Técnico do Benfica frisa que não aceita «mediocridade», mas destaca apreço pelos jogadores que comanda

«Pessoas dúbias» e «areia para os olhos»: o discurso completo de Mourinho

Treinador do Benfica fez a antevisão do clássico com o FC Porto com palavras para dentro e para fora

— Como está a equipa do Benfica antes do clássico?

Não queríamos ter tido estes dias para trabalhar, obviamente que queríamos ter jogado no sábado, mas em função da eliminação da Taça da Liga tivemos este período de tempo para treinar. Penso que o utilizámos bem. Treinámos bem, pudemos pensar no jogo com o FC Porto.

— Que versão do FC Porto espera encontrar, tendo em conta que é prova a eliminar?

— O facto de ser um jogo a eliminar e de obrigar a que haja um vencedor eventualmente terá nuances diferentes daquilo que é um jogo de campeonato, principalmente no momento em que nós nos encontrávamos e o FC Porto se encontrava quando nós jogámos no Dragão, onde a vitória das duas equipas era obviamente importante, mas a não derrota de nenhuma das duas equipas também era importante. Neste caso o empate não serve a nenhuma das duas equipas, o que eventualmente poderá proporcionar um jogo diferente. Acho que o FC Porto é uma equipa que na pré-época e no campeonato entra com um perfil de jogo e com um perfil de jogador também. Não me parece que seja uma entrada, uma saída, uma alteração, uma decisão do treinador de poder mudar A por B, não me parece que seja por aí que haja uma alteração daquilo que eles são enquanto equipa e é tão fácil, com base em dados, números, em percentagens, é tão fácil de analisar o FC Porto. Acho que mesmo para leigo ou mesmo aquele que pensa que sabe muito de futebol, mas no final não sabe. Basta agarrar só os números que é muito fácil de perceber a equipa que eles são. 

— Como é que correu o diálogo com a equipa? Sente que o plantel está consigo?

— Vou começar por dizer que o diálogo correu muito bem, mas vou-lhe também dizer que eu não consigo ser aquilo que vocês querem que eu seja. Não consigo, e quando digo vocês não estou especificamente a falar de si, estou a falar mais para o seu mundo e inclusive daqueles que não são seus colegas porque não são jornalistas mas têm opinião. Eu não consigo ser aquilo que vocês querem que eu seja, nem como homem, nem como treinador. Eu não consigo jogar mal e dizer que joguei bem. Eu não consigo aceitar a mediocridade, nem dos outros, nem da minha parte. Cheguei onde cheguei a ser Mourinho e vou ser Mourinho até ao fim. Não me parece que essas críticas que deram origem a uma telenovela sem fim… não me parece que tenha sido exatamente assim. E, honestamente, esquecendo-se rapidamente que no dia anterior eu tinha dito que gostava muito de ganhar a competição não por mim, mas por adeptos e por um grupo fantástico de jogadores. É um grupo, do ponto de vista humano, fantástico. Eu amo aqueles gajos. Agora, não consigo ser diferente. Não consigo atirar a areia para os olhos das pessoas. Não consigo dizer que a minha equipa jogou muito bem quando a minha equipa jogou muito mal. Não consigo. A relação que eu tenho com os meus jogadores atuais e a relação que eu tive em mais de duas décadas de futebol com os meus jogadores e com os meus grupos… é das coisas mais bonitas que eu tenho na minha carreira. Graças a Deus que não estou a falar de 100% dos meus jogadores ou dos meus ex-jogadores, graças a Deus, porque alguma coisa estaria errada, mas eu ter jovens jogadores de 22 e 23 anos e que me contactam frequentemente para coisas de carreira e para coisas pessoais, eu ter ex-jogadores com 45, 50, 55 anos, que têm exatamente o mesmo tipo de relação comigo… é das coisas mais bonitas da minha carreira. E, hoje em dia, trabalha-se muito ao nível da perceção, trabalha-se muito ao nível dos ‘haters’, trabalha-se muito de pessoas dúbias, porque algumas pessoas trabalham para concorrentes e são pagos para fazer um determinado tipo de trabalho e depois chegam à televisão e fazem um trabalho que deveria ser incompatível com a outra atividade profissional que têm. Eu não tenho isso a meu favor, tenho isso contra, mas não consigo ser diferente. Eu cheguei onde cheguei sendo sempre quem sou e como sou. Os meus jogadores, na sua maioria, gostam de mim. E estou a falar de centenas e centenas de jogadores. Eu sou capaz de dizer a um jogador 'tu não jogaste nada', sou capaz de criticar publicamente, mas também sou capaz de fazer aquilo que fiz com o Dahl. Quando quiseram matar o Dahl pela assistência que fez ao Patrick Schick com o Leverkusen, eu saí 2 minutos depois a dizer que no Dahl não se tocava, que no domingo era Dahl e mais 10. Podem levar as coisas para o lado que quiserem, eu sou quem sou, não vou mudar e vou ser assim até ao fim. Cheguei aqui pelo meu próprio pé, sabem onde cheguei. Como jogadores Ronaldo, Sr. Eusébio e Figo chegaram onde chegaram, como treinador só um em Portugal é que chegou. Eu não vou mudar, sinto muito.

— Com o SC Braga, Sudakov não conseguiu acompanhar Zalazar, poderá lançar do lado esquerdo um jogador mais sólido defensivamente?

— Os erros pagam-se, os erros individuais pagam-se. Eu tenho mais facilidade ou menos facilidade em aceitar determinado tipo de perfil de erro individual. Obviamente que o golo do Zalazar tem um mérito incrível do próprio Zalazar, mas tem um demérito enorme nosso. E é o tipo de erro que com outro jogador, com outra história, com outra experiência, com outra formação, eu teria mais dificuldade em aceitar do que aquilo que tive. E também no momento em que se fala de Sudakov, das dificuldades ao nível físico, das dificuldades porque não teve a pausa invernal que está habituado a ter. Eu digo que o contexto em que ele cresceu, o contexto em que ele viveu, não é propriamente um contexto de uma altíssima competição e de um altíssimo nível de responsabilidade. Ele veio do campeonato ucraniano, numa Ucrânia a viver um momento que vocês conhecem, onde eventualmente também o processo de treino é de enormes dificuldades. Não quero nem pensar em ter uma pessoa que eu amo num cenário de guerra, a não saber qual pode ser o seu último dia, a não saber se amanhã vou voltar a falar com eles. Não posso imaginar o que é que isso tem também de influência num jovem jogador e o Sudakov da minha parte tem apoio. Obviamente que tem crítica, mas também tem apoio. Obviamente que não lhe vou dizer, «olha, fizeste bem, deixaram o Zalazar ir ali e rebentar com tudo’. Mas também não o posso crucificar por uma situação que tem atenuantes. Se temos de pôr ali alguém que tenha outro tipo de responsabilidade defensiva? Se calhar sim, mas se calhar temos de pôr ali alguém que possa fazer pensar o Alberto Costa, o Pepê, o Martim [Fernandes]: ‘cuidado que este pode lixar-me’. Portanto, é um bocadinho por um lado ou por outro, agora reconheço que apergunta faz sentido.

— Quem jogará no lugar de Otamendi? Qual é a situação clínica de António Silva?

— Ou António ou Gonçalo Oliveira. A situação [de António Silva] não está perfeita, não posso garantir agora que o António vai jogar, mas também não quero arriscar mentir-lhe e dizer que o António não vai jogar. Aquilo que posso dizer, apesar de nós nunca darmos a lista de convocados... António e Gonçalo estaão convocados, assim como o Tomás Araújo e o João Fonseca. Exatamente a pensar que eventualmente o António pode não jogar e ter de jogar o Gonçalo e termos o Fonseca como protecção. Portanto, não é uma situação que está clara.»

— Que implicações é que o jogo pode ter no resto da época, tendo em conta a situação do Benfica nas outras provas? 

— Uma vitória significa que jogaremos a meia-final e uma derrota significa que o FC Porto joga a meia-final e que nós ficamos de fora. Se ganharmos e estivermos na meia-final regressamos a casa com felicidade e depois no primeiro dia de trabalho regressaremos com um sorriso. Se perdermos regressaremos com a mesma cara fechada com que temos estado nos últimos dias, mas com a mesma disponibilidade para preparar o jogo do Rio Ave. Com o mesmo profissionalismo e com a mesma atitude com que fizemos este período, um nível obviamente de tristeza versus alegria… obviamente a alegria foi pouca coisa.