Como está a evoluir o futebol chinês
Durante vários anos, falar do crescimento do futebol chinês significava falar de grandes contratações, salários elevados e de um investimento financeiro que colocou a liga no centro das atenções. Essa fase aumentou a visibilidade da competição e trouxe conhecimento internacional, mas também demonstrou que o dinheiro, por si só, não é suficiente para transformar estruturalmente o futebol de um país.
A China atravessa agora uma etapa diferente. Os clubes continuam a contratar jogadores estrangeiros, mas fazem-no de forma mais controlada, dentro de orçamentos equilibrados e procurando responder às necessidades concretas das equipas. O desaparecimento de alguns dos clubes que simbolizaram o período de maior investimento mostrou a necessidade de substituir a despesa imediata por projetos mais sustentáveis.
Uma das mudanças mais importantes está relacionada com o combate à corrupção, à manipulação de resultados e às apostas ilegais. Foi feita uma limpeza que foi dura, mas necessária. Nenhuma cultura de alto rendimento pode ser construída sem integridade, transparência e confiança. Recuperar a credibilidade das competições é também essencial para restabelecer a confiança dos adeptos, investidores e patrocinadores.
Paralelamente, o investimento está a tornar-se mais estrutural. Foram construídos campos de futebol nas escolas e nas cidades, criadas academias integradas em estabelecimentos de ensino e desenvolvidos centros de formação apoiados pelo Governo.
O plano para o futebol juvenil definiu uma rede de centros organizada em cinco níveis — nacional, regional, provincial, municipal e distrital — e apontou para a criação de centros provinciais de futebol masculino e feminino, bases nacionais de alto rendimento e mais campos escolares e comunitários disponíveis para os jovens.
Esta aproximação do futebol às escolas é essencial para aumentar a base de recrutamento. No entanto, as infraestruturas não desenvolvem jogadores sozinhas. É necessário garantir que existem treinadores preparados, programas adequados às diferentes idades e uma metodologia que coloque a evolução individual à frente do resultado imediato.
Também se verifica um investimento na estrutura da Federação e na definição de uma orientação técnica mais clara. Chris Van Puyvelde assumiu o cargo de diretor técnico, depois de ter desempenhado funções semelhantes nas federações da Bélgica e de Marrocos.
A sua missão abrange a definição do caminho técnico, o desenvolvimento das seleções, o desenho do sistema de formação, a preparação dos treinadores e a criação de oportunidades internacionais para os jovens de maior talento.
As mudanças nas equipas técnicas das seleções de formação e nos quadros competitivos procuram criar maior continuidade entre os diferentes escalões. A reorganização das competições juvenis passou a integrar escolas, academias, clubes profissionais e outras estruturas, permitindo que os jogadores tenham um percurso competitivo mais regular.
Existe igualmente uma preocupação crescente em proporcionar contacto com o futebol internacional. Na Shanghai Future Star Cup de 2026, a competição masculina reuniu Arsenal, Tottenham, Sporting, River Plate, Athletic Bilbao e Bayer Leverkusen, além da seleção chinesa de sub-17 e de uma equipa de Xangai.
A edição incluiu também uma competição feminina. A seleção chinesa de sub-17 e a equipa de Xangai defrontaram as academias de Real Madrid, Arsenal, Manchester City, Real Sociedad, Bayern Munique e Paris FC.
As seleções jovens têm realizado mais estágios fora do país e participado em torneios de elevado nível. No Torneio de Montaigu de 2026, a seleção chinesa de sub-16 competiu com França, Brasil e Costa do Marfim. Este tipo de experiência permite aos jogadores conhecer diferentes escolas futebolísticas, ritmos e níveis de exigência.
Outro sinal positivo é a maior utilização de jovens nas competições profissionais comparativamente com as épocas de 2023 e 2024.
A presença de equipas B de clubes da primeira divisão na China League Two, o terceiro escalão profissional, é igualmente importante, até porque não é permitida a utilização de jogadores estrangeiros.
A minha experiência
A minha experiência ensinou-me que não podemos chegar a outro país e tentar reproduzir exatamente aquilo que fazemos na Europa. Uma cultura de alto rendimento não se importa como um produto acabado. Constrói-se dentro do contexto em que estamos inseridos.
O primeiro passo é adaptarmo-nos à cultura do país. Temos de compreender as pessoas, os hábitos, a forma de comunicar, a relação com a autoridade e o significado atribuído ao sucesso e à derrota. Adaptar não significa abdicar das nossas ideias, mas encontrar a melhor forma de as transmitir.
Na China, aprendi a compreender melhor a mentalidade e o perfil dos jogadores. Antes de definir um caminho, é necessário analisar os métodos de treino existentes, os modelos e sistemas de jogo, o formato das competições e as características dos atletas. Só depois podemos tomar decisões adequadas à realidade.
O modelo de jogo tem de estar adaptado ao clube, aos jogadores e ao contexto competitivo. Ao mesmo tempo, o modelo de treino deve incorporar referências do mais alto nível, criando hábitos de intensidade, exigência, responsabilidade e atenção ao detalhe.
A escolha dos profissionais que integram as equipas técnicas é igualmente decisiva. Precisamos de pessoas competentes, comprometidas e disponíveis para aprender. Os treinadores com história no clube e, sempre que possível, antigos jogadores com experiência de alto nível podem desempenhar um papel importante, porque conhecem a identidade da instituição e ajudam a ligar o conhecimento internacional à realidade local.
Mas não basta escolher bem. É necessário formar continuamente treinadores, preparadores físicos, analistas, treinadores de guarda-redes, team managers, fisioterapeutas e todos os profissionais que influenciam o rendimento.
Foi também na China que compreendi a enorme importância atribuída pela sociedade ao futebol e ao resultado. A derrota pode ter um impacto bastante forte.
Essa pressão chega, muitas vezes, demasiado cedo ao futebol juvenil. A competição é fundamental, mas deve estar ao serviço do desenvolvimento. Um jovem precisa de aprender a ganhar, mas também de compreender o jogo, tomar decisões, experimentar e errar. Se todo o treino for orientado para vencer o próximo torneio, podemos conseguir resultados precoces, mas estaremos a limitar o crescimento futuro do jogador.
A China tem ainda um longo caminho a percorrer, mas possui potencial humano, capacidade de investimento e muitas instalações de grande qualidade. O país está a corrigir erros, a recuperar a credibilidade das competições, a reorganizar a formação e a criar mais oportunidades para os jovens.
O próximo passo é fazer com que o investimento chegue verdadeiramente à base e seja acompanhado por uma melhor formação dos profissionais. Uma cultura de alto rendimento não se compra nem se constrói de um dia para o outro. Nasce da integridade, da qualidade dos processos, da competência das pessoas e da continuidade dos projetos.
O futuro do futebol chinês dependerá menos da capacidade de atrair grandes estrelas e mais da capacidade de criar os seus próprios jogadores, treinadores e especialistas. O investimento deixou infraestruturas, experiência e conhecimento. O desafio, agora, é transformar tudo isso numa verdadeira cultura de futebol.
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