é que este Benfica 2.0 já sob as ordens de José Mourinho surge depois das lesões de Lukebakio, Barrenechea e Richard Ríos e após as eliminações na Taça da Liga (Sudakov ainda à esquerda, Barreiro a 10) e da Taça de Portugal. Prestianni e Schjelderup passaram a ser presença mais constante nas alas, Sudakov passou para a zona 10 e Barreiro tornou-se o 8 de ruptura que só poderia ser ao lado de um 8 cerebral que durante vários meses foi o homem dos sete ofícios (Aursnes).
6 - O trabalho supera sempre o talento. O talento de grande parte dos jogadores madridistas é inquestionável. A capacidade individual que quase todos têm para resolver um jogo de um momento para o outro também. Mas quando o adversário se apresenta de forma corajosa e com claras intenções de "matar o jogo", importa que as capacidades volitivas estejam presentes e a 100%. O Benfica foi superior no plano técnico-táctico porque, muito antes da bola começar a rolar, já estava a golear no plano da mentalidade competitiva.
7 - A forma como José Mourinho celebrou o golo de Trubin fez-me lembrar a maneira como festejou o apuramento do seu Inter de Milão para a final da Liga dos Campeões em pleno Camp Nou, depois de eliminar o Barcelona. Nessa época Mourinho foi campeão europeu, tudo aponta para que isso não aconteça em 2025-2026, mas foi bom voltar a ver neste festejo o Mourinho de outros tempos: corajoso, destemido, sedento de vitória, inspirador