A mestria de Senna à chuva: primeira vitória na F1 foi há 41 anos no Estoril

No dia 21 de abril de 1985, no GP de Portugal, Ayrton Senna, aos comandos do lindíssimo Lotus 'John Player Special' negro, deixava o mundo do automobilismo (e não só) boquiaberto com a segunda demonstração de talento com a pista molhada. A primeira deu o piloto a conhecer ao mundo, um ano antes, no GP do Mónaco...

Ayrton Senna conquistou a primeira vitória na Fórmula 1 há precisamente 41 anos, no dia 21 de abril de 1985, num Grande Prémio de Portugal marcado por condições meteorológicas adversas. No caos provocado pela chuva torrencial no circuito do Estoril, o piloto brasileiro, então com 24 anos, deu uma exibição de talento puro que viria a definir a lendária carreira.

Apenas na 17.ª corrida na F1, Senna demonstrou um domínio absoluto ao volante do Lotus 97T com as cores negras do patrocinador principal, a marca de tabaco John Player Special. Logo na qualificação, o brasileiro tinha garantido a primeira das 61 pole positions na carreira, superando Alain Prost (McLaren), que conquistaria o primeiro de quatro títulos mundiais no final dessa temporada, por quase meio segundo, e o colega de equipa na Lotus, o italiano Elio de Angelis, por um segundo completo.

Senna, em apenas 10 voltas, já tinha uma vantagem de 13 segundos sobre o segundo classificado. Terminou com mais de um minuto e só não dobrou Alboreto

No dia da corrida, a chuva intensa transformou a prova numa luta pela sobrevivência. Patrick Tambay (Ferrari), que terminou em terceiro, descreveu o cenário como um «pesadelo».

«Choveu torrencialmente do início ao fim, estava tudo muito, muito inundado, o teto de nuvens muito baixo e a luz muito fraca. Foi a sobrevivência do mais apto», recordou Tambay.

Nesse célebre GP de Portugal, os adversários praticamente só viram Ayrton Senna... na partida

Desde o arranque, Senna liderou e nunca mais olhou para trás. Em apenas 10 voltas, já tinha uma vantagem de 13 segundos sobre os restantes pilotos, uma margem que aumentou para uns impressionantes 30 segundos à 20.ª volta, apesar de as condições da pista piorarem a cada momento.

Atrás do brasileiro, o caos instalou-se. Riccardo Patrese e Stefan Johansson colidiram na quarta volta, enquanto Keke Rosberg fez um pião na 16.ª volta, ficando imobilizado no meio do circuito durante várias voltas. Alain Prost entra em aquaplanagem em plena recta da meta antes de colidir com os rails. A corrida foi um teste implacável de nervos e controlo, com inúmeros abandonos.

Senna rodou no muito técnico Circuito do Estoril como se o asfalto estivesse seco, liderando todas as 67 voltas completadas antes de a direção da corrida terminar a prova ao fim do limite de duas horas, três voltas antes do previsto. O único piloto que não foi dobrado pelo brasileiro foi Michele Alboreto, da Ferrari, que terminou em segundo lugar a mais de um minuto de distância.

Senna provou, pela segunda vez em dois anos, o enorme talento à chuva

Steve Hallam, engenheiro de corrida de Senna, reconheceu de imediato a magnitude do feito. «Para vencer daquela maneira, naquelas condições, é preciso um talento excecional», afirmou. «Havia mais de 20 talentos excecionais lá fora que se pode dizer que falharam redondamente naquele dia, e ele não. Ele conseguiu a vitória de forma convincente».

O próprio Senna, cuja imagem icónica nesse dia de céu cinzento, o contraste entre o negro do Lotus e o capacete amarelo Brasil, ficou na memória coletiva do automobilismo e do desporto em geral, admitiu as dificuldades que enfrentou para garantir a vitória histórica.

Após a corrida, os elogios foram esmagadores: Senna entrava para elite da Fórmula 1

«Foi uma corrida tática difícil, curva a curva, volta a volta, porque as condições estavam sempre a mudar», explicou o piloto. «O principal era manter a concentração e habituarmo-nos à pista molhada que não tivemos durante todo o fim de semana. O carro deslizava por todo o lado, foi muito difícil mantê-lo sob controlo».

Esta vitória não só pôs fim a uma seca de seis anos para a Lotus, como também anunciou a chegada de um piloto que viria a reescrever a história da F1, com um total de 41 vitórias em Grandes Prémios e três campeonatos do mundo. Naquela tarde chuvosa em Portugal, um jovem brasileiro provou que pertencia à elite do automobilismo.