Portugal e o caso que não era um caso
Há situações que surpreendem pelo que acontece e outras pela forma como são conduzidas. Esta reúne as duas. Se se confirmar a saída definitiva de Cristiano Ronaldo nestas circunstâncias, estaremos perante um dos episódios mais tristes e lamentáveis da história da Seleção Nacional. Não porque um jogador não possa sair, mas porque a forma como se gere esse momento também faz parte da história que fica.
Não vou centrar esta reflexão na saída de Ronaldo do relvado, no jogo com a Noruega, antes dos colegas e sem agradecer aos portugueses presentes nas bancadas. Foi uma reação correta? Claro que não. Consigo compreendê-la? Sim. Compreender não é concordar. Mas quem nunca reagiu mal à frustração? Quem nunca precisou de alguns minutos para recuperar o equilíbrio entre aquilo que sentia e aquilo que deveria fazer? Reconhecer que um comportamento foi inadequado não nos impede de compreender a emoção que o antecedeu. Também não vou entrar na discussão sobre egos, onde me parece residir o busílis da questão. Prefiro olhar para aquilo que vimos e ouvimos na conferência de imprensa de Jorge Jesus, enquanto exercício de comunicação em crise. Porque, independentemente do que se passou entre treinador e jogador, havia uma situação pública que precisava de ser esclarecida e uma equipa que precisava de serenidade.
Jorge Jesus foi ele próprio. Isso não surpreende. O seu estilo é conhecido, a sua frontalidade também e o seu discurso atabalhoado é um registo característico. E esta análise não pretende em momento algum colocar em causa a competência do selecionador. A questão é perceber por que razão uma situação desta sensibilidade não mereceu uma preparação comunicacional mais cuidada. Alguém deveria tê-lo acompanhado, preparado ou, se necessário, enquadrado o assunto perante os jornalistas antes da sua intervenção. A responsabilidade de comunicar numa crise não pode ficar entregue apenas à espontaneidade do selecionador.
Comecemos pela negação. Não havia um caso, não havia um problema, não havia nada para resolver. Contudo, ao longo da mesma conferência, surgiu a informação, já antes conhecida, de que tudo tinha ficado resolvido depois do jantar. Afinal, o que foi resolvido se nada havia para resolver? Pode ter existido um desentendimento pontual, entretanto ultrapassado, sem que isso represente uma rutura. Mas era precisamente essa distinção que precisava de ser explicada. Negar repetidamente o problema enquanto se descreve a sua resolução fragiliza a mensagem. Em comunicação de crise, reconhecer uma dificuldade não significa perder autoridade. Pode, pelo contrário, demonstrar capacidade para a gerir.
Depois, a tentativa de limitar as perguntas. Duas seriam suficientes, três seriam demais. Só que a conferência prosseguiu, o limite não foi mantido e o assunto continuou a ocupar o discurso. A polémica não se encerra por contagem. Encerra-se, ou perde intensidade, quando as dúvidas encontram respostas claras e consistentes. Além disso, a repetição de uma mensagem só é útil quando ajuda a compreender. Quando se repetem negações, justificações e referências ao mesmo episódio, sem acrescentar clareza, corre-se o risco de prolongar aquilo que se pretende encerrar. A Dinamarca era apresentada como o verdadeiro foco, mas o discurso continuava preso a Ronaldo ou ao estatuto quando a pergunta era outra.
Junta-se a isto a forma de responder aos jornalistas. Uma pergunta pode ser incómoda, insistente ou assentar numa interpretação discutível. Procurar desqualificar, descredibilizar ou hostilizar quem pergunta não resolve nenhuma dessas dificuldades, pelo contrário, acrescenta um confronto. E, numa crise, cada confronto desnecessário oferece um novo motivo para continuar a falar do assunto. O mesmo acontece quando se responsabiliza a comunicação social pela existência do problema. A imprensa pode amplificar uma situação, mas quem comunica continua a ter a responsabilidade de esclarecer os factos. Sobretudo porque pouco tempo depois, o próprio selecionador reconhece a frustração do atleta e explica-a, algo que não fez inicialmente e que pode ter aguçado a “crise”. Transferir a discussão para o comportamento dos jornalistas deixa por responder aquilo que interessa e aumenta a tensão em torno de quem deveria estar a reduzi-la.
Ninguém precisa de contestar a legitimidade do selecionador para decidir quem joga. Mas insistir em «quem manda sou eu» e em que nenhum jogador alterará as suas decisões, num contexto de tensão com Cristiano Ronaldo, permite que essas palavras sejam recebidas como um recado ao capitão. Não podemos afirmar que essa foi a intenção. Podemos reconhecer que essa interpretação era previsível. E antecipar interpretações é parte fundamental de comunicar numa crise.
Por fim, a garantia de que Ronaldo treinaria foi contrariada pela sua ausência da sessão. Isso não prova que o jogador se tenha recusado a treinar, nem que Jesus tenha faltado deliberadamente à verdade. Mostra, contudo, o risco de apresentar como certo aquilo que ainda pode mudar. A diferença entre o anúncio e o acontecimento deixou novas dúvidas precisamente quando se procurava transmitir normalidade.Uma conferência de imprensa não é apenas uma conversa com jornalistas.
É uma mensagem para os adeptos, para os jogadores e para todos os que acompanham a Seleção. As palavras que saem daquela sala também entram no balneário. Podem proteger relações, estabilizar expectativas e devolver o foco à competição. Podem igualmente aumentar a exposição e tornar mais difícil a gestão interna de um desentendimento.