Irlanda ainda não decidiu se vai defrontar Israel no segundo jogo
A seleção da República da Irlanda ainda não tomou uma decisão definitiva sobre a realização do encontro de domingo frente a Israel para a Liga das Nações, agendado para a Sérvia e à porta fechada, num momento em que milhares de adeptos apelam ao boicote e a contestação pública continua a intensificar-se.
A tensão que envolve estes compromissos da Liga das Nações tem gerado enorme agitação na Irlanda, desde que foi realizado o sorteio. Uma petição para travar os jogos reuniu quase 20 mil assinaturas, registaram-se protestos junto ao hotel da comitiva em Dublin e centenas de estabelecimentos comerciais recusaram transmitir o desafio, incluindo cerca de 140 pubs, dispostos a assumir o prejuízo.
Após a vitória irlandesa por 3-0 no primeiro embate disputado na Hungria, o selecionador Heimir Hallgrimsson admitiu que o cenário permanece em aberto: «Não decidimos a 100% o que vamos fazer. Quando chegarmos a casa vamos dar-lhes [aos jogadores] o dia de folga para irem para junto das suas famílias, amigos, e depois regressaremos para preparar o jogo com a Áustria. Esperamos terminar esse encontro e depois teremos uma discussão.»
Apesar da contestação, o presidente da Federação de Futebol da Irlanda (FAI), Paul Cooke, havia reafirmado a intenção de cumprir o calendário e defrontar Israel em Backa Topola, realçando, todavia, que o organismo está a avaliar a situação «um jogo de cada vez».
A federação irlandesa de futebol (FAI) vai justificar perante o Comité do Desporto do Oireachtas (parlamento irlandês) que a controversa decisão de disputar os encontros frente a Israel foi tomada a pensar no melhor para a modalidade no país. O diretor-executivo da FAI, David Courell, e outros responsáveis da estrutura federativa vão responder esta tarde a perguntas de deputados e senadores, numa altura em que a a seleção se prepara para defrontar novamente a seleção israelita este domingo.
O guarda-redes Gavin Bazunu, jogador do Bolton Wanderers, foi o único elemento do plantel da República da Irlanda a recusar oficialmente participar nos jogos contra a seleção israelita, alegando motivos éticos. A tomada de posição do guardião motivou uma longa reunião interna no seio do grupo de trabalho, que culminou numa votação em que a maioria dos atletas optou por ir a jogo na Hungria.
«Sou um homem de fé forte e dou o meu melhor para ser uma pessoa de caráter e princípios», explicou Gavin Bazunu numa mensagem divulgada no Instagram, sublinhando: «A minha decisão baseia-se puramente na minha convicção de que matar pessoas inocentes é errado. É importante notar que a minha posição não é contra o povo israelita ou a comunidade judaica, mas sim contra as atrocidades na região. Há poucas oportunidades na vida em que temos a possibilidade de defender algo maior e acredito convictamente que esta é uma delas.» O guarda-redes deverá, ainda assim, integrar a comitiva para o embate de quinta-feira frente à Áustria, no Aviva Stadium, em Dublin.
Antes do apito inicial na Hungria, o capitão irlandês Dara O'Shea recusou cumprimentar o capitão israelita Manor Solomon durante o sorteio de campo. Depoisl, os jogadores olharam para o chão durante o hino de Israel e envergaram braçadeiras negras «em memória de todas as vidas perdidas no conflito [de Gaza]», num contexto em que mais de 70 mil pessoas já perderam a vida na Palestina segundo o ministério da saúde local controlado pelo Hamas, e depois de Heimir Hallgrimsson ter afirmado anteriormente que a sua equipa estava «a jogar contra o genocídio» face aos ataques de Israel.
As atitudes irlandesas mereceram uma reação dura por parte de Manor Solomon após o apito final: «Disseram disparates durante o jogo, não quero falar sobre eles. Se eu dissesse o que penso, provavelmente seria suspenso por alguns jogos, por isso prefiro não dizer. Claro que eles nos odeiam e nós não gostamos deles. Já estou ansioso pelo próximo jogo contra eles, vai ser completamente diferente. O que fizeram durante o hino? Não me interessam, temos um país dez vezes melhor do que o deles, mais forte, um país fantástico com pessoas incríveis. Eles que façam os truques que quiserem. Somos israelitas e amamos o nosso país. E isso será sempre assim.»
Confrontado com as divergências no balneário, Hallgrimsson reiterou que o grupo se encontra numa posição sem saída favorável: «Tudo o que posso dizer é que acho que estamos todos desconfortáveis, em primeiro lugar. Em segundo lugar, temos opiniões diferentes e devemos permitir que as pessoas tenham opiniões diferentes. Não há uma opinião certa e todas as outras erradas. Temos diferentes jogadores no plantel vindos de origens distintas, pelo que temos de ter o cuidado de garantir que todos têm voz nas nossas decisões. Mas é difícil quando existem decisões diferentes. Tal como na política, alguns partidos simplesmente não conseguem trabalhar juntos, mas tem sido incrível e espero que compreendam os momentos difíceis pelos quais os jogadores passaram e saiam como vencedores, porque querem representar o seu país. Esse é o desejo deles.»
Tensão crescente
No verão, a FAI já tinha tomado a decisão de realizar os seus jogos «em casa» contra Israel em terreno neutro, justificando a medida com «desafios operacionais que poderiam ter impacto na realização do jogo em solo nacional». O primeiro foi no Kosovo, o segundo está marcado para a Sérvia.
Apesar da contestação política, David Courell prepara-se para assumir uma defesa enérgica da posição federativa. «[A decisão] não foi um aval à participação de Israel nem um descarte das opiniões profundamente vincadas em todo o país. Foi uma decisão institucional difícil, tomada no melhor interesse do futebol irlandês como um todo», sustentará o dirigente.
A polémica estendeu-se também ao balneário. O selecionador da República da Irlanda desvalorizou a possibilidade de Gavin Bazunu ser visto como o «bom» e os restantes atletas como os «maus» em Dublin, na sequência da decisão do guarda-redes de não alinhar. «Penso que ambos podem sair vencedores. Obviamente, foi uma decisão corajosa do Gav. Foi difícil para nós e para muitos jogadores, e precisámos de reagir, mas claro que todos apoiam o Gav e não querem que ele se sinta mal com o que fez», referiu o técnico, acrescentando: «Teria sido melhor para mim, como treinador, que a decisão tivesse surgido mais cedo, mas quando me comunicou, explicou que de um dia para o outro tinha mudado de ideias e que não queria jogar. É compreensível. Ninguém é obrigado a jogar pela nossa equipa.»
Este episódio reflete a crescente hostilidade em relação a Israel e surge poucas semanas após 12 países, incluindo o Reino Unido, a França e o Canadá, terem anunciado sanções contra colonatos israelitas ilegais na Cisjordânia ocupada. A 8 de setembro, o Reino Unido avançou com sanções na sequência de relatos sobre cerca de 1.400 ataques cometidos por colonos israelitas este ano.
A realização do desafio decorre sob fortes divergências entre os dois países relativamente à ofensiva militar israelita em Gaza. Em maio de 2024, a Irlanda reconheceu oficialmente o Estado palestiniano — em conjunto com Espanha e Noruega — e, mais tarde nesse ano, associou-se ao processo por genocídio movido pela África do Sul contra Israel no Tribunal Internacional de Justiça. Adicionalmente, o país recusa participar no festival da Eurovisão devido à presença de Israel no concurso, tornou-se a primeira nação da União Europeia a boicotar bens provenientes de colonatos ilegais na Cisjordânia e, em junho, impôs proibições de entrada no território aos ministros israelitas Itamar Ben-Gvir e Bezalel Smotrich.
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