Artes marciais: um produto de mercado (artigo de Vítor Rosa, 38)

Espaço Universidade 30-05-2019 23:14
Por Vítor Rosa

De uma forma geral, chama-se genericamente “artes marciais” a um conjunto de práticas físicas com origem asiática, orientadas para situações de combate desarmado ou com armas tradicionais, às quais se associam habitualmente um conjunto de valores espirituais e morais, “uma filosofia”, ou uma “via de realização”. Etimologicamente, a palavra “marcial” não é uma designação Oriental, mas sim Ocidental. Vem do latim “martialis” (de Marte, deus da guerra na mitologia romana), e significa “relativo a militares ou guerreiros”, “corajoso”, “bélico”, traduzindo mais ou menos as noções de “Bujutsu” (Japão) ou “Wushu” (China).

 

Várias disciplinas japonesas (judo, jiu-jitsu, karaté, aikido, kendo, aido), coreanas (taekwondo), chinesas (tai-chi-chuan) ou vietnamitas (viet-vo-dao) desenvolveram-se em diversos estilos, formas e práticas. Categorias de escolas e praticantes concorrentes coexistem no seu seio. Na realidade, apenas algumas destas disciplinas foram desenvolvidas e usadas pelas castas guerreiras das distintas civilizações orientais, que as criaram, merecendo o epíteto de artes de guerra ou de combate.

 

A difusão mundial iniciou-se a partir do momento em que chegaram ao Ocidente. Este processo arrancou com as tropas americanas estacionadas no Japão. Ao dar-se a ocupação do Aliados, entre 1945 e 1952, um dos primeiros cuidados dos invasores foi proibir e encerrar as escolas de artes marciais, que tinham sido responsáveis pelo treino e doutrinação da juventude nipónica. Após a derrota deste país na Segunda Guerra Mundial, voltavam para casa a ensinar karaté, judo, aikido, etc., que prometiam a possibilidade de o fraco vencer o forte.

 

As artes marciais constituem um imenso e heterogéneo domínio de investigação. Infelizmente, elas são muitas vezes uma fonte de mistificação e menos objeto de estudo científico (Rosa, 2007, 2008; Rosa, García & Gutièrrez, 2010). É preciso dizê-lo também que as artes marciais se prestam a uma ou a outra situação, na medida em que a sua identidade é muitas vezes associada a lendas, a pensamento mágico, a rituais misteriosos, a discursos épicos, etc. A sociedade moderna, asiática ou europeia, não as trata melhor. Recorrendo à terminologia de culinária, as artes marciais são uma mistura de todos os molhos. Sem esgotar, podem ser vistas de diferentes formas:

 

·  Elas podem ser desporto de competição, excitando a rivalidade entre os seres, utilizando a violência com o objetivo de vencer o outro nas suas encenações, evocando, por vezes, uma atuação de circo.

·  Elas são utilizadas para veicular uma filosofia popular pós-moderna, resumindo-se a uma só expressão passada na linguagem corrente “ser Zen”, avatar sincrética das viagens ao oriente e a influência do budismo no ocidente.

·  Elas podem ser consideradas como simples lazer.

·  Elas podem ser consideradas como espetáculo de palco, fonte dos belos dias do cinema e dos jogos de vídeo.

·  Elas se comprometem, por vezes, com as correntes de pensamento fanático, podendo mostrar um culturocentrismo derrotante para o neófito.

 

Recorrendo a uma expressão de Boltanski (1971), as artes marciais prestam-se a diferentes “usos sociais”. E falar de uma pluralidade de “usos sociais” ou “cultura somática de classe” para as atividades físicas e desportivas sugere que os objetivos e as justificações variam segundo os contextos, os atores em presença e os motivos/compromissos do momento.

 

As artes marciais são, para utilizamos uma expressão de Pociello (1981), um “produto de mercado” (económico, cultural e social). Como tal, sujeito à oferta e à procura, que haverá que publicitar e “vender”. O mestre passa a ser um prestador de serviços e o discípulo um consumidor (“cliente”).

 

Referências:

Boltanski, L. (1971). Les usages sociaux du corps. Annales Economies Sociétés Civilisations, vol. XXVI, n.° 26, 1, 205-233.

Pociello, C. et al. (1981). Sports et société: approche socioculturelle des pratiques. Paris : Vigot.

Rosa, V. (2007). Encuadramiento legal e institucional de las artes marciales y deportes de combate en Portugal. Revista de Artes Marciales Asiáticas, vol. 2, n.º 4, diciembre. Léon: Universidad de León, 8-31.

Rosa, V. (2008). Las artes marciales y los deportes de combate en números: una mirada exploratoria sobre los datos numéricos o estadísticos en Portugal. Revista de Artes Marciales Asiáticas. vol. 3, n.º 2, junio. Léon: Universidad de León, 38-49.

Rosa, V., García, C. & Gutièrrez, M. (2010). Introducción de las artes marciales asiáticas en Portugal. Revista Materiales para la Historia del Deporte. Sevilla: Universidad Pablo de Olavide, 9-17.

 

Vítor Rosa

Doutor em Educação Física e Desporto, Ramo Didática. Investigador Integrado no CPES – Centro de Pesquisa e Estudos Sociais, da Universidade Lusófona de Lisboa

Ler Mais
Comentários (0)
Espaço Universidade09-12-2019 10:24
O surgimento Clube de Veteranos do Atletismo que já conta com meio século - artigo de João Marreiros, 15
Espaço Universidade08-12-2019 15:31
Um olhar sobre o boxe, com “Rodriguinhos” (artigo de Vítor Rosa, 71)
Espaço Universidade08-12-2019 09:22
“O Cru e o Cozido” - uma breve reflexão (artigo de Manuel Sérgio, 317)
Espaço Universidade04-12-2019 19:09
Quem “matou” a mudança? Suspeito 20 – Resistir à Eficácia (Parte 3) - artigo de João Oliveira
Espaço Universidade04-12-2019 00:24
Já conta com 33 anos a Academia Olímpica Portuguesa (de Portugal) - artigo de João Marreiros, 14
Espaço Universidade02-12-2019 15:11
Memórias Olímpicas de Portugal – A Conferência e a Lição (artigo de Manuela Hasse, 12)

Últimas Notícias