Gianni Infantino com Fernando Gomes. Ex-presidente da FPF foi determinante no apoio da chegada do ítalo-suíço à liderança da FIFA em 2016. Foto André Alves
Gianni Infantino com Fernando Gomes. Ex-presidente da FPF foi determinante no apoio da chegada do ítalo-suíço à liderança da FIFA em 2016. Foto André Alves

Dez anos de Infantino na FIFA: conquistas, polémicas e um dedo português

Cumpre-se esta quinta-feira uma década sobre a primeira eleição do dirigente de 55 anos como presidente da FIFA. O balanço faz-se de conquistas, mas também de polémicas. Com dedo português em tudo isto

Gianni Infantino foi eleito presidente da FIFA a 26 de fevereiro de 2016. A organização vinha do FIFA-gate, com investigações criminais a dirigentes e as mediáticas suspensões de Joseph Blatter (ex-presidente) e Michel Platini (ex-presidente da UEFA e ex-consultor da FIFA). Parte dos casos que envolviam estes dois dirigentes de topo seria mais tarde arquivada ou anulada, mas os danos reputacionais estavam na ordem do dia.

O topo da pirâmide do futebol mundial foi associado a suspeitas de corrupção e problemas com a justiça. A mensagem de partida de Gianni Infantino, ítalo-suíço hoje à beira de completar 56 anos, foi a de recentrar a atenção da FIFA no futebol e reconstruir confiança: reformas de governação, controlo financeiro e uma redistribuição mais visível das receitas para as federações.

O pilar português

A candidatura de Infantino teve, em 2016, apoio estrutural de assinatura portuguesa. Tiago Craveiro, então dirigente da FPF, e Onofre Costa (mais tarde diretor de comunicação da FIFA), trabalharam diretamente na task force que organizou o ciclo eleitoral decisivo.

Ao lado deste suporte operacional, houve outros apoios de peso a partir de Portugal: Luís Figo — que retirara uma candidatura própria em 21 de maio de 2015, ainda frente a Blatter — e José Mourinho são dois exemplos. A Federação Portuguesa de Futebol, então liderada por Fernando Gomes, manifestou igualmente a vontade de que o então secretário-geral da UEFA se tornasse o novo líder da FIFA.

Marcos da gestão

O grande eixo da gestão de Infantino, desde que assumiu a liderança, foi a expansão do futebol através de programas a nível mundial, que implicaram investimentos avultados.

De acordo com a FIFA, o programa FIFA Forward, por exemplo, canalizou mais de 5 mil milhões de dólares (4,2 milhões de euros) para desenvolvimento do futebol, com apoio a custos operacionais, infraestruturas (relvados, centros técnicos), competições e logística de seleções em países com menos recursos.

Houve muita evolução no futebol. Desde logo, a confiança na FIFA foi reconstruída. O próprio futebol — as regras — e também o surgimento de novos eventos, como o Mundial de Clubes. Isso implicou também uma relação entre a ECA (Associação Europeia de Clubes) e a FIFA. Mudou muita coisa, incluindo os formatos das competições: mais equipas, 48 seleções no Campeonato do Mundo. No fundo, com o presidente Gianni, desde que chegou, houve uma evolução enorme no futebol. E é graças a ele que a FIFA está hoje onde está — Nasser Al-Khelaifi, presidente do PSG

Noutro âmbito, a instituição lançou o Talent Development Scheme, liderado pelo consagrado treinador francês Arsène Wenger, com a meta de criar 75 academias de talentos até ao fim de 2027.

No plano das competições, Infantino consolidou o Mundial masculino com 48 seleções, que terá a estreia nos Estados Unidos, México e Canadá em 2026.

Agora, sim, há verdadeiramente uma competição de clubes da FIFA. Quem a ganha é a melhor equipa do mundo. Neste caso, foi o Chelsea a vencer a primeira edição, fazendo um grande torneio e batendo o PSG — campeão europeu em título — de forma bastante convincente na final. Diria, portanto, que estamos perante um patamar diferente de qualidade e estou convencido de que, gradualmente, a competição será aceite pelo grande público. O que FIFA deu aos clubes é, para mim, uma sensação à escala mundial. Antes existia a chamada Taça das Confederações, disputada por seleções no país anfitrião, um ano antes do Campeonato do Mundo. Essa prova foi abandonada em favor de uma competição de clubes — Karl-Heinz Rummenigge, presidente honorário da Associação Europeia de Clubes

No futebol jovem os Mundiais de sub-17 masculino e feminino passaram a ser realizados anualmente e o último masculino, no Qatar, já teve a participação de 48 seleções.

No futebol feminino, a FIFA reforçou investimento e ambição: Mundial a 32 equipas em 2023 e com 48 a partir de 2031, prémios recorde (152 milhões de dólares em 2023) e novas competições: Mundial de Clubes feminino, Champions Cup e Mundial de futsal feminino.

O apoio à aplicação da tecnologia para suporte da arbitragem, as medidas tomadas durante a crise pandémica do Covid-19 e a reforma do sistema de transferências, com o FIFA Clearing House, são outros pontos positivos assinalados pela instituição nestes anos.

Qatar, Arábia, Trump e 'realpolitik'

O reverso desta medalha foi uma década com ruído ético constante. O Mundial do Qatar 2022 (decidido antes do mandato de Infantino, assinale-se) manteve a FIFA no centro do debate sobre direitos humanos, trabalho migrante e direitos LGBTQ+.

A expansão do calendário — incluindo um Mundial de Clubes inovador e com muito maior sobrecarga de jogos — alimentou tensão com ligas e sindicatos, numa luta que mistura (e vai continuar a misturar) saúde de atletas e interesses comerciais.

O nosso objetivo é ter 100 academias FIFA em 100 países diferentes, o que dá bem a noção do impacto que isto terá à escala mundial. Vai mudar o Mundo. E estou igualmente convencido de que a realização anual do Mundial de sub-15 e do Mundial de sub-17 vai mudar o futebol no Mundo. E vai mudar o Mundo, acreditem. Trata-se de um passo muito positivo — e muito foi feito nos últimos 10 anos para ajudar países que estavam atrás da Europa a desenvolver o seu potencial — Arsène Wenger, diretor de desenvolvimento global da FIFA

A relação com Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, tornou-se outro foco de escrutínio, sobretudo por coincidir com o ciclo dos torneios nos EUA (o já referido Mundial de Clubes 2025 e o próximo Mundial 2026).

Infantino multiplicou aparições e iniciativas conjuntas com a Casa Branca e isso nem sempre foi especialmente bem visto pelas federações filiadas na FIFA.

O momento mais controverso surgiu em dezembro de 2025, quando a FIFA criou — e atribuiu a Trump — o primeiro FIFA Peace Prize – Football Unites the World, numa cerimónia ligada ao sorteio do Mundial-2026. Este momento surgiu na sequência da não atribuição do Prémio Nobel da Paz a Trump e o gesto foi interpretado como politização e tentativa de colar a FIFA à narrativa do líder dos EUA.

Last but not least, existe ainda a polémica da atribuição da organização do Mundial de 2034 à Arábia Saudita, confirmada apesar de sérias preocupações com o respeito pelos direitos humanos em vigor naquele país, que apesar de tudo (e provavelmente por ter, acima de todos, Cristiano Ronaldo) tem conseguido uma centralidade notável na geografia futebolística mundial.