O amigo-da-onça
Com amigos como Donald Trump, Gianni Infantino não precisa de inimigos. O presidente dos Estados Unidos colocou o líder da FIFA em maus lençóis, com uma ligeireza arrepiante, deixando a nu aquilo que normalmente se diz que existe, mas é feito apenas nos bastidores. Ninguém terá dúvidas de que Infantino ficou com a imagem junto da opinião pública destroçada pelo incidente da suspensão do castigo do jogador norte-americano Balogun. E nem mesmo o facto de ter arguido a independência dos órgãos e a sagrada separação entre eles lhe permitiu explicar por que razão Donald Trump lhe ligou a ele a meter uma «cunha», e não ao presidente do Comité Disciplinar da FIFA. Depois dos 4-1 com que os Diabos Vermelhos da Bélgica despacharam os norte-americanos, o L’Équipe perguntava, com muito humor (e sarcasmo): «Tout ça pour ça?» (Tudo isto para isto?), colocando um ponto final (que não parágrafo) no lamentável incidente.
Mas deverá Infantino estar preocupado quanto à sua reeleição? Nem por sombras. A forma como os lugares nos diversos comités estão distribuídos - e o de Disciplina, onde estão três países europeus em 55 filiados na UEFA, e a Conmebol, com 10 países, tem uma vice-presidência e mais três representantes, é um bom exemplo - ou a razão para vermos árbitros sem a mínima qualificação a dirigir jogos da competição mais importante do planeta, a que se junta, numa tradição que vem de muito longe e se agudizou primeiro com Havelange e depois com Blatter, a forma como o dinheiro é dividido (e estou a falar de dinheiro por cima da mesa e não aquele, sujo, que fez cair Sepp Blatter), são garantia mais do que suficiente para uma reeleição, calma e tranquila, provavelmente sem oposição.
Infantino teve o mérito de batalhar pelo Mundial de 48 seleções, e a qualidade dos jogos (Curaçao e Uzbequistão à parte) deu-lhe razão; pactuou com o «ovo de Colombo» que são as pausas para hidratação (de inverno vão ter de inventar outro nome), que gerou pelo menos mil milhões de dólares a mais em publicidade, uma prática que temo que rapidamente se generalize. Se calhar, se não fosse o amigo-da-onça Donald Trump, até iria acabar o Mundial bem visto aos olhos dos adeptos. Assim resta-lhe o controlo que mantém, qual patriarca, sobre «a família do futebol».
* Eusébio da Silva Ferreira jogou no México (CF Monterrey), Estados Unidos (Boston Minuteman, Las Vegas Quicksilver e New Jersey Americans) e Canadá (Toronto Metros-Croatia). O Mundial de 2026 joga-se onde o ‘King’ espalhou o que lhe restava de magia…