Marc Soler está debaixo de fogo. IMAGO
Marc Soler está debaixo de fogo. IMAGO

Fantasma do 'doping' paira sobre equipa de João Almeida

A suspeita ligação de Marc Soler (UAE Emirates) ao treinador banido Pepe Mart, que Floyd Landis, antigo colega de equipa de Armstrong e uma das principais testemunhas no caso, descreveu em 2011 como «um conhecido traficante de droga», está a abalar o mundo do ciclismo

Um dos principais gregários de Tadej Pogacar na UAE Team Emirates, Marc Soler, está envolvido numa polémica em Espanha devido a contatos com José «Pepe» Martí, um treinador banido por 15 anos na sequência do escândalo de doping de Lance Armstrong. A revelação de que Martí, proibido de trabalhar com atletas, esteve ativo e em contacto com um ciclista chave da equipa de Pogacar, que procura a sua quinta vitória no Tour de France, abalou o mundo do ciclismo, segundo o jornal britânico The Observer.

Apesar do início de época dominante da UAE Team Emirates, a equipa enfrenta agora um problema delicado. A controvérsia adensou-se após a agência antidopagem espanhola (CELAD) ter recebido denúncias anónimas em 2023, indicando que Martí estaria a violar a sua sanção.

Em declarações ao site especializado Escape Collective, Marc Soler negou qualquer relação significativa com o treinador. «Não tenho nada a esconder. Não fiz nada de errado», afirmou o ciclista.

Recorde-se que, em outubro de 2018, o Tribunal Arbitral do Desporto (TAD) aumentou a sanção de Martí de oito para 15 anos pelo seu papel no caso Armstrong. A Agência Antidopagem dos Estados Unidos (USADA) descreveu-o como um dos elementos que «incentivou os ciclistas a envolverem-se num regime de doping coordenado, bem financiado e sofisticado». A investigação da USADA concluiu ainda que Martí transportava substâncias como EPO, testosterona e hormona de crescimento para ciclistas na Europa.

As acusações contra Martí são graves. Floyd Landis, antigo colega de equipa de Armstrong e uma das principais testemunhas no caso, descreveu-o em 2011 ao canal alemão ARD como «nada mais do que um conhecido traficante de droga» que lhe forneceu substâncias ilegais.

Após as denúncias, a CELAD iniciou uma vigilância a Martí. O relatório da investigação revela que, em agosto de 2023, o treinador se encontrou com Marc Soler e o seu pai, Jaume Soler, perto da fronteira com Andorra. Martí terá viajado de Valência, enquanto o pai do ciclista partiu de Barcelona em direção a Andorra, onde Marc Soler reside e treina.

Numa operação com a Guardia Civil, Martí e Jaume Soler foram seguidos e intercetados em Adrall, no norte de Espanha, na posse de equipamento para testes de lactato. Jaume Soler alegou que o equipamento era para seu uso pessoal, afirmando que Martí o treinava como corredor.

O caso ganhou maior dimensão quando Marc Soler, equipado a rigor com as cores da UAE Team Emirates, surgiu na estrada e foi seguido pela Guardia Civil até um segundo e breve encontro com o pai e Martí, onde foi identificado pelas autoridades. Posteriormente, Jaume Soler negou que o seu filho estivesse a trabalhar com o treinador banido.

O desfecho do processo resultou numa sanção para o pai do ciclista. Em outubro do ano passado, Jaume Soler foi proibido pela CELAD de obter qualquer licença desportiva por um período de 18 meses.

Este episódio realça as fragilidades do sistema antidopagem espanhol, há muito criticado. Em janeiro de 2024, a Espanha foi novamente declarada como não cumpridora do código da Agência Mundial Antidopagem (AMA). Witold Bańka, presidente da AMA, expressou a sua desilusão: «Estou dececionado com o nível de cooperação que recebemos da CELAD. O facto de haver casos positivos que não foram tratados atempadamente, apesar da monitorização regular da AMA, é inaceitável».

As críticas levaram a mudanças significativas, com a demissão de Jose Luis Terreros do cargo de diretor da CELAD, entre alegações de «irregularidades». No final de 2024, o antigo nadador Carlos Peralta assumiu o cargo, com a agência a prometer reforçar o seu compromisso na luta contra o doping.

Permanece a incerteza sobre se serão tomadas medidas adicionais contra Martí, ou se está em curso uma investigação mais alargada às suas atividades, tanto no ciclismo como noutras áreas. A especulação aumenta, com rumores de que terá estado presente noutros locais de treino em Espanha, frequentados por alguns dos principais nomes do pelotão.

Contactado pelo The Observer, um porta-voz da UAE Team Emirates, equipa de Pogacar, afirmou que não iria comentar o assunto. «Não existe nenhum caso ou sanção que envolva o Marc, pelo que não faremos comentários sobre notícias especulativas», declarou.

Por sua vez, Travis Tygart, diretor executivo da USADA, garantiu ao The Observer a boa cooperação com as autoridades espanholas. «Temos uma boa relação com a nova liderança da CELAD e temos trabalhado em estreita colaboração com eles, quando necessário, para garantir que as regras que protegem os atletas limpos são aplicadas», afirmou.

Entretanto, a equipa de Pogacar continua a somar vitórias. O seu colega mexicano, Isaac del Toro, destacou-se no início da temporada ao vencer o UAE Tour. Outros ciclistas da equipa também já alcançaram triunfos na Austrália, em Espanha e em Omã, demonstrando que o sucesso da formação se mantém, apesar da controvérsia em torno de Martí.