José Mourinho: um treinador no topo da exemplaridade (artigo de Manuel Sérgio, 380)

Espaço Universidade 10.07.2022 19:30
Por Manuel Sérgio

Venho afirmando, mal o José Mourinho venceu o primeiro campeonato nacional de futebol, pelo Futebol Clube do Porto, que nascera um treinador de futebol de invulgares recursos emocionais e mentais. Declaro, por isso, desde já, que não sou talvez parcial, a seu respeito, tantas foram as vezes que já confessei a minha admiração, pelo atual treinador da “Roma”, quer a órgãos da Comunicação Social nacionais quer internacionais. No entanto, não é por mera repetição (ou por puro psitacismo)  que me refiro ao José Mourinho, com muita admiração e igual respeito.Com efeito, vejo, nos “gramados” (perdoam-me o brasileirismo?) as suas equipas e é aquele o futebol em que mais acredito. Nas suas equipas, há um futebol de ouro e uma vontade de aço e a sobrenadar uma liderança, não de uma voz, em campanha eleitoral, em que a sonoridade se sobrepõe ao conhecimento, mas de um treinador estruturalmente inteligente e, como tal, de singular argúcia, de invulgar sagacidade. Nunca esquecerei, o episódio de há 40 anos, jogava ele nos juniores de futebol do Belenenses e era, simultaneamente, aluno do 1º ano do ISEF/UTL, como o impressionaram aquelas minhas palavras amigas, diante da sua tão nítida vocação para treinador de futebol: “olhe que, para saber de futebol, é preciso saber mais do que futebol”. Procurava eu então ensinar, nas minhas aulas que qualquer pessoa (e qualquer coisa e qualquer fenómeno) é sempre um  elemento de um todo´, ressoando a sentença de Hegel: “A Verdade é o Todo”. Tratava-se de temática que procurava também analisar, não só para desenvolver o espírito crítico dos alunos, mas para reduzir, na medida do possível, o anti-epistemologismo primário que, «in illo tempore», era moda. O José Mourinho, com celeridade inusual, logo entendeu o que eu pretendia  e assim rematou a conversa: “O professor deu-me a volta â cabeça”.
 

Venho dizendo, há mais de 40 anos, que o desporto só como ciência humana deverá teorizar-se e praticar-se. Com isto, não estou entre os que pensam que a teoria é anterior à prática, ou que a filosofia pode fechar-se sobre si mesma, como se o pensar não radicasse na vida. É na vida, e não fora dela, que a filosofia se constitui como tal. Por si mesma, a filosofia não transforma a realidade. A filosofia não se confunde com a prática e só a prática transforma o real na sua materialidade. Por isso, o José Mourinho nunca precisou de mim para nada, para constituir-se o melhor treinador de futebol do mundo. No âmbito do futebol, é ele o mestre e eu o discípulo. Portanto, para ele, eu sou um dos teóricos (um deles é, e com anterioridade em relação a todos, o Prof. Luís Lourenço) que melhor teorizam aquilo que ele faz . Só que ele faz, e porque faz, somos nós que precisamos dele e não ele de nós. É isto que os jornalistas, os escritores e toda a sorte de teóricos devem, no meu modesto entender, compreender de uma vez por todas: no futebol, são os “práticos” que sabem, porque é a sua atividade que materialmente transforma. A teoria não é prática  e, porque não é prática, não transforma. Mas há prática, verdadeiramente humana, sem teoria? Conhecer é um fenómeno redutível, totalmente, à prática? A prática é o princípio do pensar, como o pensar é o fim da prática. Não há prática, sem teoria, nem teoria sem prática; este parece-me, de facto, um a priori não apriorístico. Com esta particularidade, para mim: a prática é mais importante do que a teoria e a teoria só tem valor, se for a teoria de uma determinada prática . É porque é mediada pela prática que a teoria pode transformar. No entanto, a teoria surge como componente essencial e decisiva  da nossa destinação individual, social e histórica.  Sem ela,não conhecemos, nem conhecemos o conhecimento,,,   
 

O seu currículo é conhecido – está entre os dois ou três melhores treinadores do futebol atual. Para mim, o currículo do José Mourinho é inigualável, quero eu dizer; é o melhor de todos! Há, a meu juízo, dois tipos de certezas: a certeza subjetiva, ou crença, e a certeza objetiva, ou de provas. Ora, e a quem não provou já o José Mourinho que é capaz de ser o melhor treinador de futebol do mundo? Sá a inveja o pode negar. Mas o que é a inveja senão uma confissão de inferioridade? Aliás, a genialidade (qualidade indisputável de José Mourinho) mede-se pela quantidade de inveja que suscita. José Mourinho é o treinadot de um futebol sempre imaginado e sempre refeito. Quem não é capaz de produzir utopia e de sacrificar-se por ela vive ameaçado de esclerose. Para ser conservador não é preciso pensar muito, basta aceitar, sem discussão, o “status quo”, o que está-aí e o poder não aceita que se questione. E, no entanto, como diz o Cardeal José Tolentino Mendonça, excelsa vocação de poeta e de teólogo “o que somos não é tudo o que há para ver”. E diz ainda: “Vivemos demasiado em casas fechadas, com a bagagem arrumada em gavetas estáveis, como se não tivéssemos de voltar a sair, com o tempo rotinizado numa aparente previsibilidade que nos ilude, vivemos como se o que somos fosse tudo o que há para ver. Fazemos do nosso quintal o universo. E, por isso, também a esperança nos parece uma arte inacessível. Quando nos desprendemos, porém, e arriscamos considerar o instante, este instante preciso da nossa existência, como um terraço, percebemos que a vida é maior do que nós (José Tolentino Mendonça, O pequeno caminho das grandes perguntas, Quetzal, Lisboa, 2017). Na ciência moderna, não cabe o sonho, nem a utopia. Afinal, não se encontra um esforço coletivo, como numa equipa de futebol, onde não pactuem o profano e o sagrado, a ciência e o sonho, a memória e a profecia.

                                        

O José Mourinho sabe tudo isto. Por isso, ele é, se bem penso, o melhor treinador de futebol do mundo. Aliás, a quem o futebol português muito deve. Porque ele está, e de forma bem visível, no topo da exemplaridade, o treinador português muito lhe deve, no culto que hoje lhe rende o futebol internacional. Antes do José Mourinho, quem era o treinador português que merecia um convite de um “grande” do futebol europeu?... Só depois dele! Antes, não! Não, não me esqueço do Artur Jorge , mas o PSG não era, nesse então, o mesmo de hoje  Escreve o Jorge Valdano com a poesia que perpassa na sua prosa de ilustre colaborador do jornal “A Bola”. De facto, um escritor de vanguarda, porque vê poesia onde a esmagadora maioria só vè prosa e da mais chã. Mas vejamos a prosa poética de Jorge Valdano (2022/7/9): “Os dois clubes da minha terra comemoram simultaneamente 100 anos. De visita, para homenageá-los, reencontrei-me como futebol em estado puro, aquele que sonhei desde criança e que hoje recordo com nostalgia.Um futebol que dou por infinito, porque nunca nos deixa de surpreender, porque tem capacidade de renovar as nossas esperanças; porque na sua área, que é o mundo inteiro,  o sol nunca se põe (…). Gosto de dizer que o futebol é produto de uma grande viagem, desde a memória(passadu) passando pela emoção (presente)até chegar aos sempre insondáveis sonhos(futuro)”. Assim é, porque o futebol é mais do que futebol, porque o futebol não é só uma atividade física, é verdadeiramente uma atividade humana. Em boa verdade, se um treinador de futebol só soubesse de futebol, seria o mais canhestro dos treinadores do mundo. Meu querido Doutor José Mourinho, o meu Amigo sabe isto e mais do que isto. Por isso, eu aprendo tanto consigo. E digo-o com alegria incontida. É que sou aluno do melhor treinador do mundo!    

                 

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

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