Festejos dos jogadores do Benfica após o golo de Ríos. Foto: Sérgio Miguel Santos (Casa Pia-Benfica)
Festejos dos jogadores do Benfica após o golo de Ríos. Foto: Sérgio Miguel Santos (Casa Pia-Benfica)

Não há campeão sem critério (notas sobre o Casa Pia-Benfica)

«Bola Descoberta» é o espaço de opinião de Laurindo Filho, treinador de futebol

Diz-se que, em futebol, não existem fórmulas mágicas nem receitas milagrosas que garantam vitórias e troféus, caso estejamos a falar de candidatos ao título.

Contudo, embora seja um argumento difícil de contrariar, há caminhos que aproximam mais uma equipa do sucesso, ou seja, das vitórias e eventualmente da conquista de um título. E em todos esses caminhos existe um trilho que surge como condição sine qua non para o final feliz tão ambicionado por quem deseja levantar troféus no final de uma época. Esse trilho é o critério.

O critério na escolha dos jogadores mediante a Ideia e o Modelo de Jogo. O critério na escolha dos jogadores mediante o rendimento em treino e em jogo. O critério na definição de uma convocatória e de um onze inicial que não estejam condicionados por estatutos, agenciamentos ou investimento salarial. O critério na escolha de jogadores que saibam pensar, temporizar e jogar o jogo em diferentes ritmos e não apenas em modo velocidade de ponta.

O Benfica voltou a tropeçar na luta pelo título precisamente por ausência de critério. Em especial por falta de critério dos jogadores que compuseram o onze inicial lançado por José Mourinho frente ao Casa Pia.

Perante um adversário que já se sabia ir defender em bloco baixo com linha de 5, sectores compactos e pouco espaço entrelinhas, o Benfica entregou a arquitectura do seu momento ofensivo

a... Richard Ríos.

O médio colombiano não só não possui a inteligência técnico-táctica necessária para assumir a manobra ofensiva encarnada como também não tem as características técnicas exigidas a um patrão do meio-campo de uma equipa candidata ao título. Nem sequer para uma equipa com uma Ideia de Jogo bem definida, quanto mais para uma equipa que antes tinha Sudakov a deambular entre a meia esquerda e a zona 10 e agora tem Rafa a fazer de segundo avançado.

Sem Aursnes e com Sudakov no banco depois da lesão e do regresso de Rafa à Luz, o Benfica perde claramente critério na zona central e nevrálgica do terreno. O corredor central serve apenas de plataforma giratória, com indicações claras para acelerar jogo e fazer chegar o esférico aos corredores laterais.

O problema é que sobre a direita não existem rotinas, seja porque Dedic está lesionado e Bah acaba de regressar de paragem prolongada, seja porque Lukebakio ainda não voltou de lesão e continua a ser um jogador de ataque à profundidade para ser servido de fora para dentro.

Sobre a esquerda, Dahl e Schelderup entendem-se bem, mas não têm um terceiro elemento que os ajude a desequilibrar através de movimentos associativos. Pavlidis tende a descair para aquela zona, perdendo o Benfica a sua unidade mais goleadora em zonas de finalização. Sudakov, antes da lesão, estava a ser importante para a criação de uma dinâmica atacante mais envolvente sobre o flanco esquerdo. Desde então, Rafa tem sido muito mais um elemento a menos do que o desequilibrador desejado pelas águias no pós-Besiktas.

Sem aceder ao corredor central é muito mais difícil apresentar argumentos que ajudem a desmontar adversários compactos e bem organizados do ponto de vista defensivo, independentemente de assentarem a sua organização numa linha de quatro, cinco ou seis defesas.

Já Guardiola dizia que é impossível jogar bem sem utilizar o corredor central. E não se trata de Tiki-Taka, mas sim de saber explorar a zona central do terreno, seja para atrair dentro e libertar fora, seja para chegar ao último terço através do próprio corredor central através de Dinâmicas de 3.⁰ Homem. Afinal de contas, o campo de futebol continua a ter três corredores: dois laterais e um central.

Importa referir que a ausência de jogo interior tão evidente no Benfica é, antes de mais, uma opção do seu treinador. Pese embora a actual ausência de Aursnes, o Benfica tem no seu plantel jogadores capazes de assumir a manobra ofensiva da equipa, de pensar de forma racional e criteriosa o ataque encarnado.

Existem sub-estruturas tácticas que podem ser treinadas em treino, passe a redundância, e implementadas em jogo de modo a aproveitar as características individuais dos jogadores. Não requer coragem, apenas um olhar mais amplo e um alargar de horizontes que cortem as amarras daquilo que surge como irredutível e dogmático na cabeça.

Todos os campeões nacionais, seja qual for o país, têm no seu onze inicial mais habitual jogadores capazes de dotar a equipa de critério. Com e sem bola. Todos, sem excepção. De Portugal a Espanha, passando pela Alemanha e por Itália, terminando em Inglaterra. Basta relembrar que o único Liverpool campeão inglês com Jurgen Klopp contou com Thiago Alcântara na equipa mais utilizada.

Coincidência? Não. Critério. O Benfica volta a não ser capaz de chegar ao título de campeão nacional precisamente porque não tem, entre outras coisas, critério no momento ofensivo. Não há quem pense. Não há quem pause. Não há que desacelere para sair da ilha, de modo a ver a própria ilha.