As declarações recentes de José Mourinho e de Rui Costa expõem uma falta de alinhamento difícil de ignorar — Foto: SL BENFICA
As declarações recentes de José Mourinho e de Rui Costa expõem uma falta de alinhamento difícil de ignorar — Foto: SL BENFICA

Quem decide, afinal, no Benfica?

As decisões de um clube como o Benfica não podem partir da necessidade de ganhar no imediato, mas sim de uma ideia clara sobre como quer jogar, que perfil de jogadores quer ter e que caminho pretende seguir. A escolha de Mourinho parece ter seguido uma lógica diferente. Respondeu ao contexto eleitoral. Mercado de valores é o espaço de opinião de Diogo Luís, antigo jogador de futebol, economista e comentador

O Benfica tem sido um clube sem estratégia. Apesar do investimento elevado, o retorno desportivo tem sido reduzido: uma Liga e duas Supertaças em cinco épocas.

A escolha de Mourinho

Vencedor, foi assim que Rui Costa definiu o perfil de José Mourinho. A questão é que ser vencedor não pode ser uma estratégia, mas sim uma consequência. As decisões de um clube como o Benfica não podem partir da necessidade de ganhar no imediato, mas sim de uma ideia clara sobre como quer jogar, que perfil de jogadores quer ter e que caminho pretende seguir.

A escolha de Mourinho parece ter seguido uma lógica diferente. Mais do que responder às necessidades do plantel, respondeu ao contexto eleitoral e de urgência para Rui Costa. Em setembro, o essencial era ganhar as eleições de outubro. O resto ficaria para depois. Mourinho trazia duas coisas difíceis de ignorar: uma capacidade de comunicação que o Benfica há muito não tinha e um peso mediático que mobiliza adeptos. Mas nenhuma dessas qualidades resolve, por si só, o problema estrutural que o clube atravessa.

Perda de exigência

José Mourinho referiu, no final do último jogo frente ao Casa Pia: «Neste momento tinha vontade de não fazer jogar mais alguns jogadores. Mas há valores mais altos que se levantam. São ativos do clube.» Num clube como o Benfica, o objetivo tem de ser sempre o mesmo: vencer. A valorização dos jogadores será sempre uma consequência do sucesso desportivo. Tenho referido que o problema do Benfica não são os treinadores, nem serão estes que o irão resolver.

O foco está na liderança ou na ausência dela. Nos últimos anos, o clube foi perdendo a (pouca) cultura de exigência que tinha. A desresponsabilização tornou-se permanente. Quando não se ganha, surgem frequentemente justificações externas, como a arbitragem, para explicar os insucessos. As decisões têm privilegiado o curto prazo, como demonstram as contratações de Bruno Lage e José Mourinho, mais orientadas pela reação do que por uma lógica de continuidade.

O último mercado de inverno é outro exemplo dessa dificuldade em enquadrar decisões num projeto desportivo racional e lógico, com movimentos de plantel (Rafa e Sidny) difíceis de justificar num plano de médio prazo. Falta visão a quem lidera. Atira-se dinheiro para cima dos problemas na tentativa de os resolver. O resultado é um clube mais frágil — financeiramente e desportivamente.

Desequilíbrio financeiro

Se desportivamente se percebe uma ausência de estratégia, financeiramente o quadro não é diferente. A elevada rotatividade do plantel tem sido apresentada como fundamental para a obtenção de rendimento desportivo. Na prática, porém, responde muitas vezes à necessidade de gerar liquidez e equilibrar contas.

O Benfica continua a ser o clube que mais receita gera em Portugal, tanto através de transferências como da UEFA Champions League. Ainda assim, essa capacidade não tem sido suficiente para estabilizar o projeto.

Importa sublinhar que não se trata de falta de investimento. Pelo contrário, o clube tem investido fortemente no plantel. Esta época, o investimento correspondeu a um valor entre 130 e 140 milhões de euros. O problema está no retorno desportivo desse investimento e na falta de coerência na construção do plantel ao longo do tempo. Os custos operacionais do clube, com destaque para os gastos com pessoal (salários), têm aumentado de forma significativa num período em que o sucesso desportivo ficou aquém do investimento realizado.

Vende-se muito, investe-se muito, mas consolida-se pouco. Quando isso acontece, o ciclo repete-se: vende-se para equilibrar, investe-se para reagir, em vez de manter uma base estável para crescer e competir. Num contexto em que vários clubes procuram maior estabilidade e continuidade, o Benfica parece continuar dependente de decisões de curto prazo, ditadas pela necessidade imediata de resposta financeira e desportiva. A possível ausência da UEFA Champions League na próxima época poderá ainda agravar mais esta pressão e acentuar o desequilíbrio financeiro.

Desalinhamento

As declarações recentes de José Mourinho e de Rui Costa expõem uma falta de alinhamento difícil de ignorar. O treinador admite que gostaria de continuar, mas fá-lo sem a convicção habitual de quem se sente plenamente integrado num projeto.

O presidente, por seu lado, lembra a existência de contrato, sublinhando que o treinador tem mais um ano de ligação ao clube. Este argumento, no entanto, perde força quando comparado com situações recentes: também Roger Schmidt e Bruno Lage tinham contrato em vigor quando deixaram o comando técnico do Benfica.

No caso de Mourinho, há ainda um detalhe relevante no seu discurso. Não é habitual o treinador adotar uma posição tão pouco taxativa sobre o futuro. Por norma, ou assume claramente a continuidade, ou afasta-se de forma inequívoca. Desta vez, ficou numa posição intermédia, que pode significar um posicionamento tático face às movimentações que observa à sua volta.

Outro ponto relevante são as constantes críticas de Mourinho ao plantel, que contrastam com a visão de Rui Costa, bem patente na afirmação de novembro de 2025 de que «o plantel no futuro não precisa de grandes alterações». Os dois parecem ver realidades diferentes, o que torna mais difícil a construção de uma estratégia comum.

Por último, em campo, Mourinho afasta o Benfica da luta pelo título. Fora dele, Rui Costa mantém o discurso de que «no Benfica não se desiste até o campeonato estar terminado».

O desalinhamento entre os dois é factual. E esse tem sido, consistentemente, o padrão dos últimos anos.

A valorizar: João Neves
Mais uma grande exibição frente ao Liverpool coroada com um passe que poucos têm a capacidade de fazer.
A desvalorizar: Liverpool
O ainda campeão inglês em título parece uma sombra do que tem sido nos últimos anos.