É financiado por um colírio, 'exportou' o diretor desportivo para Dortmund e vai lutar pela Bundesliga
No mapa do futebol europeu, Spiesen-Elversberg é pouco mais do que um ponto invisível. A 15 quilómetros de Saarbrücken, no sudoeste alemão, relativamente perto da fronteira francesa e da cidade de Metz (90 quilómetros, a uma hora de viagem) e nem por isso assim tão distante do Luxemburgo e da Bélgica, a pequena vila do estado do Sarre tem apenas 13 mil habitantes e alberga um forte candidato a subir à Bundesliga.
Há apenas quatro anos, o SV Elversberg militava na Regionalliga Südwest, quarto escalão germânico. Hoje, o clube ocupa o terceiro lugar da 2. Bundesliga, em lugar de play-off (com o 16.º classificado na liga principal), desafiando gigantes históricos como o Schalke 04 e o Hertha Berlim.
Como é que um clube de uma aldeia chega ao topo? A resposta não está em milagres, mas numa receita de continuidade, pragmatismo e um parceiro de peso.
O triângulo do sucesso
O crescimento meteórico do Elversberg assenta em três pilares fundamentais: a estabilidade técnica, uma direção desportiva cirúrgica e o apoio financeiro da Ursapharm, gigante farmacêutica sediada na vizinha Saarbrücken.
A família Holzer, que lidera empresa e clube, trouxe o rigor empresarial para o relvado. Dominik Holzer, o presidente, nunca escondeu a ambição, mas, ao mesmo tempo, raramente fugiu ao realismo. «Temos um conceito claro, uma estrutura calma e um núcleo que funciona bem», destaca à plataforma Hylo Sport sobre a filosofia interna.
E o que é a Hylo Sport? É a divisão da Ursapharm, empresa liderada pela família Holzer, que é também a proprietária do SV Elversberg, responsável pelo marketing. Especializada em produtos de cuidados oculares e parceira oficial de gigantes como o Bayern Munique, funciona como o motor financeiro e de comunicação do projeto.
Ao canalizar também o investimento através desta plataforma, o Elversberg consegue garantir uma estrutura profissional e uma estabilidade económica raras para um clube da sua dimensão, permitindo-lhe bater-se de igual para igual com os colossos históricos do país.
A continuidade como arma
Enquanto muitos clubes mudam de treinador ao primeiro deslize, o Elversberg apostou na continuidade. Horst Steffen assumiu a equipa em 2018 e foi o arquiteto de subidas consecutivas até sair para o Werder Bremen em 2025.
O seu sucessor, Vincent Wagner, manteve a identidade. Segundo a revista Kicker, a equipa destaca-se por um futebol ofensivo e uma maturidade tática pouco comum para um recém-chegado ao convívio entre os grandes. O diretor desportivo Nils-Ole Book, há poucos dias contratado pelo Borussia Dortmund, foi o cérebro por trás das contratações cirúrgicas que fizeram o emblema evoluir de ano para ano.
Apesar de a subida ser possível, o discurso interno é de cautela. O médio e antigo capitão Thore Jacobsen, que em 2024 saiu para o 1860 Munique, ainda foi citado a dizer: «Temos uma boa harmonia. É muito divertido jogar com estes rapazes, mas o sucesso é fruto de trabalho duro e de uma mentalidade sólida.»
Também antes de arrumar os pertences no escritório, Nils-Ole Book reforçou o pragmatismo que define o clube: «Não podemos começar a sonhar agora, não seria uma boa ideia. Preferimos manter-nos realistas e focados.»
Até aqui, o Elversberg deu-se bem com a receita de Book: jogadores subvalorizados (atletas que estancaram em equipas B de grandes clubes), com fome de vencer (jogadores de divisões inferiores com potencial físico e técnico acima da média são a prioridade) e de baixo custo e alto rendimento (nenhum é comprado por valores de transferência elevados).
Um bom exemplo disto foi o que se passou no último mercado de transferências. O Elversberg aceitou transferir o seu melhor marcador, o jovem avançado marroquino de 22 anos Younes Ebnoutalib (12 golos em 17 jogos), a troco de 8 milhões de euros, para o Eintracht Frankfurt e compensou a saída com a entrada do ainda mais jovem David Mokwa, de 21 anos, pelo qual pagou 1,5 milhões de euros ao Hoffenheim. Gastou 3 milhões no total, recebeu cerca de 10.
Paralelamente, o clube ainda cultiva o que chama de «Família SVE». Não há vedetas. Os jogadores participam em eventos comunitários e a proximidade com os adeptos é total.
Esta união criou uma resiliência invulgar. Mesmo nos momentos de pressão, a equipa mantém a calma. Como escreve o jornal local Saarbrücker Zeitung, o Elversberg joga com a leveza de quem sabe que já superou todas as expectativas.
Já no que diz respeito a Book, o trabalho está feito. Aguarda-o uma missão bem diferente em complexa, 320 quilómetros em linha reta a norte: devolver a glória ao Borussia Dortmund.
A identidade tática: coragem vertical
Não é só contratar bem, é preciso coragem. Em campo, o Elversberg joga à Bundesliga antes mesmo de lá chegar. Sob o comando de Vincent Wagner (que deu continuidade ao trabalho de Horst Steffen), a equipa recusa-se a defender o resultado.
O sistema baseia-se numa pressão alta e sufocante. De acordo com a Kicker, o Elversberg é uma das equipas da 2. Bundesliga que mais tempo passa no último terço do campo adversário.
A verticalidade é a palavra de ordem. Assim que recuperam a bola, o objetivo é chegar à baliza em poucos toques. «Não temos medo de falhar passes, desde que a intenção seja atacar», afirmou Wagner após a vitória de 2024/25 contra o Hamburgo.
A nova face da 'Kaiserlinde'
A Ursapharm-Arena — anteriormente Waldstadion an der Kaiserlinde («Estádio da Floresta junto à Tília do Imperador») — passou por uma metamorfose profunda. Para competir na 2. Bundesliga e, agora, sonhar com a elite, o clube teve de demolir e reconstruir partes inteiras da infra-estrutura enquanto a bola rolava. A joia da coroa é a nova Bancada Oeste (Westtribüne). Esta estrutura moderna não só aumentou a capacidade, como trouxe as condições de hospitalidade exigidas pela Liga Alemã de Futebol (DFL). O estádio atingiu a marca crucial dos 15 mil, o mínimo regulamentar para a primeira divisão.
Uma vila dentro de um estádio. O cenário é quase surreal. Spiesen-Elversberg tem cerca de 13.000 habitantes. Com a lotação esgotada, o estádio consegue albergar toda a população da vila e ainda sobram 2.000 bilhetes para os adeptos visitantes.
«É um desafio logístico sem precedentes», escreveu na altura o Saarbrücker Zeitung. As estradas de acesso e os transportes públicos da pequena localidade tiveram de ser totalmente repensados para evitar o colapso em dias de grandes receções, como as que se esperam eventualmente contra Bayern ou Dortmund.
Há aqui doping financeiro por parte da Ursapharm. A remodelação só foi possível graças ao financiamento direto através da Hylo Sport. Ao contrário de outros clubes que dependem de subsídios estatais lentos, o Elversberg avançou com capitais próprios da família Holzer. Este modelo de clube-empresa é o que permite ao clube ter um centro de treinos de última geração, apontado pela Kicker como um dos melhores da região sudoeste da Alemanha.
A regra do 50+1
O sucesso do estádio e do clube traz à tona um debate sensível na Alemanha: a regra do 50+1, que impede que investidores externos tomem o controlo total dos clubes. No caso do Elversberg, a ligação à família Holzer é aceite porque Frank Holzer é um homem da casa e ex-jogador. Frank começou por treinar a equipa nos escalões regionais. Mais tarde, passou o testemunho da presidência ao filho Dominik, que também jogou e treinou.
Só que o investimento da empresa (famosa pelo colírio Hylo-Comod) não é desmedido, mas sim constante. Se o clube subir à Bundesliga, o escrutínio sobre a influência da farmacêutica será total. O clube tem-se defendido apresentando uma estrutura de sócios ativa, mas é inegável que, sem a Hylo Sport, a arena ainda seria um campo de província. O tal da floresta junto à Tília do Imperador.
No entanto, o Elversberg não está a crescer sozinho. O estado do Sarre, historicamente ligado à exploração mineira, vê neste clube um novo símbolo de modernidade. O pequeno SVE conseguiu o que o histórico vizinho Saarbrücken não consegue há décadas: estabilidade e visão de longo prazo. A remodelação da Arena é vista como um investimento que ultrapassa o futebol; é um cartão de visita para uma região que quer mostrar que sabe inovar. O impacto económico no estado do Sarre é enorme. O comércio local e a hotelaria da região de Neunkirchen vivem um boom graças às visitas de clubes históricos.
Em entrevista à Kicker, Frank Holzer explicou a filosofia: «Não queremos ser um clube de plástico. Somos da região e investimos na região.» O dinheiro é aplicado em infraestruturas e formação, não em contratações galácticas.
O sonho da elite está agora a escassos pontos de distância. Para o resto da Alemanha, o Elversberg é uma surpresa. Para os da casa, é muito mais do que isso.