Maxi Araújo em duelo com Viktor Gyokeres no Sporting-Arsenal
Maxi Araújo em duelo com Viktor Gyokeres no Sporting-Arsenal - Foto: IMAGO

Arsenal-Sporting: haverá esperança para Londres? Why not?

Há noites europeias que se jogam em números e há noites europeias que se jogam em crença e atitude. O problema, ou a beleza, é quando os números dizem uma coisa… e o futebol insiste em escrever outra.

Depois da derrota por 0-1 em Alvalade, frente ao Arsenal, o Sporting vê o seu futuro na Liga dos Campeões drasticamente reduzido nas contas do supercomputador da Opta. De uns já modestos 21,29%, os leões caíram para uns quase residuais 8,31% de hipóteses de seguir em frente. Mais: apenas 0,98% de probabilidade de conquistar a orelhuda. Números frios e crus. Pura matemática. Mas o futebol nunca foi apenas matemática.

O golo de Kai Havertz, à beira do apito final, não foi apenas um golpe no resultado, foi um golpe psicológico. E ainda assim, quem viu o jogo sabe que aquele 0-1 não conta a história toda. Muito pelo contrário. Durante largos períodos, o Sporting não só enfrentou o Arsenal olhos nos olhos como o empurrou para trás, obrigando os ingleses a baixar as suas linhas. Logo aos seis minutos, Maxi Araújo fez estremecer a trave. O guarda-redes David Raya fez, ao longo do jogo, 5/6 defesas decisivas. Foi, inclusive, eleito o melhor em campo e isso, por si só, diz tudo. 

Mas por que razão esta eliminatória parece, aos olhos da estatística, praticamente resolvida? A resposta está, em grande parte, na história e essa não tem sido simpática para o Sporting em solo inglês. Em mais de um século de confrontos, os leões somam apenas duas vitórias em 17 jogos oficiais disputados em Inglaterra, contra nove derrotas e seis empates. Um registo que pesa, e muito, nas contas frias dos algoritmos. O primeiro triunfo verde e branco em Terras de Sua Majestade remonta a 21 de outubro de 1981, no antigo The Dell, diante do Southampton, por 2-4, na primeira mão da segunda ronda da Taça UEFA. O segundo, e último, surgiu já em 2005, no Riverside Stadium, frente ao Middlesbrough, por 2-3, também na primeira mão, desta vez dos oitavos de final da mesma competição.

De resto, a história construiu-se sobretudo com dissabores: derrotas frente ao Manchester United (1964 e 2007), Newcastle (1968 e 2005), Sunderland (1973), Everton (2010), Manchester City (2012), Chelsea (2014) e… o próprio Arsenal (1969). Os empates, esses, foram sendo pequenos sinais de resistência: Newcastle (2004), Bolton (2008), Manchester City (2022), Tottenham (2022) e Arsenal em 2018 e 2023.

Concretamente frente ao Arsenal, o cenário não é animador: zero vitórias em oito jogos. Os londrinos levam vantagem, com quatro vitórias e quatro empates, apresentando ainda um registo expressivo no capítulo dos golos: 13 marcados contra apenas quatro sofridos.

Um passado que ajuda a explicar o ceticismo das probabilidades. Um desequilíbrio claro, pelo menos no papel, que reforça o peso do desafio que o Sporting tem pela frente na próxima quarta-feira, mas que, como tantas vezes no futebol, não tem de ditar o futuro porque há memórias que também jogam a favor. Como aquela noite no Emirates, em 2023, quando o Sporting eliminou o Arsenal na Liga Europa (1-1 no final dos 90 minutos, 3-5 após o desempate por grandes penalidades). Uma noite marcada pela exibição heroica dos leões e pelo golaço de Pedro Gonçalves, um daqueles golos que ficam para sempre: míssil do meio-campo. Um momento que não apaga o passado, mas prova que ele pode ser desafiado. E há o presente. E esse, convenhamos, é mais animador do que os números sugerem…

O regresso de Morten Hjulmand dá músculo, liderança, capacidade de pressão e equilíbrio ao meio-campo. A equipa está confiante, competitiva e, acima de tudo, consciente do seu valor. O jogo da primeira mão deixou isso claro: este Sporting pertence, sem discussão, à elite europeia.

Mas há mais camadas nesta eliminatória e ignorá-las seria simplificar demasiado o que está em jogo. Desde logo, o plano estratégico. O Sporting de hoje é uma equipa madura, que sabe sofrer e sabe esperar. Não precisa de dominar sempre com bola para ser perigosa. A transição ofensiva tem sido uma arma afiada, e é precisamente aí que pode ferir um Arsenal que, quando se expõe, deixa espaços entre linhas. A velocidade nos corredores, a capacidade de chegada à área e o remate exterior são argumentos a explorar na quarta-feira.

Depois, há a dimensão emocional. Jogar em Londres não é apenas enfrentar um adversário; é enfrentar um ambiente, uma pressão, uma narrativa quase pré-escrita. Mas este Sporting já mostrou não se encolher. Pelo contrário: cresce. E crescer em palco grande é meio caminho andado para surpreender. Recordo que esta época já venceu o PSG, campeão europeu em título…

E não se pode ignorar um detalhe muitas vezes decisivo: o primeiro golo. Se o Sporting marcar primeiro no Emirates Stadium, tudo muda. O estádio inquieta-se, o Arsenal hesita, e a eliminatória reabre-se de forma imediata. O tempo, que hoje parece inimigo, transforma-se em aliado.

Do outro lado, o Arsenal é favorito e bem. Parte em vantagem na eliminatória, tem melhores jogadores — não tem melhor equipa —, mais profundidade, mais experiência e joga em casa. Mas não vive um momento imaculado. As exibições têm estado longe de convencer, a equipa não está confiante, não tem um jogo convincente e a recente eliminação da Taça de Inglaterra deixou marcas. Há qualidade, sem sombra de dúvida. Mas também há fragilidade e desconfiança. E é aqui que entra o fator que nenhum supercomputador consegue medir: a liberdade. O Sporting entra em Londres sem nada a perder. Sem qualquer tipo de pressão. E, no futebol, isso é uma arma poderosíssima. Porque enquanto o Arsenal carrega o peso do favoritismo e das probabilidades (33,33% de hipóteses de vencer a competição, segundo a Opta), o Sporting carrega apenas a ambição e o seu orgulho. E, por vezes, é essa leveza que faz a diferença entre cair… ou fazer história.

Há ainda um último fator, menos tangível, mas não menos importante: a identidade. Este Sporting tem uma ideia clara de jogo, uma cultura competitiva vincada e uma crença coletiva que não se abala facilmente. Não é uma equipa que dependa do acaso: constrói, insiste, acredita e luta.

Dizia Manuel Cajuda que «cada jogo é uma arte nova». Pois bem: o Emirates Stadium será mais uma tela em branco pronta para ser pintada.

Os números dizem que não. A história hesita. Mas o futebol e os seus artistas… esses ainda não se pronunciaram. E quando eles se pronunciarem, talvez a pergunta faça ainda mais sentido:


Haverá esperança para Londres? Why not?

«Liderar no Jogo» é a coluna de opinião em abola.pt de Tiago Guadalupe, autor dos livros «Liderator - a Excelência no Desporto», «Maniche 18», «SER Treinador, a conceção de Joel Rocha no futsal», «To be a Coach», «Organizar para Ganhar» e «Manuel Cajuda – o (des)Treinador».