Lamine Yamal: «O meu pai andou por sucatas para que eu pudesse comer»
Aos 19 anos, Lamine Yamal mostra-se acostumado ao estatuto que atingiu como um dos jogadores mais conhecidos do mundo. Fez a estreia pelo Barcelona com 15 anos e não demorou muito a se destacar no clube e depois na seleção, onde já ganhou o Euro e o Mundial. Mas sem nunca esquecer as suas origens.
O gesto que faz com as mãos quando marca um golo sinaliza o código postal de Rocafonda (304), onde tenta deixar o seu lado mais pessoal, sem o revelar ao mundo, como explicou em entrevista ao The Guardian.
Ao ser-lhe perguntado se as pessoas conhecem o verdadeiro Lamine, a resposta é perentória: «Não. De todo. Ninguém. Só o meu círculo mais próximo sabe o que penso, como sou. As pessoas não fazem a mínima ideia – nem a mínima, nenhuma.»
Isso tem a ver com o bairro onde cresceu. «Lá, quanto menos as pessoas sabem sobre ti, mais feliz és e mais tranquila é a tua vida», diz, referindo um desejo que se tornou impossível de concretizar: «Obviamente que gosto da vida de futebolista, mas também gostaria de viver em paz, uma vida normal. O mais próximo que consigo chegar disso é que as pessoas saibam o mínimo possível.»
«Não sinto pressão no futebol»
Esta mentalidade afeta a forma como gere todas as expectativas (de si mesmo, da família, dos adeptos e da equipa que representa) em torno de um jogo. Para Yamal, a pressão que existe dento de campo é bem-vinda.
«Há alturas em que gosto da pressão. Gosto de entrar em campo, quando há grandes expectativas. Depois, há um tipo diferente de pressão que nada tem a ver com o que as pessoas dizem, nada tem a ver com futebol; é a vida. Não sinto pressão no futebol. Nunca fico em casa a pensar: “Joguei muito mal, não ganhei a Bola de Ouro, não ganhámos o campeonato.” É uma questão de responsabilidade, porque tenho a minha família», aponta.
É sem esquecer os sacrifícios feitos no passado que Yamal procura cuidar da sua família. «Sofri, lutei com eles, passámos por momentos difíceis e agora que estamos a aproveitar a vida, tenho de continuar. Se joguei futebol todos estes anos, foi porque adoro futebol, mas também por causa deles. Sei que a vida é muito mais longa. Tenho de cuidar da minha família.»
Por isso é que «no futebol não há medo», acrescenta ele. «Vi a minha mãe a lutar para que eu pudesse jogar futebol. Vi o meu pai a andar pelas ruas a recolher sucata para que eu pudesse comer. Isso é medo. Agora, se tivesse um filho, poderia cuidar dele. Se a minha mãe ou o meu pai precisassem de alguma coisa, eu poderia ajudar. Já não tenho esse medo e esse é o único medo que poderia ter na vida», conclui.