Dorival Júnior, 63 anos, treinador do Corinthians que também já liderou a seleção brasileira - Foto: Imago
Dorival Júnior, 63 anos, treinador do Corinthians que também já liderou a seleção brasileira - Foto: Imago

Dorival Júnior está errado

'JAM sessions' é o espaço de opinião de João Almeida Moreira, correspondente de A BOLA no Brasil

«Acho que está na hora de intervirmos em relação ao número de estrangeiros em cada equipa brasileira. Nós estamos penalizando uma geração e, futuramente, pagaremos um preço muito alto.»

A frase é de Dorival Júnior, treinador do Corinthians, e prova que as questões da emigração hoje em dia não têm fronteiras — anda nas manchetes em Portugal e demais países europeus, nos Estados Unidos e, pelos vistos, no Brasil.

No Brasileirão, que permite que cada equipa convoque até nove atletas de fora do país por partida, há 131 estrangeiros inscritos na edição de 2026 entre os cerca de 600 espalhados pelos 20 participantes.

Na Liga Portugal há, pelo contrário, 138 portugueses em 489, segundo contabilidade do site Sportingpedia. Na Premier League, são 149 ingleses num total de 528 atletas.

Ou seja, há exatos 71,78% de não portugueses na Liga Portugal e de não ingleses na Premier League. No Brasileirão, há, aproximadamente, 21% de não brasileiros.

Se Dorival se queixa à imprensa, os treinadores portugueses e ingleses deviam, portanto, suplicar ao Papa.

Por outro lado, o Brasil exportou 1217 jogadores de futebol em 2023, segundo o relatório anual de transferências da FIFA daquele ano. O valor dos negócios envolvendo atletas do país do futebol respondeu a 10%, o equivalente a 935 milhões de dólares, do valor total movimentado no planeta. No contexto da globalização, as exportações de pé de obra cresceram 66% em 10 anos, com franceses e argentinos no segundo e no terceiro lugares, dizia ainda o estudo.

Noutra pesquisa, do site Trivela, daqueles mais de 1200 jogadores brasileiros emigrados, 195 atuavam nas sete ligas mais fortes da Europa, a Premier League, a LaLiga, a Bundesliga, a Serie A, a Ligue 1, a Eredivisie e a Liga Portugal, a mais concorrida, com 108 atletas do maior país sul-americano. Somadas todas as divisões portuguesas, o número disparava para 684.

Ou seja, em nome da reciprocidade, como o país que mais exporta se permite preocupar-se com o número, por comparação ínfimo, de importações?

Depois, o argumento de Dorival do «preço muito alto» também não colhe. Ainda segundo o estado da Sportingpedia, no top-10 das ligas europeias em volume de transferências, as citadas inglesa e portuguesa são as que menos apostam nos jogadores dos próprios países.

E, no entanto, as gerações de uma e outro até são chamadas de douradas pela crítica: a Inglaterra foi semifinalista mundial em 2018 e finalista das duas últimas edições do Europeu, a melhor performance pós-Mundial de 1966; já Portugal ganhou os primeiros títulos seniores, duas Ligas das Nações e um Europeu, nos últimos 10 anos.