As ‘americanices’
Tenho o maior respeito pelo sistema desportivo norte-americano, ao mesmo tempo baseado na escola, e sempre capaz de desenvolver eventos profissionais do mais alto nível. Quem tiver dúvidas do que afirmo, dê-se ao trabalho, recorrendo aos resultados dos Jogos de Paris/24, por exemplo, de ver quantos medalhados olímpicos, dos mais diversos países e nas mais díspares modalidades, provieram das Universidades e clubes dos Estados Unidos, onde encontraram meios físicos e apoio técnico para desenvolverem as suas capacidades.
Ou tente perceber o porquê do sucesso da NBA, NFL, NHL ou MLB, Ligas que movimentam todos os anos milhares de milhões de dólares, baseadas em pressupostos relativamente simples: apologia da verdade desportiva, através de um sistema de arbitragem permanentemente escrutinado, onde a meritocracia ganha de goleada ao corporativismo; e criação de equilíbrio entre as equipas, quer pela adoção de tetos salariais, quer pela implementação do sistema do ‘draft’, em que são as equipas com pior classificação as primeiras a escolher os melhores valores disponíveis.
Conseguem ainda, uma coisa mais, os norte-americanos: não sendo um país de futebol (ou ‘soccer’, se fizerem questão), encheram os estádios do Mundial, onde foram batidos recordes de assistência (eu sei que o maior número de jogos é indissociável deste facto, mas mal acabe o Espanha-Argentina será interessante fazer as contas à média de espetadores por jogo), e criaram riqueza através do espetáculo futebolístico, como nunca antes se tinha visto.
Mas uma coisa é respeitar o sistema desportivo norte-americano, adotando, inclusivamente, algumas das boas práticas que comporta, outra é, contra a cultura do futebol, ‘americanizar a martelo’ um jogo nascido em Inglaterra, que nunca rivalizou, do lado de lá do Atlântico, com o basquetebol, o futebol americano, o hóquei no gelo ou o beisebol. Espero que a UEFA abdique das verbas publicitárias criadas pelas chamadas ‘pausas de hidratação’, porque esse ‘time out’ desvirtua o futebol (e de início, refletindo pouco, até vi méritos nessa alteração); espero que nunca mais se copiem os intervalos musicais do Superbowl, como vai acontecer no domingo, mandando às urtigas as regras do futebol, que estipulam em 15 minutos a pausa entre a primeira e a segunda parte; e embora não me cause urticária, vejo como uma ‘americanice’ a entrega de anéis aos vencedores do Campeonato do Mundo. Espero, também, que nunca mais um Chefe de Estado se gabe de ter metido uma cunha ao presidente da FIFA.
* Eusébio da Silva Ferreira jogou no México (CF Monterrey), Estados Unidos (Boston Minutemen, Las Vegas Quicksilver e New Jersey Americans) e Canadá (Toronto Metros-Croatia). O Mundial de 2026 joga-se onde o ‘King’ espalhou o que lhe restava de magia…