«'Inquietação' e 'fome competitiva' foram impulsionadas por Pinto da Costa e definem, ainda hoje, a identidade do FC Porto». Foto PAULO SANTOS
«'Inquietação' e 'fome competitiva' foram impulsionadas por Pinto da Costa e definem, ainda hoje, a identidade do FC Porto». Foto PAULO SANTOS

A vitória do FC Porto não nasce do conforto

#Minuto 92 é uma rubrica quinzenal da responsabilidade de Ricardo Gonçalves Cerqueira — jurista, gestor de empresas e sócio do FC Porto

Um ano após a morte de Jorge Nuno Pinto da Costa, o FC Porto e o futebol português continuam a processar a dimensão de uma ausência que é, paradoxalmente, uma presença permanente. As homenagens vão-se sucedendo, as palavras elogiosas multiplicam-se, mas subsiste, ainda assim, uma pergunta essencial: o que fica, verdadeiramente, quando um líder que durante quatro décadas marcou o futebol nacional e internacional, parte?

A resposta não se esgota nas vitrines do museu do FC Porto, repletas de troféus que atestam uma hegemonia sem paralelo no futebol português. Está, sobretudo, numa transformação mais profunda e menos quantificável: a construção de uma mentalidade vencedora que rompeu com o conformismo e desafiou as hierarquias até então estabelecidas. Pinto da Costa não se limitou a ganhar campeonatos: reescreveu a narrativa de poder no desporto nacional, deslocando o centro de gravidade decisório, obrigando um país historicamente centralista a reconhecer que a excelência dos campeões também se forja a Norte.

O presidente André Villas-Boas, captou com precisão o cerne deste legado quando afirmou que «a vitória no FC Porto não nasce do conforto». Esta frase, mais do que retórica institucional, encerra uma filosofia de combate, de recusa da acomodação, de permanente tensão entre o status quo que durante décadas regeu o futebol em Portugal e a ambição de vencer mais do que os outros que ao longo de décadas se sedimentou na comunidade azul e branca. É precisamente esta inquietação, esta fome competitiva, que Pinto da Costa impulsionou e que, ainda hoje, define com clareza a identidade do clube.

Todas as grandes lideranças comportam contradições, glórias e deceções, acertos e equívocos. A liderança de Pinto da Costa não foi exceção. A mesma determinação que conduziu o FC Porto a duas Ligas dos Campeões gerou, inevitavelmente, controvérsias e polarizações. Foi simultaneamente um dirigente venerado pelos seus e contestado, quiçá odiado, por alguns dos seus adversários, construindo um poder que, pela sua longevidade e assertividade, centralizou decisões de forma quase indissociável da sua própria figura.

O resultado eleitoral de abril de 2024 veio demonstrar que até os ciclos mais gloriosos têm um termo natural. E talvez seja precisamente aí que reside a verdadeira grandeza de um legado: na capacidade de sobreviver à figura que esteve na sua génese, de se autonomizar e de continuar a inspirar sem a presença física do seu arquiteto. O tema que diariamente se coloca ao FC Porto não está na dimensão do legado de Pinto da Costa — essa grandiosidade a história já a confirmou de forma inequívoca — mas, sim, continuar a criar as condições económico-financeiras para que o clube progrida e cresça desportivamente.

O melhor tributo a Jorge Nuno Pinto da Costa não passa pela repetição mecânica das suas fórmulas, mas na capacidade de fazer evoluir e modernizar o clube mantendo intactos os valores estruturantes que o falecido residente sempre preconizou. Liderança firme, combatividade e capacidade de antecipação face aos adversários. Lideranças marcantes não se esgotam nos troféus amealhados, mas pela sustentabilidade das fundações que legadas. Passado um ano da sua morte, o nome de Jorge Nuno Pinto da Costa continua a ecoar no ecossistema azul e branco e muito para além dele. Entre a nostalgia e a saudade, o reconhecimento dos adversários e a inevitável reavaliação histórica que o tempo trará, fica a certeza de que poucos homens marcaram tão profundamente o desporto nacional. O projeto para futuro passa por continuar a transformar memória em movimento, gratidão em ambição reforçada. O verdadeiro legado não se guarda nem se restringe; cultiva-se, partilha-se e reinventa-se. E é dessa reinvenção permanente que o FC Porto continuará a fundar os alicerces das próximas conquistas.