A «lufada de ar fresco» pressupunha uma mudança, porém Villas-Boas começa a revelar-se uma versão 2.0 de Pinto da Costa — Foto: IMAGO
A «lufada de ar fresco» pressupunha uma mudança, porém Villas-Boas começa a revelar-se uma versão 2.0 de Pinto da Costa — Foto: IMAGO
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Quanto vale pintar o futebol de marrom?

A coerência comunicacional de André Villas-Boas será discutível, já o propósito final da estratégia em marcha é bastante mais consistente e fácil de perceber. Fica a impressão de que não são os factos que determinam a teoria, mas é a teoria que, a cada momento, escolhe a cor mais conveniente para pressionar nos bastidores. 'A Bola é redonda. O Verde é futuro' é o espaço de opinião de Pedro Ângelo, CEO da NAV e sócio do Sporting Clube de Portugal

Na pretérita semana, o Portugal Football Summit, organizado pela Federação Portuguesa de Futebol, reuniu na Cidade do Futebol os principais dirigentes e protagonistas da modalidade para discutir os desafios da indústria, refletindo, em particular, sobre a melhor forma de tornar o nosso futebol num produto mais competitivo, mais valorizado e mais sustentável.

A centralização dos direitos televisivos, os modelos de financiamento, a profissionalização da arbitragem e a conquista de novos públicos estiveram entre os temas em debate. Importa que estas reflexões tenham consequência para lá dos palcos da Cidade do Futebol, uma vez que proclamar o futuro tem sido relativamente fácil. Mais difícil tem sido romper com práticas e condutas anquilosadas e corresponder com atos coerentes com as palavras vocalizadas nesses palcos.

A centralização dos direitos televisivos merece particular atenção. O presidente da Liga Portugal, Reinaldo Teixeira, apresentou as etapas para a comercialização centralizada, apontando para a conclusão do processo de venda até ao final do ano civil de 2027, no pior dos cenários. Mas centralizar não pode significar apenas negociar em conjunto aquilo que antes os clubes negociavam e vendiam separadamente.

Tem de contribuir para criar melhores condições para a competição, melhores realizações dos jogos, para que mais clubes possam contratar e reter bons jogadores, formar equipas mais capazes e acrescentar qualidade de jogo ao nosso campeonato. São os protagonistas, jogadores e treinadores, que dentro das quatro linhas poderão transformar melhores condições financeiras em melhores espetáculos.

Também na arbitragem se discutiram mudanças estruturais, com José Fontelas Gomes a apontar a criação de uma entidade externa de gestão como instrumento crítico para a profissionalização do setor. O plano para a arbitragem deve assentar em prioridades claras: capacitar os seus agentes, dotá-los de melhores meios, incluindo com recurso à mais avançada tecnologia, repensar as condições e a preparação dos árbitros, repensar o modelo de carreira para atrair recursos de elevado nível, no fundo, uma revisão ampla de todo o setor da arbitragem. O caminho deve ser este para que se reduza o erro ao mínimo, de modo que se possa considerar admissível mesmo nos dias em que é cometido em prejuízo do nosso clube.

A conclusão que retiro destes debates é que a sustentabilidade do futebol português não se resolve exclusivamente despejando mais dinheiro proveniente da negociação futura dos direitos televisivos. Precisamos de maiores e melhores receitas, mas acima de tudo de introduzir novos comportamentos e de exigir mais dos protagonistas de fora do campo.

A credibilidade da competição não é um assunto lateral, que possa ser entregue ao departamento de marketing e comunicação, enquanto os donos da bola se concentram em destruí-la com declarações insidiosas e de permanente suspeição. Com efeito, não faz sentido pedir aos investidores que acreditem num campeonato que os seus próprios líderes apresentam, com demasiada facilidade, como indigno de confiança, justificando assim os seus insucessos junto dos associados.

Sucede que, enquanto se discutia o futuro, André Villas-Boas encontrou a oportunidade para, mais uma vez, brindar-nos com discursos obsoletos do passado. No editorial da revista Dragões, divulgado a 24 de setembro, sob o provocatório título «Quanto vale um Pote?», o presidente do FC Porto avançou com a nova tese sobre um «manto marrom», associando verde e vermelho numa alegada concertação contra o seu clube. Pelo meio da sua dissertação, foi ao extremo de pontuar a sua tese sobre a hipótese de fundação de um novo clube na segunda circular e num «pacto de sangue».

Passámos a saber que André Villas-Boas não enferma de daltonismo, parecendo dispor de uma acuidade que vai além de uma visão tricromática, logrando ver aquilo que um comum mortal não vislumbra. Aparentemente, segundo o líder do FC Porto, a maior e eterna rivalidade em Portugal, entre Sporting e Benfica, não passara de um mero equívoco ao longo de décadas, que aguardava o douto esclarecimento de um presidente que julga saber de tudo, incluindo de relações alheias.

Já aqui me ocupei da narrativa do alegado manto verde e da tentativa de transformar a permanente suspeição sobre a arbitragem num instrumento competitivo para ganhar ascendente e influenciar decisões em jogos críticos. Agora, subitamente, ou talvez porque anteveja este ano uma disputa mais direta com o Benfica, a narrativa do presidente do FC Porto ganhou outra cor. O que me parece revelador não é a mistura cromática, mas a elasticidade da sua teoria: muda o adversário a visar, mas a suspeição mantém-se disponível como instrumento de pressão.

Quando interessa concentrar o ataque, por se identificar um rival prioritário, individualiza-se o inimigo; quando passa a ser conveniente alargar o cerco, por efeito da disputa a três, juntam-se os rivais. A coerência comunicacional será discutível, já o propósito final da estratégia em marcha é bastante mais consistente e fácil de perceber. Fica a impressão de que não são os factos que determinam a teoria, mas é a teoria que, a cada momento, escolhe a cor mais conveniente para pressionar nos bastidores.

Esta forma de exercer a liderança e de se relacionar com os adversários diretos não passa de uma versão ligeiramente mais sofisticada do que aquela que conhecêramos com o seu antecessor, Pinto da Costa. A pretensa lufada de ar fresco anunciada por quem merece o máximo respeito e malogradamente já não se encontra entre nós, não se tem vindo a confirmar. As palavras de Jorge Costa criaram uma expectativa de renovação e de mudança de postura que não têm encontrado respaldo nos atos e atitudes de André Villas-Boas.

Frustradas as ambições no primeiro campeonato sob a sua liderança — numa das piores prestações da história recente do clube —, Villas-Boas parece ter encontrado no velho mecanismo de mobilização do «nós contra eles», do Norte contra o Sul e da hostilidade artificialmente alimentada no Dragão, um atalho para recuperar o sucesso. Em vez de demonstrar que era possível vencer de outro modo, como prometera quando se candidatou, preferiu recuperar a receita de quem o precedeu.

Este editorial é tanto mais intempestivo quanto surge na sequência de um clássico em que, os eventuais erros de arbitragem que possam ter existido, acabaram a favorecer o FC Porto. Quem exige rigor e uniformidade de critérios deve começar por aplicá-los nas suas próprias avaliações, independentemente de cores e da camisola beneficiada.

O desafio de uma liderança moderna deveria passar por construir um clube vencedor, sem recorrer ao condicionamento permanente da arbitragem ou à anacrónica narrativa do cerco. A anunciada «lufada de ar fresco» pressupunha uma mudança de fundo, porém, Villas-Boas começa a revelar-se uma versão 2.0 de Pinto da Costa: mais sofisticado na forma como se apresenta, mas demasiado semelhante nos seus métodos.

De pouco servirá discutir no Portugal Football Summit como valorizar o nosso futebol se, concomitantemente, os seus dirigentes continuarem a revestir de modernidade os velhos vícios que há décadas o desvalorizam.

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