Keely Hodgkinson ganhou o ouro nos 800 m com recorde do Mundo e 55 minutos depois voltou a brilhar na estafeta britânica. IMAGO
Keely Hodgkinson ganhou o ouro nos 800 m com recorde do Mundo e 55 minutos depois voltou a brilhar na estafeta britânica. IMAGO

O segredo do sucesso da estrela inglesa dos 800 metros vem dos Himalaias

Painter, um ex-jogador de râguebi, chegou a comprar um candeeiro de sal de 40 kg para Hodgkinson, na esperança de atenuar as suas mudanças de humor

Num espaço de apenas 29 minutos, Keely Hodgkinson e Georgia Hunter Bell conquistaram o ouro no Campeonato do Mundo de Atletismo, um feito que Sebastian Coe descreveu como «um momento monumental para o desporto britânico, não apenas para o atletismo». As duas atletas, treinadas pelo casal Trevor Painter e Jenny Meadows, fazem parte do M11 Track Club, um grupo que combina treinos em Manchester com estágios intensivos na África do Sul.

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O sucesso das atletas britânicas, que culminou numa fotografia icónica ao lado de Molly Caudery, também vencedora, todas envoltas em bandeiras do Reino Unido, assenta em vários pilares, desde métodos de treino inovadores a uma forte coesão de grupo.

Um dos segredos é a integração do ciclismo no plano de treinos. Georgia Hunter Bell, que regressou à corrida há apenas três anos, já competia a nível internacional em duatlos, pelo que o ciclismo sempre foi uma base da sua preparação. O treinador Trevor Painter incentivou a manutenção desta prática, segundo conta o The Telegraph.

O ciclismo foi também introduzido na rotina de Keely Hodgkinson, embora com alguns percalços iniciais. Sendo Hodgkinson descrita como um «espírito livre», ao contrário da metódica Hunter Bell, a decisão foi calculada para manter a atleta motivada. Em vez de treinar numa bicicleta estática, Hodgkinson desfrutou dos treinos de ciclismo nas estradas sul-africanas durante os estágios de altitude.

A adaptação não foi isenta de dificuldades, como a queda de Hodgkinson em semáforos por não dominar os pedais de encaixe. No entanto, esta modalidade permitiu a ambas as atletas desenvolver a sua capacidade aeróbica, reservando as sessões de maior impacto para a pista. O resultado foi chegarem a Torun após cinco meses de treino sem lesões.

«Fazemos a maior parte do trabalho longo e lento em bicicletas, piscinas, elípticas», explicou Painter. «Depois, quando corremos na pista e fazemos sessões, sentimo-nos mais rápidos, mais ágeis e as sessões são melhores».

Jenny Meadows acrescentou que por vezes é preciso controlar o entusiasmo de Hodgkinson. «A Keely deveria fazer uma hora de bicicleta em alguns dias e sabemos que ela fez 90 minutos. Por isso, tivemos de a refrear. Mas é ótimo. Ela acha tão aborrecido estar no ginásio numa bicicleta estática ou na elíptica. É bom para ela ser estimulada. Temos de ser flexíveis e deixá-la desfrutar da vida».

O bem-estar das atletas é uma prioridade no M11 Track Club, que conta com 24 atletas e é descrito como uma família. Painter supervisiona até sete tipos de sessões em simultâneo, enquanto Meadows contribui com a sua vasta experiência como atleta de elite e com a sua atenção ao detalhe logístico e psicológico.

Uma adição significativa desde o ano passado foi a fisioterapeuta a tempo inteiro, Hannah Martin, financiada pela Nike, patrocinadora do grupo e das duas atletas. «É a primeira vez desde Budapeste [em 2023] que a Keely chega a um campeonato 100% saudável», afirmou Painter. «O ano passado doeu mais do que tudo, porque vimos que ela estava em forma para bater o recorde do mundo e depois sofrer a lesão foi como uma morte na família».

A preocupação com o bem-estar estende-se a métodos menos convencionais. Painter, um ex-jogador de râguebi, chegou a comprar um candeeiro de sal dos Himalaias de 40 kg para Hodgkinson, na esperança de atenuar as suas mudanças de humor. O próprio treinador admitiu ter um cristal na sua mesa de cabeceira em Torun.

«Trata-se também de fazer a pessoa feliz. Se estiverem num lugar feliz, terão um bom desempenho», disse. «A Keely está simplesmente num lugar muito feliz neste momento. A nível de relacionamentos, está a mudar de casa, o que é entusiasmante. Algumas pessoas têm a ciência, mas não conseguem conectar-se com o indivíduo».

Keely Hodgkinson e Georgia Hunter Bell estão a protagonizar uma nova era dourada no meio-fundo britânico, com desempenhos que impressionam e prometem ainda mais para o futuro. A confiança é elevada, com o treinador Trevor Painter a admitir que Hodgkinson atingiu «uma nova estratosfera» e que os tempos que regista atualmente são aqueles que, por norma, só alcançaria no verão.

Durante o aquecimento para uma prova recente, a própria atleta sentia-se confiante. «Sinto-me incrível. Não ficarei surpreendida se conseguir um recorde pessoal aqui», disse Hodgkinson ao seu treinador. Painter recorda a sua resposta: «OK, o teu recorde pessoal é um recorde mundial». A atleta não falhou uma única sessão de treino durante todo o inverno, o que justifica a sua forma excecional.

A sua performance nos 800 metros, que resultou num recorde dos campeonatos e na segunda melhor marca da história, foi notável. Contudo, apenas uma hora depois, a sua determinação voltou a sobressair ao correr a última posta da estafeta de 4x400m. Apesar de a equipa britânica estar em quinto lugar quando recebeu o testemunho, Hodgkinson recuperou terreno e registou o parcial mais rápido da noite, com 50,1 segundos, um tempo superior ao de alguns atletas masculinos.

Após a corrida, a atleta revelou a sua exigência para integrar a equipa da estafeta: «Deem-me a m do testemunho e eu dou-vos um tempo de 50 segundos». Na manhã seguinte, mostrou-se surpreendida com o seu próprio desempenho, escrevendo: «Eu a correr 23,4 nos 200m deixou-me de boca aberta… às vezes surpreendo-me a mim mesma!!!??!!».

Por sua vez, Georgia Hunter Bell também brilhou nos 1500 metros, estabelecendo um novo recorde britânico em pista coberta. A atleta ultrapassou a etíope Birke Haylom e, na fase final, não só susteve a medalhada de prata olímpica, a australiana Jess Hull, como se distanciou dela. Os seus parciais nos últimos 200 metros foram de 14,93s e 14,43s, completando a volta mais rápida da corrida. A equipa técnica acredita que, com o auxílio de «lebres», Hunter Bell tem capacidade para melhorar o seu tempo em cerca de três segundos, aproximando-se de um recorde europeu na ordem dos 3m55s.

A dinâmica entre Hodgkinson, de 24 anos, e Hunter Bell, de 32, é um dos segredos do sucesso. Apesar de serem rivais diretas, treinam juntas diariamente e partilham uma relação de apoio mútuo. Hodgkinson aceitou a presença da compatriota no seu grupo de treino, mesmo depois de ter sido superada por ela nos 800 metros do Campeonato do Mundo do ano passado. Frequentemente, partilham o quarto em competição e apoiam-se mutuamente a partir da bancada.

As suas personalidades e fases de vida distintas — Hunter Bell casou-se no ano passado — parecem complementar-se. O treino conjunto permite-lhes partilhar os intervalos mais exigentes e tirar partido das suas diferentes características: Hunter Bell possui uma maior capacidade aeróbica para distâncias longas, enquanto Hodgkinson se destaca pela potência e velocidade pura.

Jenny Meadows, antiga atleta, destaca a autenticidade da relação. «Sabe o que eu adoro também? É tão autêntico, porque a Georgia ficou lá para ver a Keely ganhar. Elas ajudam-se uma à outra», comentou. Meadows descreve ainda as diferenças entre as atletas: «Sou muito analítica. Eu era uma espécie de robô como corredora. A Georgia é exatamente igual; ela é uma estudante da modalidade. A Keely é o espírito livre, é preciso manter as coisas flexíveis para ela».

Lord Coe, presidente da World Athletics, considera que o atletismo britânico vive uma era de ouro comparável à sua com Steve Ovett e Steve Cram. «Foi também a natureza e o domínio absoluto das três raparigas nesses eventos [incluindo Caudery] que foi tão emocionante», afirmou Coe. «Foi imensamente inspirador e espero mesmo que elas provoquem uma corrida aos clubes de atletismo locais, especialmente entre as raparigas jovens».