Catarina Costa confiante na preparação para o Mundial     Fotografia Imago
Catarina Costa confiante na preparação para o Mundial Fotografia Imago
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«A paragem devolveu-me o fogo e estou no Mundial tranquila como 'underdog'»

Catarina Costa, uma das principais figuras da Seleção no Mundial, conversou com A BOLA sobre as ambições que levou para a Baku e com que hoje entrará no 'tatami', como passou a operação que fez ao cotovelo, como se vê aos 30 anos e a querer estar nos terceiros Jogos e revela que já esrá a pensar acrescentar mais alguma coisa ao curso de medicina

Com a certeza de que um bom resultado pode significar um passo importante no objetivo da qualificação para os Jogos de Los Angeles-2028, arranca hoje o 39.º Mundial Baku-2026, a grande prova da temporada, e para a qual Portugal, ao contrário do que aconteceu no Europeu de Budapeste-2026, em abril, apresenta-se praticamente com os seus melhores judocas.

Da equipa de nove elementos, -Catarina Costa (-52 kg) e Barnardo Tralhão (-60 kg), são os primeiros a entrar em ação na National Gymnastics Arena. Se para o segundo trata-se de uma estreia, a única da equipa, para a olímpica da Académica de Coimbra será a oitava presença num evento em que já ficou a uma vitória do pódio (5.ª), tal como nos Jogos de Tóquio-2028, mas garante que, aos 30 anos, mantém a mesma paixão e ambição de juntar mais uma medalha à quatro que tem em campeonatos da Europa.

— Como é ir para o oitavo Mundial?

— Já pesa… Pesa a experiência. A experiência e a sensação de que estamos mais perto do fim do que do início. Sem dúvida. Mas acho que, acima de tudo, a experiência, a vontade ainda de querer afirmar-me a nível mundial e de gostar de competir e de estar neste alto nível.

— Quando diz mais perto do fim, está com que idade?

— Trinta anos, feitos na passada semana.

— Gostaria de combater até quando?

— Não consigo responder assim a essa pergunta.

— Tem mais a ver com a idade ou com a ambição?

— Acho que é um misto dos dois. Falando agora, sinto muita ambição e motivação; não só no treino, mas a competição ainda é algo de que gosto muito. É uma paixão muito grande. Não consigo garantir que daqui a três, quatro, cinco anos tenha a mesma. O fogo vai aos poucos desvanecendo e temos até de encontrar novas formas de alimentar esse fogo ou de arranjar um diferente. Mas não consigo responder pelo futuro. Para já, este ciclo [até aos Jogos de Los Angeles-2028] é garantido, e depois não pretendo acabar logo nos Jogos. Gostava de competir mais um pouco, mas não sei ao certo.

— Teve uma paragem longa por causa da intervenção cirúrgica ao cotovelo. Aquilo que referiu em ir buscar esse fogo... essa paragem longa, para quem gosta tanto de competir, foi preciso ir buscá-lo?

— Não, essa paragem longa devolveu-me o fogo. Isto porque o ano passado foi um ano complicado, não só de sorteios [nas provas] complicados no início do ano — em que me calhava a japonesa que depois ganhava a competição —, mas também porque a única prova que me correu bem foi o Europeu, onde fui vice-campeã da Europa e fiz um 5.º lugar num Grand Prix. Todas as outras competições não me correram tão bem, fui perdendo pontos no ranking e, sobretudo na fase final do ano, já treinava e competia com muita dor e estava a pesar-me muito. Acho que aí é difícil termos o fogo, pois já estava a ser muito sofrido. Foi então que tive a certeza de que tinha de fazer alguma coisa.

Seleção masculina

-60 kg Bernardo Tralhão 1.º Mundial ACM

-66 kg Miguel Gago 2.º Mundial Académica

-73 kg Otari Kvantidze 3.º Mundial Sporting

-100 kg Jorge Fonseca 10.º Mundial Sporting

Surgiu a possibilidade da cirurgia de janeiro até maio/junho. A recuperação foi toda feita dentro da expetativa de que sabia do que é que poderia ficar bem. Ou seja, saímos de uma cirurgia e não voltamos a estar a 100 por cento — isso sabia que não —, mas essa expetativa foi ajustada e o fogo, naturalmente, regressou. Pude voltar a fazer o que gosto: treinar, competir, ir a estágios, lutar com as melhores do mundo. No verão tive a oportunidade de me preparar bem para as competições que disputei e para este Campeonato do Mundo. Por isso, penso que esse fogo regressou em grande e tenho essa motivação bastante presente.

— Foi três vezes medalhada em Europeus…

— Quatro.

— Sim, quatro [três pratas e um bronze], desculpe. Só falta mesmo bater o João [Neto, campeão em Lisboa-2008 e seu treinador]. Só lhe falta ganhar o título europeu, porque já tem muito mais medalhas do que ele. Por isso, custou-lhe bastante não ter ido ao Europeu em abril?

— Sim! Custou um bocadinho porque foi exatamente na reta final da recuperação. Já estava a fazer randori [treino de luta] nessa fase, portanto não iria estar na melhor forma física, mas acho que a nível mental estava bastante bem. Aliás, foi como um déjà vu. Em 2024 fui operada exatamente à mesma lesão, mais ou menos nos mesmos timings; o Europeu foi sensivelmente na mesma altura e encontrava-me com pouca preparação, mas tinha de ser porque era ano dos Jogos [Paris], e acabei por conquistar a medalha de bronze.

Catarina Costa Fotografia Maycon Quiozini/A BOLA

Claro que depende muito do dia, do sorteio e de tudo o mais, mas desta vez custou-me um bocadinho sentir que estava a perder a carruagem, porque o comboio continua a andar. Estar em casa a ver as adversárias a lutar por medalhas… No entanto, sabia igualmente que esse desgaste que elas foram tendo ao longo do primeiro semestre eu não iria ter. Agora sinto uma frescura grande nesta reta final do ano, enquanto noto que outras atletas não a têm. Já estão um bocadinho mais arrastadas porque o Circuito é muito intenso e longo, não temos propriamente pausa. Mas, apesar de tudo, é sempre uma recuperação complicada. Temos de voltar muito atrás, por vezes ao zero, mas penso que, acima de tudo, me fez mais bem do que mal.

— E isso permite-lhe estar como no Mundial?

— Permite-me vir tranquila, numa posição de que até gosto: como underdog [não favorita], como se diz. Em 2018 o Mundial foi precisamente em Baku, era o meu primeiro, e eu ia exatamente na mesma situação. Não era cabeça de série, nem sequer era conhecida, e acabei no 5.º lugar. Realizei uma das melhores provas do Circuito na minha carreira. Pelo menos esse Mundial estará certamente no meu top 5, portanto vou tentar ir buscar um bocadinho de inspiração à Catarina de 21 anos, que encarou esse Mundial de peito aberto e com muita garra e raça. Vou numa posição semelhante e será encarar combate a combate.

Seleção feminina

-48 kg Catarina Costa 8.º Mundial Académica

-63 kg Joana Crisóstomo 2.º Mundial U. Lusófona

-70 kg Taís Pina 3.º Mundial Algés

-78 kg Patrícia Sampaio 6.º Mundial Gualdim Pais

+78 kg Rochele Nunes 5.º Mundial Benfica

Vai ser um Mundial extremamente difícil, o top 8 conta com atletas bastante boas. Note-se que duas das últimas medalhadas em Mundiais do ano passado não estão sequer nesse top, portanto há muitas judocas fora das cabeças de série que vão estar soltas, digamos assim, e que são de extrema dificuldade. Vai ser um campeonato extremamente disputado, mas isso dá-me motivação para mostrar o meu melhor judo e para mostrar a preparação que tenho vindo a fazer ao longo destes últimos meses.

— Essa situação de underdog na qual considera estar faz-lhe também lembrar quando passou de júnior a sénior e as pessoas não acreditavam muito que pudesse vir a conquistar o que conquistou?

— Sim, também um pouco. Acho que agora, com a questão da idade, a barreira dos 30 é diferente, não é? Temos de fazer uma gestão da carga diferente, o corpo já ressente algumas mazelas antigas, outras novas. É todo um mundo novo também para descobrir e gerir, por isso vou com uma mentalidade semelhante.

— A diferença talvez deste Mundial para os outros é que sempre disse que quando terminasse o curso de Medicina — já está concluído — queria tornar-se profissional de judo.

— Sim.

Judoca portuguesa Catarina Costa (-48 kg) - foto IFJ
Judoca portuguesa Catarina Costa (-48 kg) - foto IFJ

— É isso que vive neste momento? Consegue ser profissional de judo?

— Sim, já o era, mas com a carga horária e com o peso do estudo. De levar as coisas para estudar [nas provas e estágios] e ter sempre isso na cabeça. Agora, neste último ano que passou, já estou a 100 por cento dedicada. Mas já não estou a gostar muito, já necessito de alguma outra coisa para me entreter [risos]. É uma vida complicada porque, lá está, tive um período longo de lesão em que fui fazer muita fisioterapia, mas ia sempre ao treino na mesma. Acabei por ter mais trabalho quando voltei porque tinha fisioterapia, trabalho extra, mais o treino.

Mas, por vezes, ocupar a cabeça e termos uma coisa fora, termos a nossa identidade pessoal e não apenas como atleta, é importante. Por isso, nos próximos meses gostava de voltar a estudar um bocadinho. Não ao nível anterior, mas voltar a fazer alguma coisa para ocupar um bocadinho a cabeça. No entanto, também foi bom ter vivido estes meses só como profissional de judo e ser atleta a tempo inteiro.

— Algum curso especial?

— Não, sempre ligado à Medicina.

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