Diretor da Euroliga fala sobre junção com a NBA Europa
O espanhol Chus Bueno alcançou tudo no basquetebol. Foi jogador da Liga ACB, secretário da associação de jogadores (ABP), diretor executivo da Federação Espanhola, vice-presidente da NBA para a Europa, África e Médio Oriente, diretor do setor de basquetebol na DAZN, e mais recentemente colaborou com fundos de investimento ligados ao desporto. Tudo isto tornou-o ma pessoa ideal para gerir o momento existencial que a Euroliga atravessa, que o nomeou há um mês como o seu novo diretor executivo quando a NBA ameaça a principal competição continental de clubes com a criação da NBA Europa.
Em entrevista ao diário Mundo Deportivo, Bueno destacou o motivo pelo qual aceitou o desafio de ser diretor da Euroliga. «Este é um momento muito interessante. Vi-o como uma enorme oportunidade. Como diz, estou presente há mais de 30 anos, e quando os clubes e os caça-talentos me convidaram para ajudar neste momento, sinceramente, para alguém apaixonado por basquetebol, era o que os americanos chamam de trabalho de paixão e não quis perder a oportunidade. Conhecia o desafio, conhecia a oportunidade, porque o momento é complexo, mas estou muito feliz.»
No que diz respeito à colaboração entre a NBA e a Euroliga, Bueno, de 56 anos, salientou que estão abertos à cooperação, mas que não há pressa em relação a um acordo com a nova liga, que se espera que venha a tornar-se a sua maior concorrente.
«Permitam-me dar um passo atrás. Como sabem, tenho uma excelente relação com a NBA e muitos dos seus dirigentes, incluindo Adam Silver (commissioner) e Mark Tatum (deputy commissioner). Eles abriram o que se chama de data room, um dossiê onde explicam o projeto a partes interessadas selecionadas. Este processo termina a 26 ou 27 de março, e depois apresentarão as conclusões ao seu Conselho de Administração [Board of Governors]. Por enquanto, temos de mostrar respeito, esperar e ver como o mercado responderá ao que querem fazer e qual o seu valor. Acordámos com a NBA que vamos esperar e depois sentar-nos juntos. Como disseram, teriam todo o gosto em conversar com a Euroliga e ver se há um terreno comum.», contou.
E, na opinião do espanhol, natural de Barcelona, existem apenas dois desfechos. «Existem dois cenários. Se a NBA angariar os 5 mil milhões de euros que procura, seriam excelentes notícias para o basquetebol. O basquetebol europeu nunca teve esse nível de investimento. Teríamos então de nos sentar e perguntar: como podemos maximizar isto juntos? Temos de estar bem posicionados para ter essa conversa. Se a NBA angariar o dinheiro, isso não significa necessariamente que irão sozinhos. Sabem que é mais fácil fazê-lo em conjunto. Um dos problemas do basquetebol tem sido a monetização. O mercado está demasiado fragmentado, demasiadas competições, demasiados intervenientes, o que dilui o valor e dificulta a monetização de adeptos, patrocínios e direitos televisivos», começa por especificar.
«Se a NBA entrar sozinha, isso fragmentaria ainda mais as coisas. Um ecossistema unificado geraria maior valor. Se a NBA não angariar capital e decidir fazer uma pausa, então a Euroliga terá de avançar com o seu próprio plano, que já apresentámos como uma estratégia de três anos», completa.
Assim, para Bueno, «O desfecho mais lógico seria uma competição conjunta com a NBA». «Ter duas competições de alto nível dividiria o mercado e diminuiria a qualidade geral. Isso não ajudaria ninguém. O melhor é fazê-lo em conjunto, mesmo que ambas as partes tenham de fazer compromissos».
Mas tendo a Euroliga 13 clubes acionistas, qualquer acordo teria de os incluir a todos? «Sim, qualquer acordo teria de incluir todos os 13 clubes. Além disso, a valorização e os retornos para cada um poderiam variar».
Questionado então se a Euroliga é um excelente produto, qual é a razão porque ainda não foi totalmente monetizada? «Devido à fragmentação: demasiadas competições e partes interessadas reduzem o valor total. A NBA é apenas uma liga; aqui temos dezenas de ligas nacionais e múltiplas competições europeias. Precisamos de um alinhamento em torno de uma pirâmide e um ecossistema claros», justifica Chus Bueno.
E então por que razão grandes investimentos estão agora a chegar? «Porque os fundos de investimento estão a entrar no desporto. Já investiram na NBA, NFL e futebol. O próximo passo natural na Europa é o basquetebol. Em pouco mais de um mês na Euroliga, conversámos com mais de 25 fundos interessados em investir, com ou sem a NBA», revela. «Existem diferentes modelos: partilha de receitas, compra de participações em clubes, investimento em infraestruturas. Alguns acordos incluem participação no EBITDA (lucros antes de juros, impostos e amortizações); outros incluem participações acionárias ou até mesmo investimento em pavilhões e retenção de receitas das mesmas.»
Falou em gerar mais receita através dos pavilhões e até em oferecer linhas de crédito aos clubes para a sua construção ou renovação. Isso é mesmo possível? «Sim, essa é uma das iniciativas-chave que identificámos. Ajuda o crescimento orgânico. Queremos ajudar os clubes a financiar a modernização. Estimámos que seriam necessários cerca de mil milhões de euros, e em uma semana, quatro fundos estavam prontos para os fornecer. O valor de um clube depende do que possui. A licença dura dez anos, mas o que acontece no décimo primeiro ano? Se for uma franquia, o seu valor é muito maior. Isso proporciona certeza para investimentos a longo prazo, especialmente em infraestruturas, e aumenta o valor total da empresa», explicou o ex-base, que começou a carreira no Barcelona, onde cresceu para o basquetebol, e depois passou por seis clubes até terminar no pequeno Mollet da sua cidade natal.
O jornalista quis então saber se clubes como o Barça ou o Real Madrid precisam de se tornar corporações para aceder a esse financiamento? «Não necessariamente. Ambos financiaram-se sem se tornarem corporações, utilizando estruturas alternativas. Cada clube tem de decidir o que está em conformidade com os seus membros. Na Alemanha, muitos clubes seguem o modelo 51%-49%, onde os membros mantêm o controlo, mas os investidores participam», diz sobre a grane questão que tem rodeado os dois gigantes do basquetebol espanhol e europeu e que, por enquanto, afastaram-se do ingresso inicial da NBA Europa.
A Euroliga está a considerar dividir as equipas em dois grupos para gerir o calendário e permitir a expansão? «Estamos a avaliar se devemos manter 20 equipas ou expandir para 22, com a possibilidade de transitar para conferências. Esta decisão será tomada em breve. A longo prazo, 24 ou mesmo 30 equipas poderiam fazer sentido. Cada vez mais clubes fortes querem juntar-se», conta um pouco em contraciclo dos rumores que têm circulado com a hipótese da NBA Europa se tornar uma realidade e o primeiro reflexo ser o quase desaparecimento comercial da EuroCup.
O projeto da NBA inclui lugares baseados no mérito desportivo através dos campeonatos nacionais, a Euroliga também consideraria isso? «Sim, estamos abertos a considerar isso. Se crescermos, gostaríamos de explorar uma abordagem não só através da EuroCup, mas também através das ligas nacionais.
No final, esta batalha prejudicará o basquetebol europeu ou irá fortalecê-lo? «Estamos muito otimistas. Um banco de investimento avaliou a Euroliga em 1,2 mil milhões de euros, com franquias avaliadas entre 50 e 80 milhões de euros. Isso demonstra uma saúde robusta. A Euroliga é uma super-marca que agora está a ser devidamente valorizada. Se novas franquias se juntarem, os clubes poderiam obter receitas significativas, potencialmente mais de 100 milhões de euros cada em três anos. E os seus valores a longo prazo cresceriam ainda mais. A Euroliga tem um plano sólido e um potencial real», concluiu o novo líder da Euroliga.