Boa fama. Boa imprensa
Há uma vantagem extraordinária em ter boa fama, boa imprensa, ou lá o que seja, no futebol português. Chega uma altura em que já nem é preciso fazer muito. Às vezes, nem é preciso fazer nada. As boas notícias aparecem na mesma.
O Sporting planeia bem. O FC Porto sabe vender. O Benfica gasta demasiado. São verdades que se instalaram e ganharam uma resistência aos factos que muitos clubes gostariam que as suas defesas tivessem.
Talvez por isso tenha acompanhado com particular interesse o caso de Rodrigo Mora.
Há poucos meses, Mora era o menino bonito do Dragão. E com razão. Aos 19 anos, mostrava um talento raro, daqueles que fazem um adepto querer desfrutar do jogador antes de começar a fazer contas à transferência.
Farioli chegou e Mora foi perdendo espaço até ser empurrado para fora do clube.
Vinte e cinco milhões de euros.
Há mais dois em objetivos e uma parte do passe que poderá ser vendida no futuro. Entretanto, o negócio já chegou aos 50 milhões em alguns relatos. O dinheiro ainda não chegou à conta do FC Porto, mas já chegou às manchetes.
Pode chegar um dia. Se chegar, cá estaremos para reconhecer que André Villas-Boas fez um negócio de 50 milhões. Por enquanto, vendeu por 25 o jogador que, há uns meses, provavelmente nenhum portista aceitaria vender por esse preço.
O mais curioso é que quase desapareceu da discussão a razão pela qual Mora está a ser vendido.
Farioli tem uma ideia de futebol muito clara. Quer intensidade e confronto físico. Gosta de uma equipa agressiva, por vezes no limite, e tem encontrado em Portugal uma arbitragem bastante tolerante com essa forma de jogar. Mora oferecia-lhe sobretudo talento. Pelos vistos, não chegou.
Não discuto o direito do técnico a escolher. Custa-me mais perceber a facilidade com que um clube como o FC Porto prescinde do seu jogador mais virtuoso porque o treinador não encontrou maneira de o aproveitar.
Troquem apenas a camisola.
Imaginem que o maior talento do Seixal fazia uma grande época, chegava um treinador novo, deixava de jogar e, meses depois, Rui Costa o vendia por 25 milhões.
Nem era preciso convocar o painel de comentadores.
Sabemos todos o que seria dito.
No Dragão, a reputação protege o negócio. O FC Porto vende bem. Logo, se vendeu, vendeu bem.
Se passarmos das vendas para as compras, André Villas-Boas continua à procura de um avançado. Tem tentado Santiago Giménez, mas ainda não convenceu o Milan, e aproxima-se do fim do mercado sem resolver uma das principais lacunas do plantel.
Normal.
E é mesmo normal. O mercado ainda está aberto. Só não me lembro de esta normalidade ser tão normal quando o Benfica chega a agosto à procura de um jogador.
Em Alvalade vive-se um fenómeno parecido. Durante tanto tempo se repetiu que o Sporting era o clube mais bem planeado do país que a frase ganhou vida própria.
Rui Borges já avisou que não devemos esperar o futebol dos últimos anos. Talvez seja sensato. Sobretudo depois de o Sporting ter vendido alguns dos seus jogadores de maior qualidade e colocado outros fora das contas.
Pote não tem entrado nas convocatórias. Daniel Bragança treina sozinho. Ioannidis voltou a lesionar-se e Luis Suárez, não obstante tudo o que tem acontecido, voltou rapidamente a ser a primeira e praticamente única opção para o ataque.
Nada disto transforma o Sporting num clube mal gerido. Mas talvez devesse acabar com a ideia de que há clubes que planeiam e outros improvisam.
O Benfica também tem a sua fama. Só que essa funciona ao contrário.
Nos últimos dias, Palhinha conseguiu custar 35 milhões de euros antes sequer de ser jogador do Benfica. Para chegar ao número foi preciso pegar no preço da transferência e acrescentar os salários que receberá durante o contrato.
A conta não está errada.
Só gostava que fosse feita mais vezes.
Se passámos a contabilizar transferências desta maneira, Zalazar aproxima-se dos 60 milhões de euros de investimento do Sporting.
Sessenta milhões por Zalazar.
Nunca leram esse número associado à contratação? Eu também não.
Podíamos fazer exercícios semelhantes com Samu no FC Porto, mas não vale a pena abusar da calculadora. Já percebemos como funciona.
Ou talvez não. Porque com Mora a calculadora muda de direção. Para o jogador que pode chegar ao Benfica antecipamos despesas futuras. Para o jogador que sai do Porto antecipamos receitas futuras.
Não é contabilidade criativa. É reputação aplicada à matemática.
Mas voltemos à boa reputação e, sendo assim, a Farioli.
Fala inglês nas conferências de imprensa e ninguém parece particularmente incomodado.
Ainda bem.
Roger Schmidt fazia o mesmo e chegou a assistir ao boicote de jornalistas portugueses por não responder em português. Foi um dos episódios profundamente lamentáveis dos últimos anos no futebol português.
Pelos vistos, passou.
Farioli ainda não começou a aprender a língua. Mas, pelos vistos, tem estudado a história do futebol português. Recentemente, com alguma ironia, resolveu falar do caso Calabote.
É uma escolha interessante para quem acabou de chegar.
Espero que continue a estudar.
Quando chegar aos anos 2000, vai encontrar matéria bem mais recente: Apito Dourado.