João Pinheiro será o nono árbitro português num Mundial. Foto Miguel Nunes
João Pinheiro será o nono árbitro português num Mundial. Foto Miguel Nunes

João Pinheiro no Mundial: mordam a língua mas não se envenenem!

João Pinheiro é um de 15 árbitros UEFA (de 13 países) escolhido para o Campeonato do Mundo. Isto representa muito mais do que ser «o único árbitro português», mas o imediatismo é o que é

Há sempre várias perspetivas a partir das quais podemos olhar para os factos, mesmo sendo eles os reis da melhor possibilidade que temos de aproximação à verdade, e assumindo que esta poderá sempre ser relativa e bla bla bla.

Percorrendo as notícias que foram sendo publicadas, ontem, sobre a nomeação do árbitro João Pinheiro para o Campeonato do Mundo de futebol, lia-se em vários títulos que o juiz de Braga é «o único árbitro português escolhido».

Isto é factual, logo intocável. Mas podemos ver a coisa de outra forma: João Pinheiro é o representante português entre árbitros de 13 nacionalidades escolhidos, no universo UEFA, para estar no certame dos Estados Unidos, México e Canadá. Sendo que vão 15 árbitros europeus e dois países enviam dois representantes: França e Inglaterra.

Se tivermos em conta que a UEFA tem 55 federações, concluímos factualmente que Portugal está nos 24 por cento de países que colocam árbitros no quadro da principal competição desportiva do Mundo. Não parece mau.

A proeza de João Pinheiro é tão mais relevante quanto sabemos que Portugal tem um ecossistema futebolístico que faz tudo menos acarinhar a arbitragem. Quer dizer: há quem o vá tentando, há muitos anos, e felizmente o esforço tem valido a pena.

Houve um hiato em relação à participação de árbitros portugueses em fases finais de Europeus e Mundiais, é certo, mas um olhar mais atento pela geopolítica da arbitragem internacional explica esse facto, mais que as suposições de tantos que andaram durante anos a justificar as queixas sucessivas com a demagogia do «percebe-se bem porque é que não temos árbitros portugueses nas grandes competições». O que aliás é mentira, veja-se exemplos mais recentes de finais europeias de clubes e seleções jovens.

Para não irmos mais atrás, não vá o pessoal começar a falar em Calabotes, lembro que quando Vítor Pereira, Artur Soares Dias, Lucílio Baptista ou Olegário Benquerença andaram pelos maiores palcos já a arbitragem em Portugal era fustigada semanalmente após cada jornada.

O árbitro português que mais alto subiu, Pedro Proença, chegou a ser agredido num local público por um adepto doente e desequilibrado.

João Pinheiro vai ao Mundial e muita gente deverá, desde ontem, estar a morder a língua. Se isso ajudar a refletir um pouco já será bom.