Futre na Seleção Nacional (A BOLA)
Futre na Seleção Nacional (A BOLA)

Paulo Futre: 60 anos de um génio

Estreou-se na I Divisão, pelo Sporting, com 17 anos; terminou a carreira no futebol japonês, com 32 anos. Um dos mais brilhantes futebolistas portugueses de todos os tempos

Comemora este sábado 60 anos um dos jogadores mais marcantes da história do futebol português: Paulo Jorge dos Santos Futre. De cabelo comprido, irreverente e destemido, começou a dar nas vistas nas camadas jovens do Sporting. O talento era demasiado evidente para passar despercebido e o treinador leonino Jozef Venglos não hesitou: com apenas 17 anos lançou o jovem esquerdino na equipa principal, apesar da concorrência de nomes como Manuel Fernandes, Rui Jordão e António Oliveira.

Logo na primeira jornada do Campeonato Nacional, frente ao Penafiel, em Alvalade, Futre jogou oficialmente pela primeira vez na equipa sénior dos leões. Menos de um mês depois, já sob a orientação de Fernando Cabrita na Seleção Nacional (após a saída do brasileiro Otto Glória), Futre estreou-se pela equipa principal de Portugal. A 21 de setembro de 1983, em Alvalade, frente à Seleção da Finlândia (vitória por 5-0), tornou-se internacional A. Com 17 anos, 6 meses e 24 dias, Futre tornou-se o mais jovem internacional A da história de Portugal.

1984, 1986 e 1987

Portugal venceu os dois jogos seguintes da fase de qualificação (1-0 na Polónia e 1-0 à União Soviética, na Luz) e, oito meses depois, disputava o UEFA Euro 1984. Contudo, Futre não voltou a ser chamado e falhou a fase final em França. O quarteto técnico formado por Fernando Cabrita, José Augusto, António Morais e Toni optou por avançados como Nené, Jordão, Chalana, Vermelhinho, Gomes e Diamantino.

Futre regressaria à Seleção já como jogador do FC Porto, pela mão de José Torres, depois do brilhante 3.º lugar no Euro 84. Futre participaria depois em seis dos oito jogos de qualificação para a fase final  do Mundial de 1986, no México, ficando de fora apenas nos encontros frente a Malta (3-2) e na histórica vitória na Alemanha (1-0).

No Mundial do México, com apenas 20 anos, marcou presença nos três jogos da fase de grupos: vitória frente à Inglaterra e derrotas frente à Polónia e a Marrocos. Foi titular apenas no último encontro. Tinha 20 anos e 93 dias no jogo frente à Inglaterra. O recorde de português mais jovem numa fase final só seria batido 18 anos depois, quando Cristiano Ronaldo se estreou no Euro 2004, com 19 anos e 127 dias.

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A seguir, entre 1986 e 1993, tornou-se no melhor português e um dos melhores do Mundo. O ponto mais alto aconteceu a 27 de maio de 1987, com 21 anos e três meses: campeão da Europa pelo FC Porto, para o qual se transferira no verão de 1984. Entre 1988 e 1990, carregou muitas vezes a Seleção às costas numa fase difícil do futebol português, nem sempre tendo à sua volta uma equipa à altura do seu talento, mas nunca deixou de assumir o jogo. Mas mais do que números, deixou marca pelo estilo: explosivo, felino, vertical. Pé esquerdo brilhante, arranque vertiginoso, coragem sem medo do confronto e, sobretudo, símbolo de uma geração.

Acabou de jogar em setembro de 1998, mas continua bem vivo na memória de todos os que gostam de futebol.

Parabéns, Paulinho!

A estreia no Sporting
«Joseph Venglos, o técnico checoslovaco do Sporting, sabia que era preciso ordenar mudanças na equipa. Optou pela entrada de Futre, ‘o Ai Jesus’ de Alvalade, e a essa opção, que envolveu a saída de Festas, o recuo de Romeu para o seu lugar e a presença constante do jovem Futre, no flanco esquerdo, o que significava abrir, de ponta a ponta, a frente de ataque, Venglos juntou ainda a opção-velocidade. Era preciso espertar, impor um novo ritmo, experimentar sucessivas mudanças de velocidade. A presença resultou, em termos de qualidade de jogo do Sporting, pois Futre foi a pedrada no charco. A um certo abandono coletivo, a que se assistira na primeira parte, Futre atirou com o seu irrequietismo, a sua velocidade e, sobretudo, a sua capacidade de voltar a empolgar as bancadas. O jogo ganhou nova animação. A ninguém restará dúvidas de que Futre conseguiu os seus intentos e que, por isso, subiu ainda mais uns furos no gosto dos adeptos leoninos que, de tanto lhe quererem, até são capazes de fomentar alguns exageros. Futre foi a grande estrela do jogo, mas serão precisos naturais cuidados para lhe travar alguns exageros de individualismo, que não deixam, também, de ser lógicos, num jovem que se sente a crescer no mundo do futebol».

27 de agosto de 1983

Sporting-Penafiel, 5-1

Por Vítor Serpa, em A BOLA

A estreia na Seleção A
«Uma estreia que Futre merecia na nossa Seleção Nacional e que se justificava plenamente, ante a necessidade de meter no ataque um futebolista de bom drible em movimento e dotado de poder de penetração na muralha defensiva que os finlandeses montaram na guarda à sua batiza, a cobrirem a ação do guarda-redes. O público afeto ao Sporting rejubilou com a entrada do seu ‘puto’ de verdes anos. E não se houve mal o extremo esquerdo «leonino», a despeito de ter entrado a jogar num conjunto desligado e de formação muito heterogénea, para não dizer desligada. Futre tem um largo futuro à sua frente e a Seleção já não espera por ele. Ele esteve lá, ontem, de corpo inteiro, por mérito e valor próprios.»

21 de setembro de 1983

Portugal-Finlândia, 5-0

Por Fernando Vaz, em A BOLA

Campeão da Europa pelo FC Porto
Pediu-se-lhe muito durante a primeira parte, enquanto jogou ‘em ponta’ pela zona central e pouco apoiado. Em lances de habilidade e de velocidade com a bola controlada constituiu uma ameaça para Bayern, mas, então, dando mostras de algum egoísmo, levando longe de mais as suas iniciativas, desbaratando o seu esforço com a agravante de o árbitro não atender às suas quedas e simulações, distinguindo sempre bem, portanto, sem dar ouvidos aos protestos do portista. Na segunda parte jogou mais apoiado, o FC Porto passou a atuar com três avançados — mesmo depois do 2-1... — mas não conseguiu grandes ensejos para brilhar, a não ser num lance realmente portentoso a entrar pelo lado direito, sempre em dribles sucessivos de viés, que, a ter sido concluído em golo, seguramente o levaria até Itália, onde estariam a esta hora, milhões de liras à sua espera.»

27 de maio de 1987

FC Porto-Bayern, 2-1

Por Carlos Pinhão, em A BOLA