Rodrigo Mora estreou-se a titular pela Roma frente à Fiorentina (4-0) - foto: IMAGO
Rodrigo Mora estreou-se a titular pela Roma frente à Fiorentina (4-0) - foto: IMAGO

Estava à espera que Villas-Boas e Farioli ficassem tristes pela saída de Mora...

Daqui a dez anos ninguém no Dragão se vai lembrar de Gabri Veiga... Mas todos vão continuar a falar de Rodrigo Mora. Eu sou o Jorge Pessoa e Silva e esta é, aviso já, uma irritada versão das crónicas semanais do Desassossego

Duas semanas por ano isolo-me numa aldeia perdida do Gerês, onde a internet tem dificuldade em chegar. Onde recuso ter televisão. Regresso do isolamento e… um calafrio gélido: Rodrigo Mora está na Roma. Não é a transferência em si que me irrita – vou passar a ver mais jogos da Roma e o FC Porto é livre de fazer os negócios que entender – é o que está subjacente a esta venda: o perfil de Rodrigo Mora não encaixa na forma como Farioli vê o futebol. O resto são justificações, não razões.

Já me enerva isto do perfil. Para mim só há três perfis de jogador: os maus, os bons e os Rodrigos Moras em vias de extinção. Daqui a dez anos ninguém no Dragão se lembrará de Gabri Veiga e todos se lembrarão de Rodrigo Mora. Com Farioli – e muitos outros, reconheço - Messi nunca jogaria pela Argentina, já que não defende e pouco corre.

Dirão alguns: mas Farioli não ganhou o campeonato? Ganhou. E de forma brilhante. E devo até reconhecer que as conquistas de Farioli são decisivas para que o FC Porto conquiste cada vez mais adeptos. Já Rodrigo Mora é decisivo para que o futebol tenha adeptos.

Já desapareceram os 10 puros, que irá acontecer aos mágicos? O que se desenha é o reflexo de uma era: a vitória da geometria sobre o encanto, o sacrifício da arte no altar da função. E ambas são legítimas, mas eu posso preferir a poesia à prosa. Como antevia Jorge Valdano, «o futebol atual é cada vez mais físico, mais rápido e mais tático, correndo o risco de perder a sua essência: o talento individual que apaixona os adeptos.» Um futebol onde o jogador virtuoso é muitas vezes visto como uma excentricidade inconsequente, cujas pausas perturbam o ritmo da máquina. Exige-se-lhe que defenda como um operário e corra como um atleta de pista, sacrificando-se a magia ao dados do GPS.

Dito isto, reconheço que houve muito exagero nas críticas e acusações a Farioli pela saída de Mora. O treinador, filho de boa gente, sentiu-se. Mas nem ele nem André Villas-Boas podem estranhar o ruído que esta transferência causou. A mim até me surpreendeu não os ver tão tristes quanto eu por partir um menino formado no Dragão, idolatrado pelos adeptos e com magia nos pés. Por muito que não houvesse nada a fazer, ao menos que se mostrassem pesarosos. Em vez disso, estão zangados com o nosso lamento e agarram-se à excelência financeira do negócio.

Pergunto: se Rodrigo Mora fosse titular indiscutível e estivesse a partir a louça toda, 50 milhões de euros seria considerado um fabuloso negócio? É porque até por aí é preciso ter cuidado, já que o valor é tão mais alto ou mais baixo quanto a forma como valorizamos um ativo. Quanto mais se elogiar o valor da venda mais se diz que o valor do ativo não era assim tão alto. E se fosse Diogo Costa? O FC Porto aceitaria fazer um negócio pelo mesmo valor e pelos mesmos moldes? Receberia apenas 25 milhões agora e o restante em 2027 e 2028? Não, porque valoriza Diogo Costa mais que Mora. E isso não tem mal. Deve é ser assumido.

Assumo o risco de ser injusto e estar a ver mal as cosias, será por estar irritado. Não com o FC Porto, não com Farioli – vão continuar a ganhar sem Mora - mas com uma forma de ver o futebol que sacrifica e não dá tempo aos mágicos. Um desabafo na certeza que a memória das bancadas pertencerá sempre aos poetas.

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