Ronaldo forçou Proença a marcar 'Summit' na Escandinávia
«Nunca falei para tanta gente ao mesmo tempo», dizia Cristiano Ronaldo há uma semana, na invulgar conferência de imprensa inserida no Portugal Football Summit. Nesse dia, o capitão da Seleção garantiu que Jorge Jesus, sentado a seu lado, era «a escolha perfeita» para selecionador e podia contar com ele para o que fosse preciso. «Para jogar, sair, entrar ou não jogar», especificou Cristiano, disposto a ajudar tanto dentro do campo, como fora dele, «por ser o capitão, conhecer muitas dinâmicas da Seleção e poder ajudar o grupo».
Bastaram quatro dias para que a postura de Cristiano entrasse em contradição com o discurso. Suplente não utilizado na Noruega, Ronaldo recolheu aos balneários logo após o apito final. Não foi aos críticos que virou costas, mas sim aos colegas, que mereciam um cumprimento no relvado, e aos adeptos, que fizeram o esforço de marcar presença em Oslo.
Ninguém diz que Cristiano já não é digno da braçadeira. Os erros acontecem ao melhor, mas não pode reclamar direitos e esquecer deveres. É um exemplo, e quanto maior a exposição, maior o impacto de tudo aquilo que faz. Foi o próprio, não a comunicação social, a criar um caso logo ao segundo jogo da campanha.
Dentro do esforço incómodo para não valorizar o sucedido, Jesus não renunciou — pelo menos publicamente — à sua liderança. Assumiu uma decisão técnica e reconheceu que tinha apresentado ao avançado o cenário de jogar 30 minutos na segunda parte, mas que tinha mudado de ideias devido ao desenrolar do jogo.
Ironicamente, foi o tratamento diferenciado que Cristiano Ronaldo fez por merecer — mas que jamais deve ser privilegiado — a dar origem a esta situação altamente desconfortável.
Terão sido várias as conversas entre Ronaldo e Jesus. Antes do jogo, antes da convocatória, talvez até antes da própria contratação do técnico, que teve direito a estágio com o capitão no Al Nassr. Esses bastidores ajudariam a entender o compromisso, mas não justificam que Ronaldo vire costas a colegas e adeptos.
A única surpresa neste arrufo é ter surgido tão cedo. Selecionador e capitão conversaram entretanto, mas Pedro Proença já se tinha feito ao caminho — depois de evitar os jornalistas, uma vez mais — para uma Summit na Escandinávia.