Derlei em ação na partida com o Bayern, em 2009. Foto: IMAGO
Derlei em ação na partida com o Bayern, em 2009. Foto: IMAGO

«Sporting pode vencer o Bayern»: a crença de quem jogou o 1-7

16 anos depois do 1-7 em Munique, o Sporting reencontra o Bayern a esperança de ‘vingar’ essa goleada. Às vésperas do novo duelo europeu, A BOLA revisitou a noite do pesadelo leonino e escutou Derlei, testemunha direta desse passado, que se mostrou confiante no presente transformado dos leões

MUNIQUE — A 10 de março de 2009, o Sporting viveu a noite mais dura da sua história europeia. Depois de perder por 0-5 em Alvalade na primeira mão dos oitavos de final da Champions, a equipa então orientada por Paulo Bento viajou para a Allianz Arena com uma missão praticamente impossível: travar um Bayern poderoso, experiente e já com a eliminatória resolvida. 

O ambiente em Munique deixava pouco espaço para surpresas, o momento das duas equipas era distinto e a imprensa alemã antecipava nova goleada. E foi isso mesmo que aconteceu. 

Em campo, os bávaros, liderados por estrelas como Lahm, Schweinsteiger, Klose, Ribéry, Podolski ou Luca Toni, voltaram a confirmar o favoritismo que já tinham demonstrado na capital portuguesa e construiu um resultado que os sportinguistas receavam.  

O Bayern marcou cedo e nunca abrandou. Começou com Podolski, aos 7’, seguindo-se o bis (34’), antes de Anderson Polga marcar um autogolo e aumentar a desvantagem leonina (39’). João Moutinho ainda reduziu para o lado verde e branco (42’), mas logo de seguida Schweinsteiger voltou a colocar os bávaros a três golos de distância (43’). Na etapa complementar, mais três sem resposta para os alemães: Mark van Bommel (74’), Miroslav Klose (82’, g.p.) e Thomas Muller, a selar o pesadelo leonino aos 90 minutos.  

Podolski apontou um bis na goleada bávara. Foto: IMAGO

O Sporting, com uma equipa jovem – Rui Patrício, Miguel Veloso, Adrien Silva, Yannick Djaló, ... - e debilitada emocionalmente pelo resultado da primeira mão, não conseguiu travar o ímpeto adversário. Naquele que, até terça-feira, é o último encontro entre leões e bávaros, o marcador final — 7-1 (e 12-1 no agregado) — ficou para a história como a maior derrota europeia da história leonina, ainda lembrada aos dias de hoje. 

As memórias de Munique

Em conversa com a A BOLA, Derlei, titular em ambos os encontros desses oitavos de final, não esquece o peso desse momento e lembra cada detalhe da eliminatória, revelando o sentimento do plantel. 

«Lembro-me perfeitamente desses jogos. Chegámos a esse jogo depois de uma derrota pesada em casa. É bom salientar que o Bayern continua a ser um dos maiores clubes da história e, pelo poder financeiro que tem, é muito difícil para as equipas portuguesas lutarem de igual para igual. Na altura, tínhamos uma equipa muito jovem. Na primeira partida, até começámos bem, mas acabámos por sofrer cinco golos e já fomos para a Alemanha com a eliminatória já resolvida, o que deu tranquilidade a uma equipa com o poderio do Bayern», começou por dizer o avançado que, em Portugal, representou, para além dos leões, FC Porto, Benfica e UD Leiria

Derlei esteve no último confronto entre Sporting e Bayern. Foto: IMAGO

«Tentámos ao máximo segurar o Bayern, mas isso não aconteceu e os golos foram surgindo, até pela qualidade que a equipa deles tinha. Prova disso é que boa parte daquela equipa depois fez parte da seleção alemã que venceu o Mundial de 2014», lembrou o ninja, como era conhecido. 

A eliminação marcou, mas não apagou o significado daquele momento para o clube, que pela primeira vez havia passado a fase de grupos da prova milionária: «Foi uma experiência não muito boa a nível de resultado, mas para o Sporting foi a primeira vez a participar nos oitavos de final da Champions League, o que foi um marco e ajudou o clube.» 

«Vai ser um jogo diferente do de 2009»

16 anos depois, Derlei acredita que o desnível entre as duas equipas já não é o mesmo. Se em 2009 o Bayern era uma potência inatingível e o Sporting uma equipa ainda em crescimento, hoje o cenário é outro. 

«Acredito que o Sporting pode discutir o jogo. Os clubes vivem momentos diferentes agora. O Sporting vem de um bicampeonato nacional, o que já faz com que o Bayern tenha um respeito muito maior. O Bayern, apesar de vir de ter conquistado o campeonato, na época passada, a nível europeu, há alguns anos que não tem conseguido estar entre as quatro melhores equipas do continente. Vai ser um jogo diferente do de 2009.»

Com a própria evolução do Sporting, Derlei vê condições para um duelo mais equilibrado... e até uma surpresa: «O Bayern continua com uma equipa muito forte, com um grande poder financeiro, mas o Sporting hoje está bastante mais próximo do nível dessas equipas. Certamente dará muito mais luta e tem grandes possibilidades de vencer a partida.» 

«Aquelas taças foram de extrema importância»

Ao recordar a passagem por Alvalade, Derlei, que representou o Sporting entre 2007 e 2009 — com 42 jogos, 13 golos e três taças conquistadas (Taça de Portugal em 2008 e Supertaça em 2007 e 2008) — salientou as conquistas, que o fazem lembrar com felicidade esses dois anos de leão ao peito: «Guardo boas memórias. Foram dois anos onde conseguimos ganhar a Taça de Portugal e a Supertaça. Não conseguimos vencer o campeonato, mas foram dois anos em que conseguimos títulos e não passámos em branco.» 

«Para um clube e para um atleta, vencer pelo menos um título na temporada é importante. Especialmente tendo em conta o momento que o Sporting vinha vivendo, com algum tempo sem títulos. Por isso, aquelas taças, para nós e para o clube, foram de extrema importância», prosseguiu. 

Derlei venceu três títulos no Sporting. Foto: A BOLA

Em comparação com esses tempos, o ex-goleador vê uma transformação profunda na estrutura leonina. «Tudo tem a ver com maturidade. O projeto do Sporting, nos últimos 20 anos, é de formação de atletas que tem trazido dividendos financeiros e resultados desportivos, aliados a outros atletas que o clube tem ido buscar a outros mercados — atletas por vezes não muito conhecidos, mas de nível de seleção, que têm vindo a fazer uma grande prestação no Sporting», referiu, sublinhando que a estabilidade estrutural contribuiu para o salto competitivo. 

O Sporting tem caminhado para ser um exemplo, não só nacional, mas mundial

«Isso tem dado tranquilidade e experiência para que os novos atletas se integrem bem e mostrem o seu trabalho. Aliado a isso, o trabalho da direção e das equipas técnicas ao longo dos anos tem sido fundamental para chegar a este resultado. Nos últimos anos, a conquista de títulos nacionais mostra bem a evolução do clube e, quando assim é, há que enaltecer o trabalho que é feito. Hoje vemos que o Sporting tem caminhado para ser um exemplo, não só nacional, mas mundial», afirmou o antigo avançado brasileiro. 

Derlei apontou 13 golos pelos leões. Foto: A BOLA

Virar a página

A goleada de 2009 ficará para sempre na história, mas, para Derlei, nada disso terá peso na terça-feira. O presente é outro, o Sporting também — mais sólido, mais maduro, mais competitivo, melhor preparado para lutar contra o gigante bávaro e a querer mostrar que o Bayern deixou de ser o monstro inalcançável de outros tempos.

Para os leões de Rui Borges, é a oportunidade de olhar para o passado, mas jogar pelo futuro, transformando um pesadelo que ainda está bem presente na mente dos adeptos leoninos, numa noite de sonho como o emblema lisboeta nunca viveu.  

No dia 9 de dezembro de 2025, os sportinguistas olharão para o relvado à espera de que os leões que entrem em campo cumpram as palavras de José Alvalade e façam o Sporting ser «tão grande como os maiores da Europa».