Como o Sporting quer transformar talento da formação numa estrela
Há talentos que se descobrem. E outros que se trabalham ao detalhe. Flávio Gonçalves pertence às duas categorias. O extremo é, aos 19 anos, um dos projetos de maior ambição do Sporting no que à formação diz respeito e Alvalade há muito que tem vindo a preparar, nos bastidores, a transição do jovem para um patamar de exigência muito superior.
A aposta não nasceu agora. Estava identificado há vários anos como um dos mais promissores da geração de 2007, chegando, por isso, cedo ao grupo de elite da formação. Em 2019, trocou o Rio Ave pelo Sporting e percorreu os diferentes escalões até se afirmar na equipa B. O primeiro sinal de confiança foi dado em julho de 2025, quando os leões lhe renovaram o contrato até 2030, com uma cláusula de… €60 milhões.
Era um desconhecido, fora da Academia, até há poucos meses. A época passada representou o primeiro contacto consistente com a equipa principal. Estreou-se a 28 de outubro de 2025, nos quartos de final da Taça da Liga, frente ao Alverca, em Alvalade. Entrou aos 62 minutos e, poucos minutos depois, assistiu Salvador Blopa para o 4-0, numa noite em que o Sporting venceu por 5-1 e lançou cinco jovens na equipa principal.
Pois bem, foi precisamente após essa primeira experiência que se deu início a um outro processo: o de preparação para que Flávio passasse a constituir uma solução real para Rui Borges. Arrancou um trabalho de laboratório que A BOLA dá a conhecer. Ao pormenor.
MAIS FÍSICO PARA GANHAR DUELOS
Uma das áreas em que o trabalho tem sido direcionado é a componente física. O Sporting tem procurado potenciar a sua velocidade, capacidade de aceleração e facilidade para desequilibrar no um para um. Levando a cabo um trabalho específico de ginásio para aumentar a massa muscular e, sobretudo, a dotá-lo de maior capacidade para resistir ao contacto e competir nos duelos.
A lógica dos leões nesta área era simples: um trabalho direcionado a proteger a posse e suportar o choque. Para acrescentar-lhe ferramentas. Mais força sem perda de mobilidade; mais capacidade de contacto sem comprometer a explosão; maior resistência para suportar os ritmos da equipa.
TRABALHO OFENSIVO
Com bola, a mensagem que Flávio Gonçalves tem recebido também é clara: simplificar. O Sporting valoriza a sua personalidade irreverente, a criatividade e a capacidade para assumir riscos. Mas a evolução, nesta fase, passa por perceber quando acelerar, quando procurar o duelo e, sobretudo, quando jogar simples. Até porque a sua tendência passa por procurar soluções individuais, algo que, no atual patamar competitivo exige maior prudência. No laboratório de Alcochete, nos últimos meses, tem-se procurado acrescentar critério à sua irreverência. Não para deixar de ser desequilibrador, mas que escolha melhor os momentos para o… ser. A ideia é que consiga transformar mais rapidamente aquilo que já tem — velocidade, condução, drible, capacidade de remate e movimentos interiores — em produção para a equipa.
PONTO DECISIVO: TRABALHO DEFENSIVO
É na dimensão defensiva que tem residido maior atenção no seu crescimento. Pois tem-lhe sido exigido maior responsabilidade em todas as tarefas sem bola. E isso, convém lembrar, ganha importância pelo corredor onde está a ser utilizado, na esquerda, tendo em conta a vocação ofensiva do lateral Maxi Araújo.
Nas transições defensivas, o trabalho tem incidido em fechar espaços interiores, além de perceber se o momento pede pressão imediata ou recuo para organizar a equipa. Trata-se de uma aprendizagem menos visível em jogo, mas determinante para conquistar um lugar na equipa. Os resultados, esses, a avaliar pelo arranque da época, são animadores.
NA FRENTE DE DERRY E (PARA JÁ...) IRANKUNDA
Flávio Gonçalves foi titular na ronda inaugural, na Reboleira, e a aposta deverá manter-se agora com o Vitória de Guimarães. Nesta fase, está à frente de Jesse Derry na hierarquia e também de Irankunda, reforço recém-chegado que terá de ganhar terreno para ultrapassar a jovem pérola formada em Alcochete.
Até porque Flávio Gonçalves já deixou de ser uma aposta para o futuro. A integração na pré-temporada, a confiança demonstrada por Rui Borges e a utilização na primeira jornada mostram que o extremo entrou definitivamente nas contas do presente. E a estrutura leonina pretende que o avançado esteja preparado para responder… já. O trabalho de laboratório, esse, vai continuar. Com linhas mestras bem definidas: mais força para os duelos, mais critério na decisão, mais compromisso defensivo, mais compreensão dos espaços e dos momentos do jogo.