Da cama de solteiro partilhada com o pai... ao título Mundial de um fenómeno
Wu Yize fez muitos fãs de snooker abrirem a boca de espanto ao sagrar-se campeão mundial no domingo. Aos 22 anos, o chinês tornou-se no segundo mais novo de sempre a ser coroado no mítico Crucible Theatre, mas só os mais distraídos podem ter sido apanhados de surpresa.
Afinal, um tal de Ronnie O’Sullivan tinha avisado antes do início do Mundial para o potencial do jovem chinês. «Este miúdo é especial, acredito que vai alcançar grandes feitos no snooker», alertou o lendário jogador, antes de fazer um prenúncio que não demorou a concretizar-se.
«Treinei com ele durante dois ou três dias em Hong Kong e é aí que se consegue apreciar realmente quão bom o jogador é. Deem-lhe uns três anos até ele ser número 1 do ranking. Sem dúvida que será campeão mundial muito em breve, porque é um jogador fenomenal», vaticinou.
Mas qual é afinal a história por detrás do jovem que sucede ao compatriota Zhao Xintong, tornando-se apenas no segundo asiático a vencer a competição, e que em termos de precocidade como campeão mundial apenas é superado por Stephen Hendry, que em 1990, aos 21 anos, conquistou o primeiro dos seus sete títulos?
Da limitação técnica a um título mundial aos 14
Natural de Lanzhou, no noroeste da China, Wu Yize joga snooker desde que começou a conseguir agarrar no taco, ainda muito novo. O talento natural que demonstrou fez o pai deixar o emprego para poder acompanhá-lo em torneios, enquanto a mãe se manteve a gerir o negócio de antiguidades da família.
Aos 11 anos, quando fez um estágio com o australiano Roger Leighton em Taiwan, Wu apresentava lacunas técnicas que tiravam consistência ao seu jogo e o faziam falhar demasiadas bolas fáceis.
Contudo, os progressos foram muito rápidos o que lhe permitiu vencer o mundial de sub-21 com apenas 14 anos (!), em 2018.
Pouco depois tomou uma decisão que lhe mudaria a vida. De todas as formas.
Deixou a China para trás e tornou-se profissional aos 17 anos, um ano depois de se ter mudado da cidade chinesa de Lanzhou para a capital mundial do snooker, Sheffield, em busca do sonho na modalidade.
Ao seu lado teve sempre o pai, que o acompanhou em todas as fases da perseguição do sonho, mas pagaram o seu preço por ele.
Chegaram ambos a Inglaterra sem falar inglês e durante três anos partilharam a mesma cama de solteiro numa pequena casa sem janelas para que Wu pudesse estar inserido na elite chinesa da modalidade que já trabalhava em Sheffield.
Depois, foi ver o talento crescer. Wu destacava-se dos demais pelo estilo agressivo de jogar, preferindo o risco audaz ao mais habitual calculismo chinês.
E conseguiu colher os frutos de todos os riscos que tomou no ainda curto percurso.
Após coroar-se campeão ao bater Shaun Murphy na ‘negra’ – inglês que já era campeão do mundo quando o chinês tinha apenas 18 meses – Wu emocionou o público no Crucible com uma dedicatória emotiva.
«Os meus pais é que são os verdadeiros campeões. Desde que decidi deixar a escola, o meu pai ficou sempre do meu lado e a minha mãe também teve de passar por muito ao longo destes anos. Eles são a minha verdadeira força», declarou.
E agora, com os 600 mil euros de prémio, se cumprir o desejo que assumiu no início do Mundial, vai «comprar a casa dos sonhos». Certamente, uma com muitas janelas e na qual caiba mais do que uma cama de solteiro.
Afinal, o sonho cumpriu-se e Wi Yize agora é campeão do mundo.