Internacional luso explicou impacto de jogar um Europeu com uma filha recém-nascida em Portugal e lado a lado com o irmão, Bernardo

Tomás Paçó: «Vamos ter de descer à terra e fazer tudo de novo»

Internacional português assume a responsabilidade adicional da Seleção Nacional, bicampeã em título, para o Campeonato da Europa, mas aponta à conquista do tri. Presença do irmão, Bernardo Paçó, na convocatória e nascimento da filha nos primeiros dias de 2026 potenciam o simbolismo de uma eventual caminhada vitoriosa

Tomás Paçó é um dos nove campeões da europa em 2022 presentes na convocatória de Jorge Braz para o Euro 2026. O fixo de 25 anos chega à Eslovénia na melhor fase individual da carreira e com a motivação renovada pela família.

O fixo luso, em entrevista a A BOLA, reflete sobre o peso da paternidade durante a competição, revela picardias com Alex Merlim antes do jogo inaugural contra a Itália e relativiza o futuro.

—  O selecionador Jorge Braz, quando anunciou a convocatória para o Euro, disse que o passado é espetacular, mas que não traz vantagem nenhuma. Sentem, ainda assim, responsabilidade acrescida por serem bicampeões?

— Claro. Por tudo aquilo que conquistámos, temos sempre essa responsabilidade, mas os títulos que ganhámos não entram em campo. Vamos ter de descer à terra e fazer tudo de novo. Temos que estar melhor do que estivemos quando ganhámos porque as outras equipas vão melhorar. Esse é o nosso foco. Existe uma responsabilidade boa porque nos traz consciência daquilo que temos que fazer e estar sempre alerta.

— A conquista do tricampeonato europeu é um objetivo declarado?

—Não gosto de ter estas afirmações, mas sim. Com a qualidade que a nossa seleção tem, todos os jogadores têm de ter isso em mente e ter essa responsabilidade nas costas de querer alcançar mais um título. Pode parecer clichê, mas só jogo a jogo é que vamos conseguir chegar lá. Não podemos estar a pensar na Hungria ou na Polónia quando jogamos com a Itália primeiro. Temos que pensar jogo a jogo para não ter surpresas.

Temos que pensar jogo a jogo para não ter surpresas.

—  Falou em descer à terra. A derrota no Cazaquistão nos oitavos do Mundial 2024 e contra a Eslovénia, num duelo particular em novembro de 2025, foram benéficas nesse sentido?

—   A forma como perdemos contra o Cazaquistão [26 de setembro de 2024] deixa-nos completamente alerta porque controlámos muito o jogo, mas depois no final acabámos por sofrer um golo caído do céu fruto do relaxamento. Este jogo contra a Eslovénia também nos alerta muito porque estávamos sempre por cima do jogo e eles na transição faziam golo. São desafios e  aprendizagens que vamos tendo neste processo. Quando chegarmos aos jogos com Itália, Hungria e Polónia, vamos ter sempre isso em mente e controlar o jogo.

—  A Itália, primeira adversária de Portugal neste Euro, conta com Alex Merlim, com quem partilha balneário no Sporting. Falaram desse jogo?

— No balneário, antes de virmos para estágio, já nos picávamos na brincadeira. Ele diz que vai levantar o cotovelo nas divididas para não ir à bola. Toda a gente vai desfrutar do jogo e vai ser aquela competição amigável. A Itália é uma seleção que está a crescer outra vez. Está com muita qualidade, mesmo os próprios italianos também estão a aparecer junto a alguns brasileiros naturalizados italianos, como o Merlim.

— Qual é o impacto da ausência do Zicky, que vive um calvário de lesões esta época?

— É sempre um tema muito sensível. Falamos do Zicky, mas também podemos falar de outros jogadores com muita qualidade que não estão aqui porque dificultamos o trabalho do mister Braz. O Bruno Pinto, que é o melhor marcador do campeonato, podia estar aqui perfeitamente. Não está por escolha do Braz, confiamos nele. O Zicky infelizmente está a passar uma fase mais difícil. Certamente se estivesse nos seus índices físicos positivos estaria aqui para nos ajudar. Não estando, surge a oportunidade do Góis que está apresenta muita qualidade nos treinos. O Zicky vinha ajudar muito, mas não estando cá, estão cá outros. Se não marca o Zicky, marca o Góis.

O Zicky infelizmente está a passar uma fase mais difícil

— Outra ausência bastante notada é a do João Matos…

— Acaba por ser difícil para todos, mas é natural, porque sabemos como é que é a carreira do jogador, há ciclos. O João ajudou-nos imenso e ainda nos ajuda, a mim mais no Sporting. Deu muito à Seleção, mas agora o que o ciclo se calhar se fechou vão aparecendo outros jogadores mais jovens com muito talento também. Para o Braz foi difícil deixá-lo de fora certamente. Não estando cá o João Matos para partilhar a toda a sua experiência, temos o Bruno [Coelho], também um jogador super experiente, e o Tiago Brito. É assim que combatemos as ausências.

— Qual é a importância do Jorge Braz na gestão do grupo?

O mister Braz percebe perfeitamente o tipo de jogadores que temos aqui na seleção, que toda a gente gosta de brincar. O Braz confia em nós para termos estes momentos de brincadeira, mas depois quando entramos dentro da quadra temos que estar com o foco total no treino. Temos de ter hora para brincar, hora para descansar e hora para treinar. O Braz confia em nós com os olhos fechados e isso faz a diferença.

— Como é que antecipa as estreias de Diogo Santos, Rúben Góis e do seu irmão, Bernardo Paçó, em grandes competições?

— Os três já mereciam, é fruto do trabalho deles. Mereciam pelo trabalho que têm feito e pela qualidade toda que apresentam nos treinos, nos jogo. São três elementos que vêm ajudar muito. Mas também sei a ansiedade que devem estar a sentir porque passei pelo mesmo quando estive na posição deles. Ainda agora sinto essa ansiedade de começar o Europeu. Ter esse equilíbrio de experiência e de juventude é benéfico para a nossa seleção. Dos nove jogadores campeões europeus da convocatória, temos alguns ainda jovens que já têm essa experiência. Qualquer seleção gostava de ter esta base, joga a nosso favor. Temos de estar sempre muito unidos e cientes do que cada um tem que faze.

— Ganhar um Campeonato da Europa lado a lado com o Bernardo seria diferente…

— Toda a gente que tenha um irmão que também jogue tem o objetivo de competir ao mais alto nível com ele. É um sonho aquilo que temos feito no Sporting e é um sonho agora estarmos juntos na seleção, porque acabamos por ter uma intimidade que não temos com os outros jogadores e conseguimo-nos ajudar. Mesmo só um olhar às vezes faz a diferença e é um orgulho estar aqui com ele.

Bernardo e Tomás Paçó - Foto: bernardopaco16/instagram

Só quero voltar dia 8 de fevereiro

— Iniciou o estágio cerca de uma semana depois de ter sido pai. Que impacto é que tem jogar uma grande competição com uma filha recém-nascida em Portugal?

— Tento não pensar muito nisso. Tivemos há pouco tempo um dia de folga e aproveitei, dei os beijinhos todos e muito colo. Depois é tentar que esse pensamento nos ajude quando estivermos na Eslovénia, porque quero voltar só no dia 8 e com o trabalho feito. Não quero desperdiçar, porque se voltar sem nada foi um desperdiço de tempo e podia ter ficado cá em casa com a minha filha. Por isso, quero que esse tempo que vou estar separado dela e da minha mulher seja bem usufruído e que volte e que estejam cá as duas à minha espera e muito felizes.

— No último Europeu marca um dos golos da vitória contra a Rússia na final [4-2, a 7 de fevereiro de 2022]. Quais são as principais memórias que perduram da prova?

—  As principais memórias são mesmo aquelas que temos do quarto de hotel e da nossa sala de convívio. Um ou dois anos depois das competições acabarem não falamos do golo ou de levantar o troféu. Falamos é das vivências que tivemos em conjunto. Antes da meia-final, fosse do Europeu ou do Mundial, andávamos quase todos de trotinete pela rua a conhecer a cidade. E esses momentos é que ficam. Está-me a falar do golo... o golo nem foi nada de especial, mas acaba por ser marcante como é óbvio. Mas o que fica mesmo é os momentos todos que nós tivemos após a vitória e antes da vitória também. Tipo em balneário, no quarto uns com os outros na brincadeira.

— Esta época marcou 24 golos em 26 jogos e está dois da melhor marca da carreira. Sente-se no pico de forma?

— Procuro sempre melhorar ano após ano. O ano passado estive bastante tempo de fora por causa de uma lesão e para este o objetivo era fazer o máximo de jogos possível, não ficar parado. Os golos acabam por ser uma consequência do trabalho que fazemos semana a semana. Estou a passar uma boa fase, é continuar a evoluir.

— Quais foram os principais ensinamentos de quase três meses de ausência por lesão na época passada?

— Do nada tudo pode cair. Temos de nos focar naquilo que controlamos, que é treinar, descansar, alimentar-nos bem, é essencial. Depois é tentar ter um controlo emocional para nesses momentos menos positivos não irmos abaixo. Quando voltares estar a níveis físicos tens de confiar que quando voltares vais estar a 100%.