Armando Evangelista recorda passagem pelo Damac

«A Arábia Saudita não é só um campeonato de cifrões»

Armando Evangelista recorda a recente experiência no Médio Oriente em entrevista a A BOLA, sem esquecer a desavença com Sérgio Conceição e os sucessos de Jorge Jesus, Cristiano Ronaldo e João Félix

Armando Evangelista deixou o Damac em fevereiro, colocando ponto final no primeiro desafio pelo futebol saudita. Em entrevista a A BOLA, o treinador português de 52 anos passou em revista a experiência na Arábia, desde os duelos com Jorge Jesus, Cristiano Ronaldo e João Félix, ao episódio com Sérgio Conceição, não fechando a porta a um regresso a um campeonato que não atrai só pelo dinheiro.

— Deixou o Damac em fevereiro. O que tem feito desde então?

— A minha vida passa pelo futebol, pela família. Quando não estou no futebol, procuro dar mais atenção à família, estar mais tempo com as minhas filhas, porque no tempo de atividade, sobretudo fora do país, o tempo é muito restrito. O futebol nunca é posto de parte, mas a prioridade neste momento é a família, manter-me atualizado e fazer uma análise da carreira, dos erros que cometemos e do que fizemos bem feito.

— Afirmou que chegou a recusar propostas para poder trabalhar na Arábia Saudita, entretanto saiu do Damac alegando divergências. Que divergências? 

— Sim, recusei. Tenho muito presente o que quero para a minha carreira e para a minha vida. Foi uma experiência fantástica, fez-me crescer enquanto treinador e homem. Um contexto difícil, porque a Arábia tem crescido muito, tem atraído muitos treinadores e jogadores de nome, tem tido um investimento muito elevado, mas ainda tem um percurso longo para percorrer. Sabia das dificuldades, mas não podemos perder a essência do treinador, do homem. E foi o que aconteceu. O objetivo do Damac era claro, lutar pela manutenção, era o que estávamos a fazer. Porque existe uma diferença muito grande entre os clubes na Arábia que lutam pelo título e os que lutam pela manutenção. Diferença abismal, em termos de orçamentos e infraestruturas. Era mais um entrave. O desgaste vem quando perdes algumas vezes. O desgaste emocional e a pressão começam a desgastar determinadas relações. Mas estávamos dentro do objetivo. Dentro do que se pretendia fazer e foi acordado, havia divergências. E eu estou na disposição de ceder, até certo ponto. Chegou uma altura em que não havia mais cedências a fazer. E quando assim é, é preferível cada um continuar a sua vida. E o futebol continua.

Armando Evangelista em entrevista a A BOLA - Foto: Maycon Quiozini
Armando Evangelista em entrevista a A BOLA - Foto: Maycon Quiozini

— Tratou-se de uma interferência no seu trabalho?

— Prendeu-se mais com os mercados. Tivemos muitas dificuldades na parte inicial. Fizemos estágio de pré-época na Turquia, que tivemos de adiar duas vezes porque não havia jogadores. Fomos com sete profissionais e miúdos da formação, os jogadores foram chegando a conta-gotas. Os jogadores eram contratados por necessidade de querer dar uma imagem diferente para fora, fomos construindo um plantel fugindo ao planeamento inicialmente proposto, sempre com a promessa de que na segunda janela as coisas iriam mudar, mas nada mudou ou mudou muito pouco. Quando deixo de estar confortável é preferível regressar e esperar pelo próximo projeto.

— Antes de ir, falou com algum treinador português a pedir informações sobre a Arábia Saudita? 

— Sim, falei praticamente com eles todos. Com o Zé Gomes, com o [Jorge] Mendonça, o Pedro Emanuel. Pessoal que conhecia muito bem aquela realidade, ajuda sempre na planificação. Ajuda a adaptar-nos o mais rápido possível à realidade que vamos encontrar (…) Esta preparação ajuda-nos a ter mais sucesso, a integrar-nos mais facilmente e a compreender o contexto.

Sérgio Conceição pegou numa frase minha antes do jogo e transportou-a para o final, fora de contexto. Tudo normal depois dos jogos, a pressão de jogos e de resultados. Nada que não esteja resolvido

— Há algum motivo, além do financeiro, para um treinador português querer ir para a Arábia Saudita?

— Acho que sim. Não vou negar que é importante essa parte, mas é apelativo até pela aprendizagem. Quem vamos encontrar na Arábia Saudita? Jorge Jesus. Inzaghi. Os treinadores que lá estão são treinadores com quem podemos aprender. Vamos montar uma equipa em termos táticos, estratégicos, para defrontar treinadores com o potencial que já demonstraram na Europa. Isso enriquece qualquer treinador. Quando vamos defrontar equipas com jogadores como Cristiano Ronaldo, Félix ou Benzema, Retegui, isso coloca-nos desafios, que nos fazem crescer. Hoje em dia o campeonato saudita não é só um campeonato de cifrões, é um campeonato também de oportunidades de crescimento, enquanto treinador.

— Teve a oportunidade de cruzar-se com Sérgio Conceição e em janeiro teve eco em Portugal a troca de palavras entre os dois. Quero contar-nos esse episódio?

— São coisas que os resultados, a quente, trazem. Defrontei o Sérgio, o resultado final não foi ao encontro das expectativas, nem dele nem minhas, foi um empate, e, a quente, o Sérgio teve a infelicidade de dizer coisas que não correspondiam plenamente àquilo que se passou. Ele achou que o Damac tinha perdido tempo desnecessário, o tal antijogo, e disse que eu tinha assumido. Eu não assumi. Ele pegou numa frase minha antes do jogo e transportou-a para o final, fora de contexto. Tudo normal depois dos jogos, a pressão de jogos e resultados. Nada que não esteja resolvido.

Em relação a este período na Arábia Saudita, foi um choque cultural?

— Inicialmente sim, mas não tanto como esperava, pensava encontrar algo muito diferente. Hoje a Arábia Saudita está com um espírito de abertura. Em termos culturais vai demorar o seu tempo, mas os árabes estão a fazer um esforço grande por se aproximarem das tradições europeias. Gostei de viver na Arábia Saudita. Foi uma descoberta. E não é um país tão fechado quanto pensava. Nas grandes cidades, Riade, Jeddah, já existe uma abertura maior. Fala-se do problema das mulheres, mas é fácil ver mulheres a conduzir, a assistir a jogos de futebol. Tem havido aqui uma evolução e no futuro vai notar-se muito mais. Para mim foi de fácil adaptação.

Tendo em conta o recente conflito no Médio Oriente, a saída do Damac aconteceu no momento certo?

— Não existem momentos certos. Coincidiu com o início deste conflito. Eu vivia numa cidade muito próxima do Iémen e volta e meia tínhamos o espaço aéreo cortado. Mas ao fim de pouco tempo vive-se perfeitamente com isso. As pessoas com quem tenho falado na Arábia Saudita, amigos, jogadores e diretores, estão tranquilas. A vida continua exatamente da mesma forma. Este conflito não alterou a dinâmica de trabalho nem de vida na Arábia Saudita.

O sucesso de João Félix prende-se com a continuidade em termos de minutos, isso traz confiança ao jogador. Ronaldo? Teve sempre números fantásticos. Ganhou outras armas e soube adaptar-se

João Félix parece estar a marcar como fazia nos tempos do Benfica. É mais fácil marcar nesta liga?

— Não é por ser mais fácil de marcar. Existe uma diferença muito grande entre as equipas, Al Nassr, Al Hilal, Al Ahli, Neom, Quadisiya, são investimentos muito grandes. Mas acredito que este sucesso do João prende-se mais com a continuidade em termos de minutos. Isso traz confiança e vontade ao jogador. Quem está por trás começa a acreditar mais no jogador e o jogador sente isso. Não acredito que seja mais fácil. Existe uma diferença, mas é um campeonato muito competitivo e com muitos valores individuais.

— Considera que esta liga, embora competitiva, também pode contribuir para a longevidade de Ronaldo?

— Os anos vão passando e ele continua competitivo. Dizer que ele continua com os mesmos números porque está na Arábia Saudita pode não corresponder à verdade. Por todos os campeonatos por onde passou foi sempre competitivo, teve sempre números fantásticos. Tem tido a capacidade e a inteligência de adaptar o seu jogo em função da sua idade, das suas capacidades físicas, para continuar num nível elevado. Não é o jogador que era no Man. United em termos físicos, percorre menos espaços, mas ganhou outras armas e soube adaptar-se para continuar a ter a influência que tem.

Jorge Jesus é muito melhor treinador do que era há quatro ou cinco anos

A liga saudita só vai continuar a ter valor enquanto Cristiano Ronaldo lá estiver?

— Até 2034 vão continuar a crescer. A dúvida é se depois vão continuar a ter esta força de atrair qualidade para a liga. A maior dificuldade prende-se com os jogadores locais, que têm qualidade, mas não têm hábitos de trabalho. Por muitos bons jogadores e exemplos que cheguem lá, como Cristiano Ronaldo, Retegui, Lacazette, não chega. É preciso uma educação de base. Estão a procurar fazer isso. Acredito que até 2034, mesmo não estando o Cristiano, continuarão a ter capacidade de atrair outras figuras. O grande objetivo é fazer evoluir o potencial que têm. Se o trabalho de base for bem feito, acredito que a liga continue a crescer para lá de 2034.

— E que contributo podem ter os treinadores portugueses nessa evolução?

— Podem ter e estão a ter. Pela experiência, capacidade de trabalho e organização. Aqui em Portugal e na Europa, um clube médio baixo está muito bem estruturado, em termos de departamentos. Em alguns clubes esta organização ainda não funciona como deveria. E esta experiência e este conhecimento que o treinador português ou europeu leva para esta liga, enriquece. Há clubes que ouvem, querem evoluir e vão implementando estas ideias, outros mostram mais restrições porque estão a olhar para o resultado imediato. O treinador português é muito rico, quer em termos de evolução individual enquanto jogador, quer em termos de trabalho estratégico coletivo com metodologia de treino. A organização do treino enriquece-os e vai fazê-los crescer. Basta eles quererem aprender.

— Deu o exemplo de Jorge Jesus. O que acrescenta à liga saudita?

— Os treinadores com mais experiência podem ensinar mais, mas quando se tem a mente aberta acho que podemos aprender com toda a gente. É óbvio que o Jorge Jesus, com toda a sua experiência e historial, terá muito para ensinar e terá muito para aprender também, porque acredito que Jorge Jesus é muito melhor treinador hoje do que era há quatro ou cinco anos.

Tivemos sucesso no Famalicão porque tivemos a capacidade de valorizar ativos e associar isso a resultados. Em dois meses, ganhámos duas vezes ao Benfica. É alavancagem muito grande. O casamento acaba por ser perfeito

— Nos últimos anos esteve também no Arouca, no Famalicão, no Goiás. Quer fazer um pequeno balanço destes desafios?

— Foi o Vitória que me fez treinador, onde me fiz homem. É o berço da nação e foi o meu berço enquanto profissional, como praticante e treinador. O Arouca também foi um clube onde deu muito prazer trabalhar. Foi um projeto que começou na Liga 2, com uma subida à Liga, e terminou com competições europeias. Foram três anos que me deram muito gozo. Não fui só eu e a minha equipa técnica que saímos valorizados deste projeto fantástico, tivemos a capacidade de valorizar a estrutura, os  jogadores, a própria localidade. Tivemos etapas muito difíceis, mas o resultado final fala pelos três anos em que lá tivemos.

— …

— Queria muito o Brasil, fazia-me falta. Em Arouca já estava confortável demais. Queria sair da minha zona de conforto, queria coisas diferentes, desafios em que me pusesse à prova, algo que me tirasse o sono. Tirou-me da zona de conforto, fez-me crescer, ver o futebol de outra forma. Foi um desafio fantástico. O Famalicão foi uma oportunidade, acabámos por ser muito felizes e ter muito sucesso nos objetivos. O clube tem tido um crescimento muito grande e rápido. Isso passa por equipas técnica e diretiva estarem em sintonia em relação ao projeto, pois em Famalicão não chega ganhar e jogar bem, tem de se formar e vender. Tivemos sucesso porque tivemos a capacidade de valorizar ativos, como o Puma [Rodríguez], o Luiz Júnior, e associar isso a resultados. Em dois meses, ganhámos duas vezes ao Benfica. É alavancagem muito grande. E conseguir valorizar ativos, o casamento acaba por ser perfeito, daí sentir-me muito orgulhoso.

— Falou dos recentes desafios. Qual é o próximo passo?

— Já poderia ter regressado, não aconteceu porque achei que o projeto não era o ideal. Gostaria de regressar ao Brasil. Não foi por falta de convite, mas achei que não estavam reunidas as condições. Grande parte dos treinadores não escolhem, são escolhidos. Gostaria de abraçar um projeto aqui na Europa, fora de Portugal. O Brasil também continua dentro dos meus objetivos, assim como a Arábia Saudita. O nosso campeonato também nunca pode ficar posto de parte, porque, no fundo e ao fim do dia, é onde nos sentimos confortáveis e onde queremos regressar. O futuro a Deus pertence.

— Disse ter recebido convites. Quer partilhar quais?

— Nunca, num período tão curto, tive tantas propostas para trabalhar. Ou porque as partes não estavam alinhadas ou por achar que não era o projeto certo não aceitei, mas tem havido convites e acredito que quando chegar o convite certo voltamos ao ativo.

— Deixou a porta aberta a um regresso a Portugal. Os três grandes têm apostado em treinadores portugueses nos últimos anos. É um objetivo de carreira?

 — Todos os treinadores têm esse objetivo. Falamos em quatro vagas para centenas de treinadores. Não quero colocar essa pressão na minha carreira. As coisas que têm de acontecer vão acontecer naturalmente. Estou focado em evoluir e ter experiências diferentes e enriquecedoras, com isso vou tornar-me melhor homem, pessoa e treinador. Temos excelentes treinadores em Portugal e eu, se quero estar neste mercado, tenho de estar preparado e ganhar o máximo de ferramentas para ser opção.

— Em relação à Seleção Nacional. É um objetivo para o futuro?

— Não penso muito nisso. Se há coisa que que me apaixona é o dia a dia do trabalho. Ainda sinto muito esta necessidade da conversa com o jogador, com os funcionários. Futuramente, se calhar poderá ser um objetivo. Hoje não penso muito nisso porque gosto muito do contacto, e numa seleção esse contacto é mais esporádico e ainda sinto muita necessidade e gosto muito de sentir a evolução e o contacto diário.

— O que se pode esperar de Portugal no Mundial?

— Podemos esperar tudo. O futebol não é uma ciência exata, mas quando olhamos para a composição e para o valor que este país tão pequenino nos proporciona em termos futebolísticos, em termos individuais, acho que podemos estar otimistas. A história tem-nos demonstrado que por vezes os que têm mais expectativas têm surpresas. Lembramo-nos da Dinamarca quando foi repescada e acaba por ser campeã. Quem está mais bem preparado e tem os melhores está mais próximo de ganhar. Mas este desporto também tem tantos apaixonantes por causa da incerteza no resultado. Acredito muito em Portugal porque já nos habituou a ganhar. Estávamos a precisar disso e acho que merecemos. Mas também sei que por vezes é tudo bem feito e não se consegue. Parece-me que o trabalho está a ser bem feito, quem está à frente é competente.