Tiago Pinto, antigo diretor desportivo do Benfica, em 2019 - Foto Vítor Garcez
Tiago Pinto, antigo diretor desportivo do Benfica, em 2019 - Foto Vítor Garcez

Tiago Pinto recorda Benfica: «Quando ganhávamos, não sentia felicidade, mas sim alívio»

Tiago Pinto conta como tem sido a gestão no Bournemouth, surpresa da Premier League, mas recorda também o tempo no Benfica, antes de sair para a Roma

«Não faço magia. Sou uma pessoa muito normal», assegura Tiago Pinto em entrevista ao jornal Marca, que o apelida de novo 'rei Midas' do futebol.

Atual Presidente para as Operações de Futebol do Bournemouth, Tiago Pinto recorda como foi parar às decisões dentro do Benfica quase por acaso: «Fui adepto do Benfica toda a minha vida e, com 26 ou 27 anos, fiz um discurso crítico numa Assembleia Geral, apresentando soluções para mudar o clube. O presidente pensou: 'Como é que este rapaz tem a coragem de vir aqui e falar assim?'. Conhecemo-nos e, seis meses depois, contratou-me.»

«Foi o desafio mais difícil da minha vida. O facto de ser adepto também não ajudava. Sentia uma pressão enorme. Quando ganhávamos, não sentia felicidade, mas sim alívio», admite Tiago Pinto, que no seu tempo no clube conquistou 50 títulos como Diretor-Geral das modalidades.

Em 2021 saiu para assumir o cargo de Diretor Desportivo da Roma. «Nunca esquecerei o dia em que saí. Foi estranho. Queres ir embora, mas, por outro lado, desejas que não aconteça. Precisava de sair porque não tinha vida, trabalhava 24 horas por dia. Além disso, tinha o objetivo de fazer uma carreira internacional e trabalhar em diferentes países», sublinha.

Em três épocas em Itália, realizou vendas de jogadores no valor de 160 milhões de euros, contratou Dybala, Matic e N'Dicka a custo zero e pôs fim a um jejum de 61 anos sem títulos europeus para o clube: «Acho que tínhamos equipa para mais na Serie A, mas estivemos muito bem na Europa. Chegámos às meias-finais da Liga Europa com o Paulo Fonseca no primeiro ano, no segundo ganhámos a Conference League com o Mourinho e, no terceiro, perdemos a final da Liga Europa contra o Sevilha.»

Em 2024, deu uma nova reviravolta na sua carreira, trocando o Estádio Olímpico de Roma por Inglaterra e o Vitality Stadium. «Tinha propostas de grandes clubes de outros países, mas a minha prioridade era trabalhar na Premier League. A reunião com o proprietário, Bill Foley, fez a diferença. Deixou-me uma excelente impressão e fez-me decidir quase de imediato», reconhece.

Sucesso no Bournemouth e importância do treinador

O Bournemouth é a equipa com o melhor balanço financeiro desta época no futebol mundial, com um saldo positivo de 160 milhões de euros entre receitas e despesas com transferências, mas Tiago Pinto pede prudência: «Não quero que os jogadores que chegam pensem que podem fazer 20 bons jogos e ir embora. Pretendemos que, além de dinheiro, deixem um extra e ajudem a equipa a somar vitórias na Premier League, como fez o Semenyo. [vendido neste mercado de inverno ao Manchester City]»

«O nosso sucesso tem três componentes. A primeira é o proprietário. Bill Foley é muito inteligente e ambicioso. Um líder assim inspira toda a gente. Em segundo lugar, apesar de sermos um clube pequeno, destacaria a nossa estrutura. Contamos com grandes profissionais no recrutamento, no departamento médico... Isso permite-nos dedicar um cuidado aos futebolistas que os grandes clubes não têm. A terceira e, para mim, talvez a mais importante, é o treinador, Andoni Iraola», destaca.

Ao falar do antigo treinador do AEK Larnaca, Mirandés e Rayo Vallecano, a admiração é evidente: «Podes ter um clube estruturado, muitas facilidades, bons olheiros, uma grande academia... mas se não tiveres um treinador que junte tudo, não vale de nada. É impossível explicar o sucesso do Bournemouth sem falar de Iraola. A forma como jogamos e como ele desenvolveu os jogadores é a grande chave. É fácil dizer que o Huijsen é um grande jogador, mas foi o Andoni que o pôs a jogar e a crescer na Premier League. O mesmo com o Zabarnyi, o Kerkez... Muitas equipas querem passar a mensagem de que o clube faz tudo e o treinador não faz nada. Para mim, não é assim», insiste Tiago Pinto, que tem como prioridade máxima a renovação de Iraola, cujo contrato termina em junho: «Sou muito transparente nestas coisas: claro que me preocupa.»

«Inquieta-me mais que Iraola saia do que a partida de um jogador importante. Em fevereiro, quando o mercado fechar, será o momento de falar. Penso que tudo acabará bem, mas não estou tranquilo: é muito difícil encontrar alguém assim», afirma.

Apesar do sucesso financeiro, a venda de Antoine Semenyo ao Manchester City por 72 milhões de euros não o deixou totalmente satisfeito. «A mim, parece-me pouco. Se ele não tivesse uma cláusula de rescisão, poderíamos tê-lo vendido por mais. É um jogador muito completo e com uma capacidade física incrível», lamenta.

A lista de transferências bem-sucedidas é longa e inclui nomes como Solanke, Zabarnyi, Huijsen, Kerkez e Ouattara. O grande desafio, segundo Pinto, é manter o equilíbrio para não comprometer a permanência do Bournemouth na elite do futebol inglês. «Nos próximos anos, não vamos ter de vender tanto. A ideia é conseguir uma estabilidade na Premier League que nos permita sonhar um pouco mais», revela.