António Lobo Antunes

Abandonem a cegueira provocada pela clubite e permitam-se contemplar a sublime ode ao futebol, legada por Lobo Antunes. Aos valores que sustentam o desporto, à relevância do futebol em circunstâncias extremas e ao genuíno sentimento de pertença que o clubismo deve encerrar...

É uma memória destinada à eternidade, destoando do desencanto que impera. O cortejo fúnebre de António Lobo Antunes, deixando o Mosteiro dos Jerónimos ao som de «Ser Benfiquista», imortalizado por Luís Piçarra, materializa a célebre sentença de Bill Shankley: «o futebol não é uma questão de vida ou de morte, é muito mais do que isso.» Quem compreende, compreende; quem não compreende, que compreenda; e aos que, por preconceito, insistem em não compreender, recupero as palavras de António Lobo Antunes numa inolvidável entrevista concedida em 2008 a Vítor Serpa: «Essa história de os intelectuais não gostarem de desporto é um disparate. O Niels Bohr, dinamarquês agraciado com o Nobel da Física, integrou a seleção do seu país. Camus foi um guarda-redes de grande vigor. É uma absurda tolice.»

É esta magnitude do futebol, que inspirou vozes geniais como Lobo Antunes a afirmar: «Por vezes, um jogo bem jogado é tão belo e comovente como um grande poema», que acaba traída por mesquinharias, por atitudes menores que procuram converter o mais nobre dos jogos numa batalha, transformando adversários em inimigos. E quem conheceu a guerra, como o autor recentemente desaparecido, possui legitimidade superior para discorrer sobre o tema. Lobo Antunes, que narrou com crueza e ironia como, no aquartelamento, em terra hostil, quando o Benfica jogava, o capitão ordenava que os altifalantes fossem virados para a floresta e colocados no volume máximo; a guerra cessava, pois o relato do jogo interessava a ambos os lados. E foi mais longe, sublinhando o vínculo da cor clubística, confessando que, após o relato, não sentia ímpeto de disparar para o lado oposto, pois poderia atingir um benfiquista...

Há outras quatro sentenças de Lobo Antunes que cristalizam o valor do futebol entrelaçado na palavra tão portuguesa, ‘saudade’, numa meditação que ressoa igualmente entre a diáspora: «Ouvíamos o relato do futebol na rádio como quem ouve o coração bater do outro lado do mundo»; «na guerra, o futebol era o fio invisível que nos ligava a casa, uma trégua breve onde cabia Portugal inteiro»; «entre o medo e o silêncio, havia tardes em que só o som dos golos nos devolvia a infância»; e «entre o estrondo das armas e o silêncio das cartas, um golo era o único grito de alegria que ninguém censurava.»

Permito-me insistir: Quem compreende, compreende; quem não compreende, que compreenda; e aos que, por preconceito, recusam compreender, recomendo que revisitem atentamente as citações de António Lobo Antunes que aqui deixo.

Lamento, profundamente, que aquilo que há de mais poderoso no futebol seja sabotado por condutas desviantes, motivações ocultas, oportunismos reiterados e atitudes que põem em xeque a sua verdadeira grandeza e a vocação primordial de unir povos, independentemente de raça, credo, orientação sexual, estrato social ou condição económica. O futebol, nascido nas mais elitistas academias britânicas, depressa foi apropriado pelo povo que o abraçou como seu. E é no povo que deve permanecer, como festa não alienante, como a coisa mais importante entre as menos importantes das nossas existências.

Vivemos tempos perigosos. Que saibamos, portanto, preservar o futebol na senda da sua vocação universal: instrumento de aproximação entre os povos.

MARCELO

António José Seguro toma hoje posse como sexto Presidente da República portuguesa eleito após o 25 de Abril, e Marcelo Rebelo de Sousa sai do Palácio que está paredes-meias com os Jerónimos, a pé, como entrou. Sendo impossível agradar a gregos e troianos durante uma década, é da mais elementar justiça reconhecer que Marcelo exerceu as mais altas funções do Estado para servir, e não para se servir, aproximou a Belém dos portugueses, e dessacralizou a Presidência, sendo popular, mas resistindo sempre à tentação de ser populista. Do ponto de vista da atenção dada aos desportistas, o Presidente cessante foi incansável, e deixou marca indelével. Com Marcelo Rebelo de Sousa, o Desporto nunca foi uma coisa menor. E há que dizer que Marcelo esteve presente nas horas boas (que felizmente foram muitas), mas também quando o amargo da derrota tocou às nossas cores. Apesar das inúmeras selfies que tirou, nunca se misturou com o Desporto apenas para ficar na fotografia.

PRESTIANNI

Ao que tudo indica, por instigação de Gianni Infantino e na esteira do episódio Prestianni-Vinícius, o IFAB prepara-se para inscrever nos regulamentos uma disposição inédita, a vigorar já no Mundial vindouro, que concede aos árbitros o poder de expulsar jogadores que dialoguem entre si com a boca ocultada — seja pela mão, seja pela camisola. Presume-se, todavia, que tal penalização só se aplicará em situações de contenda, pois para felicitar alguém ou desejar as Boas Festas, será ainda permitido tapar a boca. Mas como poderá o árbitro discernir o teor das palavras de quem se esconde atrás desse gesto? Estaremos prestes a assistir a intervenientes, com semblante cândido e sorriso aberto, boca encoberta, a destilar as mais inconfessáveis injúrias ao adversário? Talvez seja esse o caminho que se desenha... E que sanção se reservará aos dirigentes, treinadores e demais protagonistas, sempre que ocultem os lábios para comunicar, quer nos relvados, quer nas tribunas presidenciais? E não seria, porventura, justo que essa doutrina também abarcasse todas as ordens jurídicas, atingindo sem discriminação figuras públicas, da realeza aos presidentes, políticos, atores, desportistas e outros protagonistas da sociedade? Confesso, já observei sketches dos Gato Fedorento e dos Monty Python menos hilariantes...

CLÁSSICO (1)

O FC Porto apresentou queixa contra Luís Suárez, avançado do Sporting, na sequência de um gesto deste, alegadamente dirigido ao árbitro (que o VAR viu na TV e entendeu não alertar o seu companheiro), normalmente associado ao ato de roubar. A ver vamos o que vai suceder, na certeza de que também seria bom, em nome da transparência, conhecer a apreciação feita pelo observador à decisão de Cláudio Pereira de não mostrar um segundo cartão amarelo, mais do que evidente, a Alberto Costa.

Mas, se o Conselho de Disciplina (CD) da FPF tem capacidade para decidir sobre o gesto de Suárez, e o Conselho de Arbitragem (CA) da FPF tem capacidade para decidir qual a nota de Cláudio Pereira, já na queixa formulada pelos dragões contra Suárez, por uma entrada sobre Bednarek, de uma coisa tenho a certeza: trata-se de matéria de arbitragem, para a qual os membros do CD não estão minimamente habilitados. Para terem legitimidade para agir disciplinarmente, teriam de estar ancorados na opinião de um conselho de peritos em arbitragem, figura que, tanto quanto sei, não existe. Há alguns anos, o dr. Eduardo Barroso foi testemunha num julgamento e a páginas tantas a juíza disse-lhe, «de medicina percebemos todos um pouco, não é?», ao que Barroso, de resposta pronta, retorquiu: «Com o devido respeito, meritíssima juíza, um pouco de medicina percebo eu, Vossa Excelência não percebe nada.» O mesmo se passa, relativamente aos juízes do CD e às especificidades da arbitragem.

PEDREIRA

Podia ter sido Agatha Christie a escrever o guião do SC Braga-Sporting do último sábado. Mas o seu protagonista não seria miss Jane Marple, ou o casal Tommy e Tuppence Beresford, mas sim Hercule Poirot que tinha uma caraterística ‘sui generis’, a obsessão pela simetria. E pode ter havido coisa mais simétrica dos que os segundos golos de guerreiros leões, ambos em tempo de compensação, ambos dos onze metros, e ambos por uso abusivo do braço/mão esquerdo?

CLÁSSICO (2)

Não faço, nesta página, referência ao Benfica-FC Porto, pela simples razão de estar incluído na equipa que apreciou o jogo. Encontrará a minha opinião numa das páginas iniciais desta edição…