Antoine Lemarié joga atualmente em Andorra, no Sporting Escaldes - Instagram/Antoine Lemarié
Antoine Lemarié joga atualmente em Andorra, no Sporting Escaldes - Instagram/Antoine Lemarié

Jovens futebolistas, falsos agentes e comissões no centro de processo judicial em Lille

Denuncia partiu de Antoine Lemarié, antigo estudante de jornalismo e youtuber

Um processo judicial em Lille, França, está a expor um alegado esquema de falsos agentes no mundo do futebol, centrado num homem que terá intermediado várias transferências de jogadores sem possuir a licença necessária para a atividade. A denúncia partiu do futebolista semi-profissional francês Antoine Lemarié, em 2023.

Tudo começou em janeiro de 2023, quando Lemarié, antigo estudante de jornalismo e youtuber, usou a conta no Twitter para relatar as dificuldades que enfrentou ao chegar ao Panilakos Pyrgo, clube da 3.ª divisão grega.

Pouco depois, formalizou uma queixa junto das autoridades francesas, que deu origem a uma investigação por burla qualificada, trabalho não declarado e exercício ilegal da profissão de agente desportivo.

Ao ser ouvido pelos investigadores, Antoine Lemarié detalhou como foi abordado por uma empresa, aqui designada como 'Sociedade F', através de um intermediário que tratou da transferência de um clube finlandês para a Grécia.

O acordo previa que a empresa pagasse o bilhete de avião do jogador, «além da comissão», algo que nunca aconteceu. Já na Grécia, Lemarié não recebeu qualquer salário, apesar de cumprir as obrigações como jogador. O futebolista relatou ainda ter sido alvo de ameaças e «violência por parte do staff local».

O homem por detrás da 'Sociedade F' foi identificado como Brice F., um cidadão camaronês em situação irregular em França e com uma ordem de expulsão do território.

A investigação da polícia judiciária revelou que a empresa promovia as suas transferências nas redes sociais, mas não estava registada comercialmente nem constava na lista de agentes desportivos da Federação Francesa de Futebol (FFF), operando «em total ilegalidade administrativa», segundo o relatório da investigação.

As autoridades identificaram vários outros jogadores que recorreram aos serviços da empresa. Um deles declarou ter pago uma comissão de 100 euros e, posteriormente, mais 415 euros, através da compra de cupões de recarga para uma conta pré-paga.

Este método era comum a várias vítimas, com os valores a variarem. Outro jovem futebolista pagou 850 euros a Brice F. para se transferir de França para a mesma equipa grega de Lemarié, mas também nunca foi remunerado pelo clube.

Esquema movimentou cerca de €25 mil

A investigação apurou que Brice F. tinha uma rede de intermediários em vários clubes europeus, nomeadamente na Croácia e na Grécia, todos em ligação direta com ele.

Os investigadores estimam que, ao longo de três anos, o esquema tenha movimentado cerca de 25 mil euros em transações ilegais.

Os advogados das partes civis, Baptist Agostini-Croce e Léo Marronnier, sublinharam a vulnerabilidade das vítimas. «Este processo demonstra que os falsos agentes visam, na maioria das vezes, jovens atletas que sonham com o profissionalismo. As vítimas estavam todas convencidas de que estavam a lidar com um agente licenciado, quando até a empresa que ele dizia ter era puramente fictícia», afirmaram, em declarações reproduzidas pelo RMC.

«A queixa de Antoine Lemarié trouxe à luz um sistema bem montado que permitiu burlar um grande número de pessoas. O tribunal terá de recordar que os desportistas devem ser protegidos deste tipo de indivíduos», acrescentaram.