Prestianni e Pietuszewski vão disputar a nossa 'Bola de Ouro'
A eleição do próximo Bola de Ouro da France Football está aí à porta e é nestes momentos que cada adepto de futebol idealiza para si quem é o melhor jogador do mundo (ou, para ser rigoroso, quem foi o melhor num determinado período de tempo). Mas serve também para pensarmos no que é - ou deveria ser - a definição da hierarquia de valor de um futebolista. Por outras palavras, o que nos faz gostar de mais de um jogador em detrimento de outro.
Num campeonato como o português, naturalmente que o tribalismo impede de ver as coisas com clareza. Só muito à força quem sente vermelho acha que o azul é melhor ou vice-versa. Se até na por vezes patética dicotomia Messi-Ronaldo se assiste a argumentos que pertencem ao domínio do irracional, muito mais vincada é a incapacidade de clarear as ideias e assumir o óbvio quando o objeto da discussão envolve a proximidade e rivalidade.
Claro que houve sempre exceções: Gyokeres, Hulk, Falcao, Aimar, Saviola, Liedson, Jardel, Deco ou João Vieira Pinto (isto só para ficarmos no século XXI) eram tão bons que qualquer pessoa que goste de futebol, a custo ou não consoante a cor porque torcem, tinha de admitir a superioridade e talento de futebolistas que ficaram (e ficarão) nas prateleiras mais altas do arquivo da bola lusa.
Na temporada em curso, é justo dizer que esse estatuto pertence, para já, a Gianluca Prestianni. Pelo ritmo que emprega ao jogo do Benfica, pela a rapidez de movimentos, velocidade de execução ou relação com a baliza, o internacional argentino reúne as características do que deve ser, afinal, o melhor que pisa os relvados: os jogadores por quem o adepto paga o bilhete, que lhe arranca um sorriso além da reação apaixonada, enfim, que o faz chegar a casa satisfeito.
Numa era em que os extremos parecem ser cada vez mais formatados, assistir à evolução deste menino de 20 anos é um renovar de esperança: aquele que assume o 1x1 sem medo de errar mas não se esquece do compromisso defensivo; que se encosta à direita e também sabe jogar à antiga, pelo carril. Mérito dele, mas também de Marco Silva, que como qualquer treinador que gosta de ganhar com nota artística fomenta a criatividade individual de cada um. Conhecer e implementar o processo, sim; deixar que depois a inspiração faça o resto, também.
Mas não é o único. Porque no FC Porto outro menino, dois anos mais novo, ainda vai a tempo de chegar-se ao argentino nesta corrida muito especial. Ainda sem o ritmo ideal após duas lesões musculares (há mesmo que ter cuidado aos 18 anos...) Pietuszewski resolveu o jogo na Madeira diante do Marítimo porque antes do estupendo remate em arco sob pressão já havia feito aquilo que se vai vendo pouco por estes relvados: o gosto pelo duelo individual, deixar as basculações para os outros e partir para cima dos defesas com uma certa insolência que contrasta com um futebol cada vez mais mecanizado.
O extremo polaco é uma pérola e uma dádiva para o FC Porto, que deve ser protegida no seu crescimento na razão direta do enorme talento que possui. Tal como foi Prestianni no Benfica num contexto muitíssimo pior (aqui e ali ainda se ouvem assobios pelos resquícios do caso Vinícius), num trabalho desenvolvido internamente com ele, nomeadamente na mudança de atitude em campo - abandonou as simulações e a tendência para o jogo belicoso, agora tem a objetividade de um alemão com a ginga das canchas sul-americanas. Um mix explosivo.
Se nada de anormal ocorrer até lá, acredito que as grandes páginas deste campeonato serão escritas por estes dois jovens talentosos que se assemelham na forma de jogar e até na posição que ocupam. E que por via da natureza vendedora dos grandes em Portugal, serão sol de pouca dura: um já está num caminho ascendente e regular (Prestianni), o outro para lá caminha (Pietuszewski). É desfrutar enquanto se pode, seja em que tonalidade for.