Ex-Benfica que se envolveu com a máfia revela vida na prisão: «Fui guarda-redes»
Fabrizio Miccoli deixou uma marca por vários dos clubes que representou, incluindo uma marca indelével no Benfica entre 2005 e 2007, mas hoje, admite que «devia ter tido mais cuidado e percebido como as coisas funcionavam».
Em entrevista à Gazzetta dello Sport, o ex-jogador de 46 anos disse que durante a carreira, se sentia intocável. «A minha mulher avisava-me: “Tem cuidado com quem te rodeia”. Sentia-me como o Maradona em Nápoles, sentia-me tão bem… Pensava que estava acima de tudo», recorda.
No entanto, no final de 2021, envolveu-se com a máfia e foi condenado a três anos e meio de prisão por extorsão. O caso relacionava-se com a cobrança de dívidas de uma discoteca e Miccoli era um mediador na situação, mas contou com a ajuda de um filho de um chefe da Cosa Nostra, a infame máfia siciliana.
Apego-me facilmente às pessoas, tenho tendência a confiar. Conheci esse rapaz durante a recuperação de uma lesão. Era um futebolista amador e frequentávamos o mesmo campo para recuperar. Tornámo-nos amigos, ele na altura não tinha antecedentes criminais. Sei que não fui eu que cometi aquela extorsão.
Miccoli cumpriu seis meses da pena, entre dezembro de 2021 e maio de 2022. E o momento mais difícil foi mesmo o primeiro de todos. «Foi quando me entreguei na prisão… Saí do carro e aquele último trecho a pé, em direção ao portão, com a mochila às costas, foi terrível.»
Uma posição pouco habitual
Enquanto esteve atrás das grades, Miccoli habituou-se a jogar como guarda-redes nos jogos da prisão. Mas fazia-o por segurança própria.
É verdade que fui guarda-redes. Disseram-me uma piada: “Fabrizio, aqui matamo-nos por duas coisas: as cartas e a bola”. Compreendi. Por isso, colocava-me entre os postes e, nas poucas vezes em que jogava como avançado, nunca me destacava, movia-me com o travão de mão puxado. Jogávamos uma hora por semana, era um momento despreocupado e assim devia ser.
No entanto, o que mais «atormenta» Miccoli não é a pena, mas sim uma escuta telefónica polémica: um insulto dirigido a Giovani Falcone, juiz que lutou muito contra a máfia italiana e a Cosa Nostra, tendo sido assassinado pela máfia em 1992.
«Aquele canalha do Falcone», disse Miccoli ao pé de um monumento em homenagem ao juiz. «Tenho vergonha disso», diz hoje. «Não sei como me saíram essas palavras. Era de madrugada, tínhamos acabado de sair da discoteca, a minha mente estava confusa. Estas são as explicações que dei a mim mesmo. Não procuro desculpas, só posso pedir desculpa. Cometi um erro e não me perdoo.»
As desculpas chegaram a Maria Falcone, irmã de Giovani, e ao filho Vincenzo. «Assim que cumpri a pena, voei para Palermo para me encontrar com a Sra. Maria e o seu filho Vincenzo. Eles receberam-me e compreenderam-me. Não fui lá para pedir clemência. Pedi desculpa e falei da vergonha que sentia, do quanto estava arrependido. Ela sorriu-me e disse: “Eu perdoo-te”. Fiquei comovido, senti-me libertado do verdadeiro peso que carregava. Tiramos uma foto que guardo para mim.
Já não há desavenças com a família, tanto que Miccoli vai lancçar um livro sobre a carreira (ainda que não o tenha escrito), chamado Glória e pecados de um campeão, que será apresentado na Fundação Falcone, em homenagem ao malogrado juiz.
«Mantive o contacto com o Vincenzo e espero que em Palermo possamos apresentar o livro juntos, na Fundação Falcone», afirma.
Procurar refúgio no futebol feminino
Hoje em dia, Miccoli vive focado em diferentes projetos, não se desligando do futebol.
«Vivo em Lecce, dirijo a minha escola de futebol em San Donato; com a equipa feminina, poderemos subir à Série C, o que seria um feito histórico. Tenho um negócio de alojamento local em Gallipoli e estamos prestes a concluir uma estrutura com seis suites no centro de Lecce», atira, antes de fazer uma declaração de amor à mulher, pelo apoio que teve dela.
«Sou uma pessoa diferente e devo tudo à minha mulher, Flavia. Ela sempre esteve ao meu lado. Quando eu estava na prisão, ela nunca faltava a uma visita e levava os nossos filhos. Nunca me esquecerei disso», afirmou.