Dá-me a tua camisola
Com as devidas distâncias para um consagrado Di María, estiveram juntos em campo na semana passada os dois jogadores mais entusiasmantes da Liga: João Neves e Viktor Gyokeres. Do português já poucas dúvidas havia no início da época, tendo segurado lugar no onze de Roger Schmidt; do sueco cedo se percebeu porque andou o Sporting meses atrás dele, e porque em Coventry tantos lamentaram a sua saída. Ambos transmitem emoção ao jogo e para fora dele, são exemplos de luta, perseverança. Têm aquele ar de que se alguém lhes dissesse, no fim de um jogo, ‘olha, João, tens de jogar mais um agora’; ‘escuta Viktor, afinal são mais 90 minutos’, os dois diriam ‘vamos a isso’.
São, como até já sublinhou o treinador Rúben Amorim, figuras influentes acima da cor que representam. «Gyokeres não é um ídolo só dos sportinguistas», disse o treinador. Basta ver como o seu misterioso festejo se espalha por vários clubes e modalidades. ‘Este sueco, realmente’, já terão dito muitos não sportinguistas, desejando vê-lo rapidamente pelas costas. ‘O miúdo joga muito’, já terão dito gentes não benfiquistas; ambos promovem o jogo de forma positiva, e é por isso que terei muita pena de os ver inevitavelmente sair no fim da época, deixando o nosso campeonato, incapaz de os segurar, mais pobre. (Tal como deverá acontecer com o argentino e o seu pé esquerdo). Por cada um faria um cartaz a pedir «dá-me a tua camisola».
A onda de solidariedade que se gerou em torno do luto pela morte da mãe, espelha bem a influência de Neves - e podemos lembrar os assobios que Schmidt recebeu quando o substituiu na Luz frente ao Farense -, que foi para estágio e jogou em Toulouse 3 dias depois de tamanha perda, e apenas uma semana depois de dizer com toda a honestidade do mundo, «já fiz algo pelo futebol».
Lembrei-me de um Cristiano Ronaldo com 20 anos, que jogou no dia a seguir à morte do pai, em 2006, na Rússia, e que desde então também já fez ‘algo’ pelo futebol. Fez muito, podemos corrigir. Talvez por isso, e porque ele sim é global há muitos anos, devesse apelar a todos os deuses da meditação, aplicar toda a força de vontade que o empurra para o ginásio, ser mais zen, e respirar fundo quando lhe gritam o nome de Messi.
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