Jorge Jesus, novo selecionador nacional, venceu os dois primeiros jogos no comando da Seleção, frente a Gales e Noruega - Foto: Imago
Jorge Jesus, novo selecionador nacional, venceu os dois primeiros jogos no comando da Seleção, frente a Gales e Noruega - Foto: Imago
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Jorge Jesus pode mudar mais do que a Seleção

'Pensar o futebol' é o espaço de opinião em A BOLA de Carlos Carneiro, dirigente desportivo

Portugal venceu o País de Gales e a Noruega. Duas vitórias, seis pontos e um começo promissor. Mas o impacto de Jorge Jesus não se mede apenas pela classificação ao fim de dois jogos. A pergunta é outra: conseguirá um treinador habituado a transformar diariamente as suas equipas imprimir uma identidade reconhecível numa Seleção que se reúne durante poucos dias de cada vez?

Num clube, um treinador repete comportamentos, corrige distâncias, experimenta soluções e volta a trabalhar no dia seguinte. Numa Seleção, recebe jogadores com hábitos diferentes e tem de competir quase de imediato. O tempo está dividido por viagens, recuperação física e jogos. Cada sessão de treino conta. Cada mensagem tem de ser clara.

É por isso que a chegada de Jorge Jesus desperta curiosidade. Ao longo da carreira, as suas equipas foram associadas a exigência, intensidade, organização e intervenção constante do treinador. Importa perceber que princípios podem sobreviver quando o trabalho diário dá lugar a encontros breves e espaçados. O talento de um selecionador também se revela na capacidade de escolher o que ensinar primeiro.

A vitória sobre Gales, por 1-0, deixou sinais de uma equipa que quis pressionar, recuperar a bola cedo e jogar perto da baliza adversária. A vitória na Noruega, por 2-1, colocou Portugal perante um problema diferente: um adversário mais ameaçador, fases de menor controlo e a necessidade de resistir sem perder a capacidade de decidir. João Félix marcou nos dois encontros; Gonçalo Ramos fez o golo que resolveu o jogo em Oslo. Os resultados contam, naturalmente. Mas os dois contextos dizem-nos mais do que duas linhas numa tabela: uma ideia só ganha valor quando consegue adaptar-se às dificuldades do jogo.

Seria precipitado confundir estas vitórias com uma obra concluída. Em Oslo, Portugal sofreu e Diogo Costa foi decisivo. Ganhar quando não se domina é uma qualidade; ignorar o que o adversário criou seria um erro. Em setembro, podemos identificar intenções e observar decisões. Ainda não podemos garantir que os mecanismos se tornaram hábitos coletivos.

Jesus encontrou uma base de jogadores com qualidade técnica, experiência internacional e capacidade para interpretar diferentes funções. A abundância, porém, traz um problema que por vezes escondemos atrás da palavra talento. Ter muitas soluções não significa que todas possam jogar ao mesmo tempo, nem que a equipa melhore apenas por juntar os nomes mais fortes. Uma Seleção precisa de critérios: quem oferece largura, quem aproxima por dentro, quem protege a perda, quem define o ritmo e quem garante profundidade. O rendimento coletivo nasce dessas relações.

Nesse ponto, o conhecimento prévio de vários internacionais pode acelerar o processo. Um jogador que conhece a linguagem do treinador compreende mais depressa uma correção ou uma exigência. Mas essa vantagem inicial não pode transformar-se num direito adquirido. O passado em comum facilita a comunicação; o presente deve decidir os lugares. A força de um grupo depende de todos perceberem que a oportunidade está ligada ao que cada um oferece à equipa, e não apenas à familiaridade com quem a orienta.

O caso de Cristiano Ronaldo torna esta questão ainda mais visível. Foi titular frente a Gales e não entrou na Noruega, onde Gonçalo Ramos começou de início e marcou. São opções técnicas com enorme repercussão pública, porque estamos a falar de um jogador único na história do nosso futebol. Precisamente por isso, a gestão exige clareza, respeito e coerência. Não basta afirmar que todos contam. É necessário que os critérios sejam compreendidos dentro do balneário e que as decisões ajudem Portugal a competir melhor, jogo após jogo.

Uma das escolhas mais difíceis para Jesus será definir a quantidade certa de informação. Um treinador de clube pode insistir num pormenor durante semanas. Um selecionador tem de distinguir o essencial do acessório. Se tentar mudar tudo de uma vez, arrisca perder espontaneidade, sobrecarregar jogadores e tornar a equipa dependente de instruções. Se simplificar em excesso, desperdiça a oportunidade de criar uma ideia própria. O equilíbrio estará em fixar poucos princípios fortes, treiná-los bem e acrescentar camadas à medida que o grupo os domina.

Essa identidade também não pode viver apenas na equipa principal. A Seleção é o ponto mais visível de um trabalho que começa muito antes, nos clubes, nas academias e nas seleções jovens. Não defendo que todos os escalões joguem com o mesmo desenho tático. Defendo uma linguagem comum sobre comportamentos, exigência competitiva e características que queremos desenvolver. Quanto melhor for a ligação entre formação, observação e equipa principal, menos tempo se perde a explicar o que poderia já fazer parte do percurso de um internacional.

Há ainda uma dimensão de liderança que costuma receber menos atenção do que o onze inicial. Os jogadores regressam aos clubes entre convocatórias; os que hoje são titulares podem ser suplentes no encontro seguinte; os que ficam de fora precisam de continuar disponíveis. Construir uma equipa nestas condições exige relações sólidas, comunicação individual e um sentido coletivo que resista à distância. O grupo deve saber o que se espera dele mesmo quando não há uma bola a rolar nem uma convocatória anunciada. A autoridade de um selecionador vê-se na preparação, na justiça das escolhas e na capacidade de fazer com que todos reconheçam o projeto como seu.

O objetivo, por isso, não deve ser procurar uma versão rápida das equipas que Jorge Jesus treinou. Portugal tem outra realidade, outros jogadores e outro calendário. A oportunidade está em aproveitar o que o distingue — a exigência sobre cada comportamento, a coragem para decidir e a convicção numa ideia — e ajustá-lo às condições particulares do futebol de seleções. A flexibilidade não enfraquece uma identidade. É o que permite que ela dure quando mudam os adversários e os contextos.

Depois do Mundial de 2026, este ciclo oferece uma pergunta que vai além da próxima convocatória ou da próxima vitória: que Portugal queremos reconhecer em campo quando chegar 2030? Para responder, não basta falar de ambição. Será preciso avaliar os jogos com honestidade, corrigir sem dramatizar e garantir continuidade mesmo quando o entusiasmo inicial encontrar obstáculos. As vitórias sobre Gales e Noruega são um bom começo. A verdadeira prova será transformar sinais em hábitos e hábitos em rendimento nos momentos de maior exigência.

Jorge Jesus não chega a um país que precise de descobrir como produzir grandes jogadores. Chega a uma Seleção que tem de continuar a aprender a transformá-los numa grande equipa. Se conseguir fazê-lo, o seu impacto não ficará reduzido aos resultados desta semana. Estará na capacidade de Portugal entrar em campo com uma ideia clara, defendida por todos e reconhecida por quem a vê jogar.

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