Raphinha deslumbra na vitória do Barcelona em Sevilha; já leva 14 golos em 8 jogos esta época
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Raphinha, a transformação do herói improvável (a história)

Brasileiro assume-se como a grande figura do futebol mundial da atualidade: 14 golos em oito jogos que se explicam por mais um episódio de superação. Carreira feita de baixo para cima, agora a tocar o céu

Enquanto o mundo do futebol discute quem deve receber a Bola de Ouro, há quem esteja fora da corrida mas se assuma como o futebolista do momento. Por culpa própria, mas também do seu treinador, que decidiu transformar um extremo que já tinha golo nas veias num ponta de lança temível, acumulando registos arrebatadores no panorama internacional.

Raphinha contabiliza 14 golos em oito jogos (nenhum outro jogador do Barcelona teve um arranque assim), 12 deles na La Liga, fazendo dele o goleador dos cinco principais campeonatos europeus, mais do dobro que Haaland, o melhor marcador de Inglaterra. Um caso de sucesso no Barcelona que já tinha sido antecipado por Hansi Flick: ao perder Robert Lewandowski, o técnico alemão pediu ao diretor desportivo Deco (que antes disso fora empresário do esquerdino) que contratasse dois extremos (Anthony Gordon ao Newcastle e Adeyemi ao Dortmund). E número 9? Esse estava em casa.

«Ele dá-nos dinâmicas totalmente diferentes na frente. Não é apenas um jogador de linha, a forma como ataca a área e recupera a bola no último terço é crucial para a nossa ideia de jogo», justificou o treinador dos catalães.

Os dados estatísticos revelados pela imprensa espanhola comprovam a mudança: 80 por cento das suas ações decorrem agora no último terço, faz apenas pouco mais de dois dribles por jogo e o número de cruzamentos caiu 45 por cento relativamente à época passada, apresentando uns assinaláveis 60 por cento de taxa de conversão em golo dos seus remates enquadrados (2,29 por partida).

«Trabalhei muito a minha cabeça e o meu posicionamento para responder ao que o treinador e a equipa precisam no momento de finalizar», afirmou recentemente aos media espanhóis.

Raphinha deixou definitivamente os corredores laterais e fixou-se no centro do ataque, mas com outra diferença comparativamente ao seu antecessor: é o jogador da La Liga com mais recuperações de bola no primeiro terço. O sonho de qualquer treinador: o primeiro defesa e um killer, uma equipa agressiva no pressing e em modo rolo compressor ofensivo (31-7 em golos no campeonato).

Deco agente, Deco chefe

A carreira de Raphinha tem sido assim, feita de episódios surpreendentes e que contrariam o típico trajeto do futebolista de elite. Um jogador que fez a formação em pelados, fora das academias dos clubes, rejeitado pelo Grêmio e Internacional de Porto Alegre nas captações porque era demasiado franzino e que só aos 18 anos teve uma verdadeira oportunidade, quando apareceu no Avaí.

Foi nesse momento que o antigo internacional português Deco, ainda na pele de empresário e com olho para identificar talento, se tornou seu agente e trouxe-o para Guimarães. Seguiu-se o Sporting, onde esteve em evidência, mas longe do fenómeno em que iria tornar-se na Catalunha. A época 2019/20 no Rennes foi o trampolim para o Leeds, em Inglaterra, cujas épocas aguçaram o apetite dos gigantes da Premier League, mas cujas propostas esbarraram num desejo chamado Barça: ao saber que o clube do seu ídolo Ronaldinho Gaúcho o queria, não pensou duas vezes.

Contratado por €58 milhões em 2022, nunca mais baixou dos dois dígitos por temporada em termos de golos. Com Flick aprimorou a relação com a baliza (34 remates certeiros na temporada de estreia do técnico germânico, em 2024/25) e agora assume-se como o número 9 de uma equipa historicamente marcada por ser uma fábrica de futebol ofensivo e laboratório do joga bonito.

Aos 29 anos, Raphinha vive o melhor momento da carreira e prepara-se para renovar contrato com o Barcelona até 2030, uma história que poderia ter terminado em 2024. Mas a chamada de Flick mudou tudo. «Estava para sair, mas ele disse-me que eu iria ser muito importante. Num momento como aquele, algumas pequenas palavras podem mudar-te», disse, em entrevista publicada nesta quinta-feira no The Guardian. Num mar de improbabilidades, o goleador-Raphinha é das coisas mais prováveis da atualidade.

Os casos de CR7 e... Mertens

Raphinha é mais um caso de sucesso de extremos que deixaram os corredores e se fixaram, uns de forma mais declarada que outros, no centro do ataque. Cristiano Ronaldo terá sido a melhor transformação de um ala em 9 puro (já no Real Madrid, depois da transferência do Manchester United), mas o século XXI também produziu outros episódios de evoluções de fora para dentro: o mais recente é de Kylian Mbappé (no Real Madrid e na seleção francesa, ainda que Zidane, o novo selecionador, já tenha afirmado que prefere vê-lo a partir do lado esquerdo), mas outros houve: Griezmann começou como extremo na Real Sociedad e Simeone transformou-o em segundo avançado e, mais tarde, em ponta de lança no Atlético Madrid; o neerlandês Van Persie que se extremo esquerdo se tornou num ponta de lança de elite; ou um caso menos mediático, mas não em Itália: Dries Mertens era um jogador de linha, mas Maurizio Sarri viu nele a solução para 9 vazio: o Nápoles fora obrigado a vender Higuaín para a Juventus e Milik lesionou-se. O belga foi então puxado para o centro do ataque e tornou-se no melhor marcador da história do clube do sul de Itália, com um total de 148 golos em 397 jogos.

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