O dinheiro da TV: quem ganha, quem perde e quanto (exercício de distribuição de receitas)
Portugal está prestes a centralizar os direitos audiovisuais do futebol. Um bolo entre os 180-225 milhões de euros vai ser redistribuído por novas regras. Fizemos as contas com estimativas dos valores dos contratos dos clubes na época 2024/25. Os resultados são mais reveladores do que se esperava: os três grandes perdem. Muito. A pergunta que fica não é se devem aceitar. É quanto tempo têm para negociar melhor.
Imagine que é dirigente do Arouca. Cada época, vai a Lisboa negociar sozinho com os OPERADORES / SPORT TV o valor das transmissões de jogos. Sai de lá com 3,5 milhões de euros. Nessa mesma semana, o Benfica — que também foi lá, mas numa negociação completamente diferente — saiu com 40 milhões (para efeitos do exercício e para ser comparável com os restantes clubes, considerou-se o valor antes da renovação de março deste ano com a NOS). Sporting e FC Porto com ~35 milhões cada. Não é injustiça: é o mercado. E é exatamente isto que a centralização dos direitos audiovisuais vai mudar.
A centralização significa que a Liga Portugal negoceia em nome de todos os clubes (I e II Liga), consegue um valor global superior, e depois distribui esse dinheiro segundo Decreto-Lei n.º 22-B/2021, de 22 de março e a chave de distribuição definida pelos clubes. É o que já existe em Espanha, França, Itália, Alemanha. Em Portugal, o modelo está a ser desenhado. E os números que saem deste exercício são mais complexos do que parecem.
Estes são valores estimativos de mercado. Os contratos reais são confidenciais — mas, com os broadcasters atuais — SPORTTV, BTV, Media Capital —, as estimativas de referência no final da época 24/25 apontam para: o Benfica ~40 M/€; Sporting e FC Porto ~35M/€ cada. SC Braga e Vitória ~7,5M/€. E os restantes 13 clubes dividem os restantes 42 milhões, em valores que vão dos 3,5M/€ aos 5M/€. Com esta base de partida, vamos explicar o que muda e para quem.
Bolo dividido em dois
Nota prévia: a chave de distribuição que aplicámos tem por base as informações veiculadas em dezembro de 2025, numa cimeira de Presidentes da Liga, a qual foi apresentada e discutida. Na reunião de hoje, deverá ser de novo apresentada uma chave de distribuição que seguramente será um dos pontos altos da reunião, porque irá definir os valores que os clubes vão receber.
Começado o exercício, e antes de aplicar qualquer critério, há uma decisão estrutural: 90% da receita total vai para a I Liga e 10% para a Liga 2. Num contrato de 225 milhões de euros — um objetivo de valorização razoável, não especulativo —, isso significa 202,5M/€ para os 18 clubes da I Liga e 22,5M/€ para a II Liga. Num cenário de 180M/€ (o valor atual do mercado): 162 e 18M/€.
Este split é politicamente importante: significa que a centralização não ignora o segundo escalão. Ao mesmo tempo, não abdica de que o dinheiro siga para onde o produto televisivo tem mais valor: a I Liga.
I Liga divide bolo em cinco fatias
Os 90% que ficam para a I Liga são distribuídos segundo cinco critérios com pesos fixos. A novidade deste modelo face ao que existe hoje é exatamente essa: há regras. Não há negociação individual, não há poder de lobbying, não há quem saia do gabinete com mais do que o seu clube vale pela fórmula.
A maior fatia (44,2%) segue o mérito desportivo. Os 44,2% das receitas (89M€) são neste exercício distribuídos por 18 clubes seguindo a pratica mais comum (Premier League e Uefa), em que o último classificado recebe 1 parte e o campeão 18. Cada unidade vale cerca de 523 mil euros, sendo o valor final proporcional à posição na tabela. Assim, o campeão Sporting (2024/25) receberia perto de 9,4M€, enquanto o último fica com cerca de 500 mil euros. O modelo reforça a meritocracia, mas acentua diferenças financeiras.
A segunda fatia (32,5%) é dividida em partes iguais. Todos os 18 clubes recebem exatamente o mesmo, independentemente da classificação. Esta é a âncora de solidariedade do modelo: garante que o 18.º classificado tem sempre um mínimo de receita televisiva. A 202,5 milhões para a I Liga, isso significa 3,65 milhões garantidos a cada clube. Um Arouca ou Casa Pia recebem ligeiramente menos hoje. É uma revolução silenciosa para os clubes pequenos.
Os restantes 23% dividem-se por critérios qualitativos: grandeza e implantação social (14,3%), qualidade das infraestruturas (5%) e condições para a transmissão televisiva (4%). É aqui que o modelo reconhece que a história de um clube tem valor económico e que um Benfica com 400.000 sócios gera mais audiência do que um AVS com 2.000.
Os números: o que cada clube recebe
A tabela seguinte compara o que cada clube recebe hoje (estimado e com base em informação de mercado no fim de 24/25) com o que receberia com a centralização, nos dois cenários. O delta é calculado face ao contrato em junho de 2025. A vermelho clubes que perdem. A verde clubes que ganham:
O elefante na sala: três grandes perdem sempre
A tabela é clara, mas a magnitude da perda merece ser dita em voz alta. A 225 milhões de euros — um aumento de 25% face ao contrato atual —, o Benfica perderia 19,4 milhões face ao que recebe hoje. O Sporting perderia 15,8 milhões, o FC Porto 16,6 milhões. Não é um pormenor. É o centro do debate.
Porquê? Porque hoje os três grandes concentram 61% da receita televisiva total estimada (cerca de 110 milhões de 180 milhões). Com a centralização, o modelo limita essa concentração: Benfica, Sporting e FC Porto recebem cerca de 28% do bolo — independentemente do valor total. A redistribuição é estrutural, não acidental.
Não é um valor realista no curto prazo. O que significa que enquanto o mercado não atingir esses patamares, os três grandes vão ter de aceitar uma perda real de receita televisiva. A questão que fica é: quanto tempo têm para negociar essa transição?
O ponto de equilíbrio
Recordamos que com a chave de distribuição que terá sido discutida em dezembro de 2025, para a perda ser inferior a 5 milhões, o Benfica precisaria de um contrato de 504 milhões de euros. O Sporting de 428 milhões. O FC Porto de 452 milhões. São valores que só ligas como a Premier League ou a LaLiga atingem. Portugal não está aí.
A única forma de equilibrar o impacto da perda para o Benfica, Sporting e FC Porto será rever as percentagens da chave de distribuição ou criar um mecanismo paralelo de compensação ou incentivo financeiro aos clubes que passariam a ter um impacto negativo nas suas contas.
O que os grandes ganham em troca?
A pergunta legítima é: se perdem tanto, porque hão de os grandes aceitar? A resposta é mais complexa do que parece.
Primeiro, ganham previsibilidade. Hoje, cada renovação de contrato é uma negociação de risco. A centralização garante um fluxo de receita estável, auditável e independente da capacidade de pressão de cada clube sobre os broadcasters.
Segundo, valorizam a liga como produto. Uma liga com um contrato centralizado de 200 ou 225 milhões é um produto radicalmente mais atrativo para investidores estrangeiros, patrocinadores internacionais e fundos de private equity do que uma coleção de contratos individuais dispersos. A entrada de novos capitais no futebol português beneficia os grandes de forma desproporcionada — mas também são eles quem tem ativos audiovisuais mais valorizados, estruturados e já comprometidos em contratos de sponsorship com várias marcas.
Terceiro, abrem mercado a novos operadores. A centralização cria a possibilidade de licitação aberta entre SPORTTV, DAZN, TVI/Media Capital, NOS, MEO, Digi, Vodafone e eventualmente plataformas de streaming como Livemode / CazéTV ou Amazon Prime. Mais concorrentes significa mais dinheiro — e o único cenário em que os grandes recuperam o que perdem hoje é num contrato de 450 a 560 milhões, que só é possível com dois ou três operadores a licitar em simultâneo e com o atual cenário europeu muito provavelmente não irá acontecer.
A revolução silenciosa
Se os grandes perdem, os outros 15 ganham — e muito. Um clube como o Gil Vicente, que recebe 3,5M/€, passaria a receber 11M/€ num cenário de 225 milhões brutos. O Arouca saltaria de 3,5 M/€ para 7,1 M/€. O Casa Pia de 3,5M/€ para 9,9M/€. São triplicações de receita televisiva garantida, sem depender de resultados desportivos excecionais.
Para estes clubes, a centralização não é apenas uma questão de mais dinheiro. É de sustentabilidade estrutural. Com 8 a 10M/€ garantidos em direitos audiovisuais, um clube da I Liga pode pagar ordenados sem depender de vendas de jogadores de emergência, pode investir em academia sem hipotecar o futuro, pode planear épocas sem o pânico da descida financeiramente catastrófica.
O AVS SAD, recém-chegado à I Liga, passaria de 3,5 para 6,5M/€ — dinheiro suficiente para construir a estrutura profissional que lhe permite manter-se no escalão. O SC Braga — que não é um clube pequeno — passaria de 7,5M/€ para 14,5M/€. Um salto que, a quatro épocas consecutivas, representa 18M/€ de euros adicionais para investir no plantel, profissionais administrativos e nas infraestruturas.
O que falta resolver e garantir regulação
Primeira questão: a negociação com os grandes. O modelo de centralização não pode avançar sem o acordo de Benfica, Sporting e FC Porto. Não por razão legal — tecnicamente a Liga pode impor — mas por razão política. A questão é quanto tempo e a que preço se faz esse acordo. A janela de negociação existe: qualquer valor de contrato acima de 200 milhões é melhor para os pequenos e, em termos de valorização do produto, melhor para todos. O sacrifício de curto prazo dos grandes tem de ser compensado por garantias de longo prazo.
Segunda questão: os critérios qualitativos. Os 14,3% de grandeza, os 5% de infraestruturas e os 4% de transmissão televisiva precisam de fontes de dados auditáveis e de entidade independente que os valide. Não pode ser a Liga a classificar os estádios. Não pode ser um clube a declarar o seu número de sócios sem verificação. Isto tem de ter rigor de relatório de auditoria.
Terceira questão: o que acontece com os clubes despromovidos. O Boavista e o Farense desceram em 2024/25. Têm história, sócios e palmarés — pelo critério de grandeza, recebem mais do que clubes que ficaram na I Liga. É politicamente sensível, mas matematicamente defensável. O modelo tem de definir se usa dados da época em que o clube está na liga ou um histórico de presença.
O que está verdadeiramente em jogo
A centralização dos direitos audiovisuais não é um modelo que beneficia a todos de forma igual. Os números são claros sobre isso. Beneficia os clubes pequenos de forma imediata e significativa. Penaliza os clubes grandes de forma imediata e também significativa. O argumento para a mudança não é financeiro de curto prazo — é estratégico de longo prazo.
O futebol português vale hoje 180 milhões de euros em direitos audiovisuais. A liga francesa, de dimensão comparável em termos de produto, vale ~400M/€, mas passa por muitas dificuldades após rescindir o contrato com a DAZN. A liga belga, com a mesma população e sem a mística do futebol português, vale ~100M/€ com um contrato centralizado que duplicou em menos de dez anos. O caminho está traçado. A questão é quem decide acelerá-lo — e a que custo.
Benfica, Sporting e FC Porto têm hoje o maior incentivo para negociar bem a centralização: são eles quem perde mais se ela for mal feita, e são eles quem mais tem a ganhar se o contrato global chegar aos 300 ou 400 milhões. A liga que se constrói hoje com boas regras, é a liga que atrai os investidores que vão pagar esses 300 milhões. A centralização vai acontecer. A única negociação que importa é sobre o valor do contrato e depois virá a discussão de quais os ativos que os clubes irão disponibilizar à Liga Portugal para comercializar.