Há mesmo cuma crise de Jannik Sinner, ou é apenas um 'sonho' espanhol?
Falar-se em crise de um tenista só porque ele falhou o apuramento para as finais dos últimos dois torneios pode ser exagerado. Mas a coisa muda ligeiramente de figura se o nome do protagonista é o homem que passou mais tempo na liderança do ranking ATP no último ano e meio.
Falamos de Jannik Sinner, pois claro. O italiano que chegou pela primeira vez ao topo da hierarquia mundial em junho de 2024, superando Novak Djokovic à data, e desde então olhou de cima para toda a concorrência durante 66 semanas.
Porém, as recentes eliminações de Sinner nos quartos de final do ATP 500 de Doha e nas meias-finais do Open da Austrália acenderam o debate sobre uma possível crise. Para o agora número dois mundial e vencedor de três Grand Slams, não chegar a uma final em dois torneios consecutivos é um facto raro que não acontecia desde a segunda metade de 2024, quando foi afastado nos quartos de final em Wimbledon e no Masters 1.000 do Canadá, algo que é destacado em Espanha pelo jornal AS.
De resto, o próprio tenista italiano reconhece a fase menos positiva, embora a desdramatize. «Todos os jogadores têm altos e baixos. Tive dois anos incríveis e agora estou numa pequena quebra, mas não é algo que me preocupe. Sei que posso jogar melhor», afirmou Sinner após a última eliminação.
Preparação física deficiente?
Um dos fatores apontados para a quebra de rendimento é a preparação física. A rivalidade com Alcaraz, intensificada após uma derrota em cinco sets nos quartos de final do US Open, levou Sinner a focar-se em igualar a capacidade física do espanhol.
Porém, a readmissão de Umberto Ferrara, preparador físico que tinha sido afastado após o caso de doping que afastou Sinner durante três meses, foi reintegrado antes do US Open não resultou e tem sido questionada em Itália após o colapso físico de Sinner contra Eliot Spizzirri na terceira ronda do Open da Austrália, atribuído ao calor. A falta de frescura foi igualmente notada na derrota contra Novak Djokovic nas meias-finais, um desaire que o afetou psicologicamente, dado o seu domínio recente sobre o sérvio.
Apesar disto, após a derrota em Doha, Sinner garantiu estar bem. «Estamos a trabalhar bem; tive alguns problemas depois da Austrália, mas agora sinto-me bastante bem outra vez. Vimos que todos os jogadores tiveram dificuldades durante as suas carreiras, então não chamaria a isto ‘fadiga’ ainda», comentou.
Enquanto Sinner demonstra alguma irregularidade, Carlos Alcaraz mantém um nível elevado e já leva 60 semanas na liderança do ranking ATP no mesmo período, o que aumenta a pressão sobre o italiano, que admite também estar a testar algumas nuances táticas diferentes.
«Trabalhámos muito na transição para a rede. Também fizemos pequenos ajustes no serviço, mas são detalhes mínimos. A este nível, as pequenas coisas marcam a diferença», explicou antes do Open da Austrália. Contudo, após a recente derrota, admitiu que as novas estratégias não surtiram o efeito desejado: «Estou a tentar adicionar um par de coisas novas; desta vez não funcionaram tão bem como eu gostaria, mas nem todos os dias são iguais».
«Os espanhóis bem desejam uma crise...»
Federica Cocchi, jornalista da La Gazzetta dello Sport que acompanha a carreira do tenista há vários anos, descreve o atual estado de Sinner como um período de transição.
«Pode ser que esteja num momento de transição, fora da sua zona de conforto, a trabalhar o jogo na rede e a tática… mas ainda não tem a certeza do que deve fazer dentro do campo. O que é facto é que se nota que está triste, não é o Jannik que conhecíamos, não por perder dois jogos, mas mais pela sua atitude e pelo momento particular em que se encontra», analisa a especialista.
Quem não concorda com a ideia de que o momento de Sinner é preocupante é Adriano Panatta, lenda do ténis italiano que em 1976 venceu Roland Garros.
«Não é verdade que Sinner esteja em crise, até porque ainda só disputou dois torneios este ano. E quem é que fala em crise? A imprensa espanhola, que certamente desejava que ele realmente estivesse em crise, mas não está», disse, em declarações à RAI.
«Só falam em crise porque ele não chegou à final dos dois torneios do ano, que foram ambos ganhos por Carlos Alcaraz», defende.
Na defesa do compatriota, Panatta utiliza os nomes dos dois tenistas que o derrotaram esta época.
«Na Austrália, perdeu para o Djokovic, que é uma lenda do ténis e em Doha foi derrotado por um jovem de 20 anos [Jakub Mensik], que já é 16.º do mundo», terminou.
A mesma ideia é defendida por Steve Johnson, antigo tenista norte-americano, que, porém, aponta à necessidade de Sinner dar uma resposta forte nos dois próximos torneios.
«Não há razão para haver pânico, mas se ele não vencer Indian Wells nem Miami, aí vão começar a surgir algumas questões. Mas isso é culpa da qualidade dele. Ele ganhou esse direito», aponta.
«Nos últimos dois anos, praticamente só perdeu para o Carlos Alcaraz, por isso, acredito que se começar a perder para tipos que não se chamam Carlos mais regularmente, isso poderá começar a causar perplexidade», finalizou.