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Bernardo Tralhão: «Vim para o judo para aprender a cair, estou no Mundial, mas o sonho são os Jogos»

Único estreante entre os nove judocas da Seleção no Campeonato do Mundo que hoje começa em Baku, judoca do ACM analisa caminho até Baku e revela que o apuramento deixou-o noites sem dormir

Para quem entrou no judo aos três anos porque tinha problemas de equilíbrio, Bernardo Tralhão (-60 kg), vive, este domingo, um momento importante na carreira ao marcar presença no 39.º Mundial Baku-2026. Um dia de competição que reparte com a veterana Catarina Costa (-48 kg) numa Seleção de nove judocas que volta a estar praticamente na sua maior força num momento que marca a primeira grande etapa para os Jogos de Los Angeles-2028.

— É o seu primeiro Mundial. O que é que isso significa para si e com que idade começou a fazer judo?

— Comecei cedo, com três/quatro anos, até por causa de uma situação curiosa: tive otites serosas no ouvido interno, tinha falta de equilíbrio e vim para o judo porque precisava de aprender a cair. Entretanto, gostei e fiquei.

— E para aquele miúdo — não digo com três ou quatro anos, mas já com 17 ou 18 —, o que significa ir viver aos 23 anos o primeiro Mundial?

— Tenho um carinho muito grande por esta oportunidade que me estão a dar. Quero corresponder às expetativas que têm em mim e até superá-las. Não digo que era o sonho, porque o meu sonho mesmo é ir aos Jogos Olímpicos, mas faz parte do caminho e é um grande desafio pela frente.

— Quando refere a oportunidade que lhe estão a dar, não foi você que a conquistou? [só pode ir ao Mundial quem figurar no top 100 mundial]

— Fui eu, mas a realidade é que há um mês, a 20 de agosto, ainda não estava dentro do top 100 para poder competir no Mundial. Foram-me dadas duas oportunidades de participar nos Grand Slams de Lausana e Budapeste e consegui os pontos que faltavam. Neste momento, encontro-me no 61.º lugar do ranking.

— Estava com receio de chegar aos 24 e ainda não era desta que ia ao Mundial?

— Vou ser sincero: tirou-me algumas noites de sono.

— É o estreante da Seleção. Quase todos referiram o impacto que teve o primeiro Campeonato do Mundo. Pensa que está preparado para esse momento?

— Sinceramente, não sei. Acredito que seja uma experiência diferente, mas agora é vivê-la.

— Pensa que será diferente de um grand slam? 

— É engraçado porque Lausana foi o meu primeiro Grand Slam e Budapeste o segundo, portanto foram experiências igualmente muito importantes para mim.

— Em Budapeste o Jorge Fonseca subiu ao pódio. Isso marcou-o?

—É sempre bom ver os nossos… Infelizmente tive de vir embora mais cedo, mas é sempre bom ver os nossos colegas a subir ao pódio. Também a Joana Santos, nos surdos, foi igualmente medalhada e acho que é importante. Temos de estar cá para nos ajudar uns aos outros.

— Faz-nos sonhar mais?

— Faz. Acredito que termos pessoas connosco que atingem resultados faz com que também queiramos lá chegar. E com uma equipa forte, todos somos mais fortes individualmente.

— E chega com o nível que desejava a este Mundial?

— Sim, tem que ser. Não há outra forma.

— Não, às vezes podia ter tido um problema na preparação e agora não se encontrar naquele nível que queria fisicamente ou tecnicamente…

— Claro, mas penso que tecnicamente nunca estou lá. Gostava mil vezes de ter mais técnica, digamos assim, mas infelizmente é a realidade. Tenho o judo que tenho, não posso fazer muita coisa contra isso; vou apurando-o, mas a preparação para todas as provas nunca vai ser a ideal. Vão sempre existir contratempos e, de toda a preparação que conseguimos, temos de fazer o melhor que dá. Por isso, é a melhor preparação que podemos fazer.

— Teve uma preocupação que a maior parte da equipa não teve, que foi entrar nos 100 melhores do mundo para competir em Baku. Nessa preparação, que incluiu as provas no verão, deu para evoluir coisas que não tinha antes?

— Sim, sim. Acima de tudo é a experiência. Estar a combater com adversários do top mundial dá-nos, para além de resiliência, situações que acontecem nos combates em si que nos criam bagagem para momentos futuros. E, acima de tudo, é também ter mais oportunidades para me defrontar contra o top 6 mundial, o top 17, 20… Em alguns casos vencer, noutros perder, mas sentir que estou ao nível deles.

Acima de tudo foi uma preparação psicológica de saber: ok, tenho capacidade; e também foi a questão de viver situações que nunca me haviam acontecido e lidar com as emoções ao longo de uma prova. Para uma pessoa que foi para o primeiro Grand Slam — já tinha ido a Grand Prix, que são experiências semelhantes —, existiu toda a parte emotiva. Calhou-me uma pessoa que está mais à frente no ranking do que eu, fiquei mais receoso, mas fui para o combate dar tudo e até ganhar… Foi uma experiência diferente.

— O dorsal que lhe vão dar para este Mundial vai ser guardado como recordação ou vai ficar no fato para treinar?

— Não tinha pensado no assunto, mas é provável que o irei guardar.

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