O Vianense compete atualmente no Campeonato de Portugal e ambiciona o regresso à Liga 3 - Foto: Vianense SAD
O Vianense compete atualmente no Campeonato de Portugal e ambiciona o regresso à Liga 3 - Foto: Vianense SAD

Criado por burgueses e adotado pela classe piscatória, o Velhinho nunca mais naufragou

Quando em Viana do Castelo se ouve «o Velhinho» já se sabe do que se trata: fala-se da Caravela que nunca foi ao fundo. O Vianense é dos clubes mais longevos de Portugal - num feito que é mesmo para muito poucos

A 13 de março de 1898, nascia um dos emblemas mais longevos de Portugal. O Sport Clube Vianense foi fundado no século XIX e chegou ao XXI sem nunca cair. «É uma história muito longa. Apesar de algumas dificuldades, temos conseguido manter o clube em funcionamento. Já tivemos períodos melhores, outros piores, mas sempre em atividade», enaltece o atual presidente, Rui Pedro Silva, em conversa com a A BOLA.

O histórico minhoto é dos mais antigos de Portugal com atividade ininterrupta. No Norte, só o FC Porto (fundado em 1893) parece fazer-lhe frente. É, todavia, aqui que os vianeses sublinham a palavra-chave «ininterruptamente», lembrando que, como os próprios dragões reconhecem, os azuis e brancos tiveram um período de menor atividade e regressaram apenas em 1906.

Recordes à parte, vamos à bola! «Quando o Vianense inicia a atividade, a modalidade de futebol não é das primeiras», explica o dirigente. O ludopédio viria a aparecer apenas em 1923, num dos «detalhes mais curiosos da história do Vianense», como passa a contar o presidente.

«Nesse ano, acolhemos a secção de futebol de outro clube da cidade que é o Viana Taurino Clube. A 21 de novembro de 1923, houve uma reunião de direção em que foi discutido um contrato de cedência dos terrenos adaptados a campos de jogos desportivos que o Taurino Clube tinha na Quinta de Monserrate, que é onde fica o Estádio Dr. José de Matos. Nunca mais saímos de lá, até hoje», enaltece.

O Vianense nem sempre foi um clube do povo - Foto: Vianense SAD

São mais de 100 anos a jogar no mesmo local. Lá dentro, (quase) sempre pessoas com jeito para socializar com o esférico. Fora, nem sempre gente da mesma esfera social. «Contrariamente àquilo que, às vezes, é dito até mesmo aqui em Viana, o Vianense não é um clube de origem popular. E isto tem uma explicação histórica lógica: infelizmente, nesse período, as classes mais baixas não tinham capacidade nem tempo para se dedicarem a estas atividades e criarem um clube. O Vianense é de origem burguesa», admite Rui Pedro Silva.

Todavia, com o passar dos anos, algo mudou e, irremediavelmente, a alma do povo foi-se entranhando no clube: «O Vianense acabou por ser adotado pela classe piscatória da cidade. Portanto, em determinado momento, houve uma relação extremamente próxima entre o Vianense e essa classe, até porque a zona que fica mais próxima da ribeira de Viana tem uma área ampla, onde as crianças e os jovens, como era hábito, jogavam futebol desde manhã até que o dia se punha.»

Campo da Agonia: uma fábrica de talentos

Era nessa área ampla da qual o presidente fala que os caça… perdão, os pesca-talentos punham os seus olhos: «Aquilo era a base de recrutamento. Muitos dos atletas que depois representavam o Vianense eram recrutados nessa zona que é o Campo da Agonia, onde as crianças e jovens da cidade jogavam todo o dia.»

«Houve, durante tempo, uma relação muito próxima da comunidade piscatória com o clube. Portanto, em determinado momento, o Vianense teve uma relação mais próxima com a essa comunidade e uma vertente mais popular, apesar de que no início ser um clube de origem burguesa», finaliza.

Hoje, o talento vianense é representado ao mais alto nível por craques da seleção nacional que, de facto, são portadores de uma qualidade do mais aburguesado que existe no mundo do futebol. São eles Pedro Neto (Chelsea) e Francisco Trincão (Sporting).

Uma das marcas identitárias mais fortes de Viana

Rui Pedro Silva elogia que as gentes de Viana nunca tenham deixado cair o clube, mas não esconde uma mágoa: «No início, o Vianense era dos clubes de futebol mais fortes do norte. Batia-se com os que hoje são os maiores nacionais, nomeadamente FC Porto, SC Braga, Vitória de Guimarães e o próprio Boavista. Depois, fruto de um conjunto de contingências de infelicidade, o Vianense não conseguiu acompanhar o crescimento deles. Somos dos poucos distritos que nunca tiveram um clube na I Divisão.»

Não é, no entanto, por não estar nos escalões superiores que o Vianense deixa de ser um dos símbolos mais fortes da cidade. Sempre o foi. «Fez o cadastro das estradas do Alto Minho em 1911. Teve também, durante bastante tempo, a responsabilidade de organizar aquele que é dos momentos altos da cidade, que é a romaria de Nossa Senhora da Agonia», sublinha o líder do Vianense, desde 2015.

O Vianense celebrou a 13 de março o 128.º aniversário - Foto: Vianense SAD

«Ao longo destes 128 anos, dedicou-se à prática de quase todas as modalidades desportivas. Há hoje inclusive um conjunto de clubes na cidade, como a Associação Juventude de Viana (hóquei), o Voleibol Clube Viana, o Clube de Basquete de Viana, que tiveram a origem em secções de modalidade do Vianense», acrescenta. Atualmente, a entidade desportiva tem automobilismo, bilhar, ciclismo, futebol, handebol, dança desportiva, judo, walking football, ténis de mesa e flag football.

O Velhinho é de todos

Quando, nas emblemáticas ruas de Viana, se ouve «o Velhinho» já sabe que a conversa tem carinho. «Os vianenses gostam muito do clube. É conhecido como o Velhinho. Seja um responsável político da Câmara Municipal ou um adepto do clube, todos sabem bem a quem se estão a referir. Há um tratamento muito afetuoso dos locais. Quase todos os vianenses têm familiares que, de um forma ou outra, estiveram ligados ao Vianense — seja como atletas ou funcionários, o que for», refere Rui Pedro Silva.

Equipa do Vianense 2024/26 sonha com a Liga 3 - Foto: Vianense SAD

Paulo Gomes, vianense de gema, fez parte do plantel e era um dos capitães do plantel que deu o único troféu nacional ao museu dos minhotos. Em 1998/99, movido pela vingança, após uma época anterior que Viana ainda hoje recorda como um «escândalo», o emblema máximo da cidade foi campeão da III Divisão.

«Na época anterior tínhamos descido de divisão de uma forma controversa. Havia uma liguilha de três equipas e só descia uma. O último jogo foi o Guarda-Machico [o Vianense tinha dois pontos e as outras duas equipas apenas um]. Toda a gente que viu esse jogo percebeu que foi uma autêntica palhaçada. Os jogadores combinaram, ficou 3-3 [ficaram todos com dois pontos, mas os últimos acabaram por sorrir no desempate por golos], o resultado que lhes interessava. Foram golos quase de rir. Eles podiam ter feito bem a coisa, mas nem isso souberam fazer», começa por contar o antigo central, a A BOLA.

No ano seguinte, continua a dizer, graças a um grupo forte e com um objetivo bem definido, o Velhinho deu uma valente cajadada nas injustiças, voltando à II B e sendo campeão: «Na altura, caímos para a III e o presidente - recordo-me bem das palavras -, na apresentação da equipa, disse que tinha feito o plantel de 98/99 não só para subir, mas para ser campeão. Elevou a fasquia logo no primeiro dia. O que é facto é que fizemos uma época memorável.»

Plantel que conquistou o único título nacional do Vianense em 1998/99 (III Divisão). Paulo Gomes em destaque - Foto: D.R.

Essa conquista foi o pináculo da história do clube. Paulo Gomes lembra-se bem: «Ficou-me na memória a mobilização da cidade. A cada jogo, tínhamos mais gente no estádio. O culminar foi na Figueira da Foz, na final contra o Lusitânia dos Açores (3-0). Se não estou em erro, estavam lá cerca de 7.000/8.000 pessoas de Viana a ver.»

«No regresso, chegámos à Praça da República, que é uma zona emblemática da nossa cidade, e estava a rebentar ao nível talvez das festas da Senhora da Agonia. Chegarmos à cidade e vermos aquela maré de gente à nossa espera foi espetacular. Percebemos aí a verdadeira dimensão do Vianense. Uma cidade relativamente pequena conseguir levar tanta gente a um estádio no centro do país demonstra o que o Vianense poderia ser se caso conseguisse atingir os campeonatos profissionais», acrescentou.

Na visão de Paulo Gomes, é mesmo isso que falta para agarrar as pessoas ao clube. Estar num patamar mais elevado: «É uma cidade que tem tudo para ter um clube nos campeonatos superiores, mas, por uma razão ou outra, ao longo destes 128 anos, não tem conseguido afirmar-se.»

O histórico capitão do Vianense, Paulo Gomes - Foto: D.R.

Rui Pedro Silva, na liderança de uma direção da qual Paulo Gomes também faz parte, garante estar a tratar disso, com um projeto assente em «três grandes objetivos, sem priorizar nenhum deles sobre os outros».

Um: «Passa por conseguir atingir patamares competitivos mais elevados [no futebol], que passam, num primeiro momento, pela subida à Liga 3 e subsequente estabilização, no sentido de criar um conjunto de condições que depois lhe permitam atingir, de uma forma consistente, as ligas profissionais.»

Dois: «A necessidade — e isto é um objetivo que não é do clube, mas do concelho — de criar infraestruturas desportivas que permitam que a equipa principal tenha um espaço que reúna as condições para participar nas competições que pretende atingir. O estádio onde o Vianense joga desde sempre não reúne as condições necessárias para participar em competições nacionais de patamares competitivos mais elevados. Não falo só de um estádio para os jogos oficiais da equipa principal, mas também um espaço num mesmo local ou noutro para as nossas equipas de formação.»

O Vianense não muda de casa há mais de 100 anos - Foto: Vianense SAD

Três: «Abrir novas modalidades. É da maior importância que tenhamos a capacidade de diversificar a oferta desportiva PARA assumir ainda de uma forma mais efetiva a importância do clube naquilo que é o dia a dia e o que é o quotidiano dos cidadãos. É uma preocupação nossa termos oferta direcionada para toda a população.»

Quem pára este Coração de Viana?

O primeiro objetivo abordado pelo presidente está bem encaminhado. Atualmente, o Vianense é a equipa em melhor momento de forma da Série A do Campeonato de Portugal - com cinco vitórias e um empate nas últimas seis partidas. Estando em 3.º (39 pontos), a um ponto do 2.º (Limianos) e dois do 1.º (Bragança), ainda sonha com o acesso à fase de subida à Liga 3.

Muitos destes resultados positivos devem-se ao contributo do goleador de Joel Silva, que admite, ao nosso jornal, que a época não começou da melhor maneira: «Arrancámos mal, mas, com o passar do tempo, as coisas melhoraram e agora estamos num bom momento. Queremos tentar manter a boa sequência até ao final.»

Mesmo sendo atualmente o melhor marcador da Série A (11 golos), não tem sido uma temporada fácil para o avançado, de 35 anos: «Parti duas vezes a mão e também tive um problema físico, que me fez perder alguns jogos. Mas agora estou bem fisicamente e, apesar de tudo, está a ser uma época positiva.»

Joel Silva leva 12 golos em 21 jogos esta temporada - Foto: Vianense SAD