A INZONE é um espaço seguro e adaptado, para pessoas neurodivergentes poderem assistir a qualquer jogo no Estádio do Dragão - Foto: FC Porto
A INZONE é um espaço seguro e adaptado, para pessoas neurodivergentes poderem assistir a qualquer jogo no Estádio do Dragão - Foto: FC Porto

Dragão entre abafadores, abraços e a sala que torna a bola possível para todos

Futebol para (mesmo) todos. É esta a premissa que o FC Porto cumpre, graças à INZONE, uma sala sensorial, pioneira nos estádios de futebol portugueses, por onde já passaram cerca de 200 famílias

Alícia, Beatriz, Duarte, Guilherme, Martim e Pedro. Felizes com a vitória do seu FC Porto sobre o Arouca? Super, mas ainda mais por poderem tê-la vivido num espaço 100% dedicado e adaptado a eles. Em comum, estas crianças e jovens adultos têm algum tipo de dificuldade no processamento da informação sensorial, que impede que desfrutem de um jogo de futebol no meio da turbulência das bancadas.

A BOLA foi descobrir a INZONE, criada em fevereiro de 2024, que possibilita idas ao estádio num ambiente protegido. É dividida por três Zonas: a 1, uma sala fechada, com brinquedos e outros objetos relaxantes, onde os estímulos externos são controlados; a 2, intermédia (já no exterior), entre o local anterior e a bancada; e a 3, finalmente, entre os adeptos, mas sempre com acompanhamento e, se necessário, mecanismos de controlo sensorial.

«Este projeto tem tido um impacto muito positivo. Conseguimos atingir e chegar a uma tipologia de adepto que, até então, sem a INZONE, não teria possibilidade de vir ao Estádio. Reúne uma série de características e condições que permitem a pessoas com neurodivergência, independentemente da idade, ter uma sala que possibilita a regulação e que abafa e controla estímulos, que, para o comum adepto, não têm qualquer tipo de interferência, mas que, para a maior parte destas pessoas que aqui estão, impede que tenham a capacidade de assistir ao jogo até ao fim. A nível nacional somos pioneiros», explica, ao nosso jornal, a terapeuta ocupacional do FC Porto, Daniela Pinto.

A responsável relata que, ao projeto, já aderiram «cerca de 200 famílias e algumas têm repetido várias vezes a experiência». Esta época, houve a aquisição de dois lugares anuais, «um pai e um filho que perceberam a importância disto e quiseram garantir o seu lugar em todos os jogos», salienta, referindo-se a Martim (17 anos) e ao pai Hélder, que chegou a levar o filho ao Dragão algumas vezes, antes deste projeto, mas «abandonava sempre mais cedo, por sobrecarga sensorial.»

«É muito importante para o Martim. Convive com mais meninos e diverte-se mais. Ele treina no futebol adaptado do FC Porto e foi lá que soubemos desta iniciativa. Viemos experimentar e agora comprámos o lugar anual. Ele gosta muito. Quando chega a hora… lá vamos para o futebol», detalha Hélder, ao intervalo, enquanto Martim ainda pensava no golo madrugador de Pietuszewski (aos 14 segundos).

O Martim começou a ver os jogos na Zona 1, mas, neste fase, já vê sempre fora, ainda que com abafadores de som. «Primeiro fomos para a Zona 2, onde também tentámos tirar os fones, e depois fomos mesmo para a Zona 3. O que lhe mete mais confusão é a pirotecnia no início do jogo. Tem medo de foguetes. Mas agora tentamos tirá-los sempre um bocadinho, vamos experimentando, nem que seja só durante cinco minutos», explica o progenitor, acrescentando que o filho se «adaptou bem à bancada, e quer conhecer e saber o nome de toda a gente».

Quando mal interpretados, o comportamento destes adeptos pode, por vezes, incomodar outros, alerta Daniela: «A história do Guilherme [25 anos] é interessante. Quando vinha ao estádio, ia à casa de banho masculina e aí a mãe já perdia o controlo sobre ele. Muitas vezes pode haver um determinado comportamento que um adepto ao lado não compreenda e pense 'estás-te a meter comigo?', e muitas das vezes a mãe não ficava confortável. Agora, sabendo que este espaço existe, já chegou a vir sozinho.»

Guilherme, na Zona 3 e confiante numa vitória do FC Porto por «três ou quatro», recorda o treino de Natal, em que foi sozinho ao Dragão, mas também outro dia ainda mais especial: «Vim ver o FC Porto 1-0 Rio Ave, no meu dia de anos, trouxe bolo e tudo.»

«Quer connosco, equipa de terapeutas, quer eles próprios entre famílias de adeptos, cria-se uma ligação. Às vezes, coincidem famílias repetidas em alguns jogos. Do ponto de vista social, acabam por criar amigos. Na semana passada, o Guilherme comemorou aqui o aniversário e trouxe um bolo para todos — que ele não sabia quem seriam, porque só quando chega é que vê. Até trouxe um amigo. Portanto, é quase como 'ok, eu já tenho um sítio onde posso ir à bola com os meus amigos'. E tem sido muito interessante ver as ligações que são criadas aqui», tinha dito, anteriormente, Daniela.

Sónia, mãe de Guilherme, confirma que é um alívio haver um espaço adaptado para as necessidades do filho: «As pessoas não têm noção da relevância que é ter uma casa de banho disponível para eles. E mesmo a própria sala. Se tiverem algum problema, estão rapidamente num espaço seguro, onde se sentem confortáveis.»

Depois de passar por todas as Zonas da INZONE, Guilherme já só quer parar nos Aliados: «Agora gostava de ir à festa ver o FC Porto com a taça na mão e medalhas no pescoço e fazer a festa com eles.»

Como chegar à INZONE?

Alícia (12 anos) veio para a INZONE pela primeira vez. Não estava muito dada a conversas, mas sabe que quem marcou o primeiro golo foi «o Oskar», porque dizer Pietuszewski «é muito difícil».

«A mãe da Alícia estava dizer que, se soubesse disto mais cedo, já tinha vindo mais vezes, porque sabe que aqui vai conseguir ver o jogo e na bancada não. Ou seja, o projeto nem sempre chega à população alvo», aponta, a A BOLA, a diretora de sustentabilidade do FC Porto.

Teresa Santos explica que os pedidos para aceder à sala devem ser enviados para o e-mail inzone@fcporto.pt: «São depois contactados pela terapeuta Daniela, que faz uma avaliação prévia para perceber se há mesmo necessidade de virem para este espaço.»

«A avaliação vai permitir perceber o número de pessoas que podemos ter em determinado jogo. Não temos uma capacidade fixa. No caso de uma família querer vir a um jogo, mas já não tivermos lugares, fica em lista de espera para um próximo e terá prioridade», acrescenta, referindo também que as famílias pagam apenas o preço de um bilhete normal, mas têm, depois, «um terapeuta a acompanhar, lugar de parque e o acesso direto do parque até aqui acompanhado por uma hospedeira».

«Não temos uma lotação fixa, até porque nem todos gostam de estar sentados. Tentamos limitar a cinco ou seis famílias no máximo. A Zona 2 era um espaço onde tínhamos menos lotação e um dos investimentos que fizemos para este segundo ano foi aumentar esse, que é um espaço intermédio onde sentimos que as famílias passam mais tempo», explica.

Duarte, de 7 anos, na Zona 2, acompanhado pelo Draco e pela Viena - Foto: FC Porto

Só falta mesmo… um elevador

Por falar em investimento, vem aí a próxima contratação da INZONE: um elevador, que tornará, por fim, a sala «totalmente inclusiva, com zero barreiras», como anuncia Inês Andrade, diretora de comunicação da Betano Portugal, parceira do clube azul e branco neste projeto.

«Comprometemo-nos com o FC Porto a financiar a 100% a construção de um elevador que dê acesso aqui acima. Subir aquelas escadas é uma barreira física, infelizmente, mas até agora não tínhamos outra opção. O elevador irá eliminar por completo as barreiras», complementa.

«É difícil gerir»

Novamente, de olhos postos no jogo, Alícia é questionada se quer ir para fora sentir o ambiente e responde, prontamente: «Não, faz muito barulho.» Quem, pelo contrário, aceita o desafio é Beatriz, de 19 anos. Quase no fim da 1.ª parte, ganhou coragem de descer da Zona 1 para a Zona 2 e afirma ter adorado a transição: «Aqui é top, adrenalina! Lá dentro não ouço nada.»

E sobre avançar para a Zona 3, onde já estava Guilherme? «Por mim, está tudo bem, mas não gosto de petardos», afirma. Beatriz acabou por ir, acompanhada pela irmã Inês, sem, no entanto, se fazer lá muito velha... Não que tenha rebentado algum petardo, mas um senhor a reclamar para dentro de campo, ali ao lado, mexeu-lhe com as emoções. Além disso, «viu que havia as saídas de fogo e ficou incomodada», explicou a irmã. «É difícil gerir. Ela quer muito estar fora, só que há demasiados estímulos», acrescenta, já em tempo ao intervalo.

No reatar do encontro, Beatriz volta a ganhar coragem e vai para a Zona 2, quase sempre acompanhada pelo pequeno Duarte, que sabe todos os cânticos.

Ao cair do pano, o inesperado aconteceu... Dois golos, para garantir a vitória dos azuis e brancos. William Gomes e Moffi voltam a deixar Beatriz eufórica, já em tempo de compensação. Alícia, contudo, não viu o terceiro tento dos dragões. Saiu antes, porque ia de metro para casa e a mãe quis «evitar a confusão», com que a criança «lida mal».

Na etapa complementar, também Pedro, de 23 anos, encarou a fase derradeira da INZONE. «Sou autista, mas é uma coisa mais leve. Esta é uma iniciativa muito boa, principalmente, para quem tem problemas com sons. O sítio é bastante calmo. A mim, fora, até é mais o frio que me incomoda», assume.

3-1 é o resultado final. Muita alegria no Dragão e, em especial, na Zona 3, onde o carinho fala mais alto. Pedro abraça o irmão, Diogo. Martim abraça o pai, Hélder. Guilherme abraça a mãe, Sónia. E dizem: «daqui a duas semanas há mais!»

Quem também esteve a acompanhar estes adeptos, no início do FC Porto 3-1 Arouca, foi a jogadora de voleibol Lila Durão. «Acho este projeto sensacional, estou maravilhada. Estar aqui hoje é perceber quão importante é para estas crianças e famílias ter oportunidade de ver e vivenciar um jogo de futebol, mas de uma forma muito mais especial», enalteceu a internacional portuguesa.

A atleta do voleibol do FC Porto Lila Durão esteve na INZONE - Foto: FC Porto