Um panda, símbolo da cultura da China, com uma bola de futebol - Foto: Imago
Um panda, símbolo da cultura da China, com uma bola de futebol - Foto: Imago
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Como está a evoluir o futebol chinês

'Tribuna livre' é um espaço de opinião em A BOLA aberto ao exterior, este da responsabilidade de Leonel Pontes, Diretor Técnico do Shanghai Shenhua, da China

Durante vários anos, falar do crescimento do futebol chinês significava falar de grandes contratações, salários elevados e de um investimento financeiro que colocou a liga no centro das atenções. Essa fase aumentou a visibilidade da competição e trouxe conhecimento internacional, mas também demonstrou que o dinheiro, por si só, não é suficiente para transformar estruturalmente o futebol de um país.

A China atravessa agora uma etapa diferente. Os clubes continuam a contratar jogadores estrangeiros, mas fazem-no de forma mais controlada, dentro de orçamentos equilibrados e procurando responder às necessidades concretas das equipas. O desaparecimento de alguns dos clubes que simbolizaram o período de maior investimento mostrou a necessidade de substituir a despesa imediata por projetos mais sustentáveis.

Uma das mudanças mais importantes está relacionada com o combate à corrupção, à manipulação de resultados e às apostas ilegais. Foi feita uma limpeza que foi dura, mas necessária. Nenhuma cultura de alto rendimento pode ser construída sem integridade, transparência e confiança. Recuperar a credibilidade das competições é também essencial para restabelecer a confiança dos adeptos, investidores e patrocinadores.

Paralelamente, o investimento está a tornar-se mais estrutural. Foram construídos campos de futebol nas escolas e nas cidades, criadas academias integradas em estabelecimentos de ensino e desenvolvidos centros de formação apoiados pelo Governo.

O plano para o futebol juvenil definiu uma rede de centros organizada em cinco níveis — nacional, regional, provincial, municipal e distrital — e apontou para a criação de centros provinciais de futebol masculino e feminino, bases nacionais de alto rendimento e mais campos escolares e comunitários disponíveis para os jovens.

Esta aproximação do futebol às escolas é essencial para aumentar a base de recrutamento. No entanto, as infraestruturas não desenvolvem jogadores sozinhas. É necessário garantir que existem treinadores preparados, programas adequados às diferentes idades e uma metodologia que coloque a evolução individual à frente do resultado imediato.

Também se verifica um investimento na estrutura da Federação e na definição de uma orientação técnica mais clara. Chris Van Puyvelde assumiu o cargo de diretor técnico, depois de ter desempenhado funções semelhantes nas federações da Bélgica e de Marrocos.

A sua missão abrange a definição do caminho técnico, o desenvolvimento das seleções, o desenho do sistema de formação, a preparação dos treinadores e a criação de oportunidades internacionais para os jovens de maior talento.

As mudanças nas equipas técnicas das seleções de formação e nos quadros competitivos procuram criar maior continuidade entre os diferentes escalões. A reorganização das competições juvenis passou a integrar escolas, academias, clubes profissionais e outras estruturas, permitindo que os jogadores tenham um percurso competitivo mais regular.

Existe igualmente uma preocupação crescente em proporcionar contacto com o futebol internacional. Na Shanghai Future Star Cup de 2026, a competição masculina reuniu Arsenal, Tottenham, Sporting, River Plate, Athletic Bilbao e Bayer Leverkusen, além da seleção chinesa de sub-17 e de uma equipa de Xangai.

A edição incluiu também uma competição feminina. A seleção chinesa de sub-17 e a equipa de Xangai defrontaram as academias de Real Madrid, Arsenal, Manchester City, Real Sociedad, Bayern Munique e Paris FC.

As seleções jovens têm realizado mais estágios fora do país e participado em torneios de elevado nível. No Torneio de Montaigu de 2026, a seleção chinesa de sub-16 competiu com França, Brasil e Costa do Marfim. Este tipo de experiência permite aos jogadores conhecer diferentes escolas futebolísticas, ritmos e níveis de exigência.

Outro sinal positivo é a maior utilização de jovens nas competições profissionais comparativamente com as épocas de 2023 e 2024.

A presença de equipas B de clubes da primeira divisão na China League Two, o terceiro escalão profissional, é igualmente importante, até porque não é permitida a utilização de jogadores estrangeiros.

A minha experiência

A minha experiência ensinou-me que não podemos chegar a outro país e tentar reproduzir exatamente aquilo que fazemos na Europa. Uma cultura de alto rendimento não se importa como um produto acabado. Constrói-se dentro do contexto em que estamos inseridos.

O primeiro passo é adaptarmo-nos à cultura do país. Temos de compreender as pessoas, os hábitos, a forma de comunicar, a relação com a autoridade e o significado atribuído ao sucesso e à derrota. Adaptar não significa abdicar das nossas ideias, mas encontrar a melhor forma de as transmitir.

Na China, aprendi a compreender melhor a mentalidade e o perfil dos jogadores. Antes de definir um caminho, é necessário analisar os métodos de treino existentes, os modelos e sistemas de jogo, o formato das competições e as características dos atletas. Só depois podemos tomar decisões adequadas à realidade.

O modelo de jogo tem de estar adaptado ao clube, aos jogadores e ao contexto competitivo. Ao mesmo tempo, o modelo de treino deve incorporar referências do mais alto nível, criando hábitos de intensidade, exigência, responsabilidade e atenção ao detalhe.

A escolha dos profissionais que integram as equipas técnicas é igualmente decisiva. Precisamos de pessoas competentes, comprometidas e disponíveis para aprender. Os treinadores com história no clube e, sempre que possível, antigos jogadores com experiência de alto nível podem desempenhar um papel importante, porque conhecem a identidade da instituição e ajudam a ligar o conhecimento internacional à realidade local.

Mas não basta escolher bem. É necessário formar continuamente treinadores, preparadores físicos, analistas, treinadores de guarda-redes, team managers, fisioterapeutas e todos os profissionais que influenciam o rendimento.

Foi também na China que compreendi a enorme importância atribuída pela sociedade ao futebol e ao resultado. A derrota pode ter um impacto bastante forte.

Essa pressão chega, muitas vezes, demasiado cedo ao futebol juvenil. A competição é fundamental, mas deve estar ao serviço do desenvolvimento. Um jovem precisa de aprender a ganhar, mas também de compreender o jogo, tomar decisões, experimentar e errar. Se todo o treino for orientado para vencer o próximo torneio, podemos conseguir resultados precoces, mas estaremos a limitar o crescimento futuro do jogador.

A China tem ainda um longo caminho a percorrer, mas possui potencial humano, capacidade de investimento e muitas instalações de grande qualidade. O país está a corrigir erros, a recuperar a credibilidade das competições, a reorganizar a formação e a criar mais oportunidades para os jovens.

O próximo passo é fazer com que o investimento chegue verdadeiramente à base e seja acompanhado por uma melhor formação dos profissionais. Uma cultura de alto rendimento não se compra nem se constrói de um dia para o outro. Nasce da integridade, da qualidade dos processos, da competência das pessoas e da continuidade dos projetos.

O futuro do futebol chinês dependerá menos da capacidade de atrair grandes estrelas e mais da capacidade de criar os seus próprios jogadores, treinadores e especialistas. O investimento deixou infraestruturas, experiência e conhecimento. O desafio, agora, é transformar tudo isso numa verdadeira cultura de futebol.

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