Morreu Oscar Schmidt, lenda do basquetebol brasileiro e olímpico
O mundo do basquetebol está de luto pela morte de Oscar Schmidt, conhecido como Mão Santa, que faleceu esta sexta-feira aos 68 anos. A lenda brasileira, considerada um dos maiores jogadores de todos os tempos, sofreu uma paragem cardiorrespiratória.
De acordo com uma nota oficial do Hospital e Maternidade Municipal Santa Ana, Oscar Daniel Bezerra Schmidt foi transportado para a unidade na quinta-feira pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência já em paragem cardiorrespiratória. A equipa médica prestou toda a assistência, mas não foi possível reverter a situação.
A família do antigo atleta, que era irmão do apresentador Tadeu Schmidt e deixa a mulher, Maria Cristina, e dois filhos, Filipe e Stephanie, emitiu um comunicado onde destacou a sua longa batalha contra a doença. «Ao longo de mais de 15 anos, Oscar enfrentou com coragem, dignidade e resiliência a sua batalha contra um tumor cerebral, mantendo-se como exemplo de determinação, generosidade e amor à vida», lê-se na nota.
A família informou ainda que o corpo será cremado e que a cerimónia funerária será privada. «A despedida dar-se-á de forma reservada, restrita aos familiares, em respeito ao desejo da família por um momento íntimo de recolhimento. O seu legado permanecerá vivo na memória coletiva e na história do desporto», conclui o mesmo comunicado.
A carreira de Oscar Schmidt, que atuava como extremo/poste, foi recheada de recordes e feitos notáveis. É o maior marcador da história dos Jogos Olímpicos, com um total de 1.093 pontos, e também da seleção brasileira, com 7.693 pontos. A sua influência foi tal que, mesmo sem nunca ter jogado na NBA, foi introduzido no Hall of Fame do basquetebol nos Estados Unidos, bem como no Hall of Fame da FIBA e, mais recentemente, em abril, no Hall os Fame do Comité Olímpico do Brasil.
Nascido a 16 de fevereiro de 1958, em Natal, no Rio Grande do Norte, Oscar começou a jogar aos 13 anos em Brasília, no clube Unidade da Vizinhança. Aos 16 anos, mudou-se para São Paulo para alinhar no Palmeiras, de onde rapidamente ascendeu à seleção principal do Brasil. Em 1978, conquistou o Sul-Americano e a medalha de bronze no Mundial das Filipinas.
A sua carreira em clubes levou-o a representar o Sírio, com o qual venceu o Mundial Interclubes em 1979, e o América do Rio, antes de se mudar para a Europa, em 1982. Em Itália, brilhou durante 11 épocas, oito no Juvecaserta e três no Pavia, tornando-se o primeiro a ultrapassar os 10 mil pontos no campeonato italiano, terminando com um total de 13.957. Posteriormente, actuou duas temporadas em Espanha, no Fórum de Valladolid, para então regressar ao Brasil em 1995.
A carreira de Oscar Schmidt, conhecido como Mão Santa pelo seu acerto nos lançamentos, é marcada por recordes impressionantes, uma dedicação inabalável à seleção e, segundo consta, uma recusa histórica à NBA. O seu percurso consolidou-o como uma das maiores figuras do basquetebol mundial, admirado por lendas como Kobe Bryant e Larry Bird.
Durante anos, Oscar deteve o título de maior pontuador da história da modalidade, com um total de 49.737 pontos, superando a marca de 46.725 do poste Kareem Abdul-Jabbar. Recorde foi apenas ultrapassado em 2024 por LeBron James, que atingiu os 49.760 pontos em jogos oficiais.
A sua passagem pelo Flamengo, entre 1999 e 2003, foi particularmente notável. No clube carioca, o seu espírito guerreiro conquistou os adeptos, tendo sido bicampeão carioca e vice-campeão brasileiro. Antes, a sua carreira no Brasil incluiu passagens pelo Corinthians, Banco Bandeirantes (1997-1998) e Mackenzie (1998-1999).
O patriotismo acima da NBA
Um dos momentos mais emblemáticos da sua carreira foi a decisão de recusar um contrato com a NBA. Em 1984, Oscar foi escolhido no draft pelos New Jersey Nets (atuais Brooklyn Nets), mas rejeitou a proposta. Na altura, as regras da liga norte-americana impediam que os jogadores representassem as seleções nacionais, e para Oscar, vestir a camisola do Brasil era inegociável.
Esta lealdade, aliada às suas exibições memoráveis, especialmente na conquista dos Jogos Pan-Americanos de 1987, em Indianápolis, aumentou o fascínio dos norte-americanos pelo extremo/poste de 2,06m. Em 2013, foi introduzido no Hall of Fame do basquetebol em Springfield, Massachusetts, recebendo a honra das mãos de Larry Bird, antiga estrela dos Celtics. Mais tarde, em 2017, os Brooklyn Nets homenagearam-no no Barclays Center, em Nova Iorque, com uma camisola personalizada com o número 14.
Apesar de nunca ter conquistado uma medalha de ouro em Mundiais ou Jogos Olímpicos, as suas atuações pela seleção do Brasil elevaram-no ao estatuto de lenda. O ponto alto foi, sem dúvida, a vitória sobre os Estados Unidos na final dos Jogos Pan-Americanos de 1987, por 120-115, em solo norte-americano.
Nesse jogo, Oscar foi o melhor marcador com 46 pontos e converteu sete triplos, quando este lançamento ainda era pouco explorado, visto que a linha de três pontos tinha sido introduzida no basquetebol internacional (FIBA) apenas três anos antes. Sobre esse momento, Oscar recorda a intensa preparação: «Treinámos três meses para aquele momento. Então, é aquele sentimento que vem de dentro e acaba em choro. É uma emoção muito forte, que não se consegue segurar».
Ao serviço da seleção, participou em cinco edições dos Jogos Olímpicos e acumulou 7.693 pontos em 326 jogos, o que resulta numa média de 23,5 pontos por partida.
A admiração de Kobe Bryant e a curta carreira de dirigente
A sua fama atravessou gerações, e até o falecido Kobe Bryant, ícone dos Lakers, expressou a sua admiração pelo brasileiro, que acompanhou durante a sua passagem pelo basquetebol italiano, onde enfrentou várias vezes o pai de Kobe. Num encontro no Brasil em 2013, Oscar partilhou a preocupação de Bryant com a sua saúde.
«A primeira coisa que ele me perguntou foi como eu estava (por causa do cancro no cérebro). Mostrei-lhe a cicatriz da cirurgia. Ele mostrou-se muito preocupado com a minha doença. Estou muito feliz com este momento. Vim aqui por causa dele, sei da idolatria que tem por mim. Vu-me a jogar em Itália e a ganhar ao pai dele todos os dias (risos). É uma satisfação muito grande ver o Kobe», contou Oscar na altura.
Após terminar a carreira de jogador no Flamengo, em 2004, Oscar Schmidt tentou a sorte como dirigente, fundando a equipa Telemar/Rio de Janeiro. O projeto, que contou com jogadores de renome como Marcelinho, Demétrius e Sandro Varejão, conquistou o Campeonato Carioca de 2004 e o Brasileiro de 2005, mas terminou em 2006 devido à retirada do patrocinador.
A batalha contra um cancro no cérebro durou 15 anos, uma luta que o antigo basquetebolista enfrentou com a mesma garra que demonstrava nos campos. A doença foi-lhe diagnosticada em 2011, quando descobriu um tumor maligno.
Ainda nesse ano, foi submetido a uma primeira cirurgia para remover um tumor de oito centímetros. Contudo, a doença regressou em 2013, obrigando-o a uma nova intervenção cirúrgica para travar o seu avanço. Ambas as operações foram bem-sucedidas e, anos mais tarde, Oscar recebeu o prognóstico de cura total.
Até 2019, o Mão Santa continuava a ter de tomar remédios para o cancro e a realizar tratamentos mensais de prevenção, embora já tivesse recebido alta clínica. Nos anos que se seguiram, fez várias declarações públicas, afirmando sentir-se bem e determinado a aproveitar a vida. No entanto, nos últimos meses, a família optou por uma postura mais reservada quanto ao seu estado de saúde.
Numa entrevista realizada à Globo Esporte em 2017, partilhou como o humor era uma parte importante das suas palestras: «É uma parte boa da minha palestra, que as pessoas riem muito».
A carreira de Oscar foi marcada por inúmeros feitos, somando um total de oito títulos nacionais entre as categorias de amador e profissional. Apesar de nunca ter conquistado uma medalha olímpica, o nome ficou gravado na história dos Jogos Olímpicos com recordes notáveis.