Relatório Sporting vs Vitória de Guimarães janeiro 2026

A festa, ao lavar dos cestos, do Vitória Sport Clube
A festa, ao lavar dos cestos, do Vitória Sport Clube

Foi Charles a criar as condições para a noite de glória de Ndoye (crónica)

Um jogo bem ganho pelo Vitória, que soube sofrer e nunca deixou de acreditar; e mal perdido pelo Sporting, que teve oportunidades para carimbar o passaporte para a final. Nos minhotos saúda-se o atrevimento da pressão alta; já aos bicampeões nacionais faltou a coesão dos melhores dias.

Quando o relógio do árbitro atingiu o minuto 90, o Sporting vencia o Vitória por 1-0. Seguiram-se 11 minutos de tempo de compensação, justificados por uma interrupção longa, aquando da lesão de Eduardo Quaresma, e outras paragens, tantas, tantas, tantas, que tornaram a segunda parte, que tinha condições para ser fluida e intensa, num insuportável corrupio de equipas médicas.

E nesse período extra os vimaranenses deram a volta ao jogo, depois de terem visto o seu guarda-redes fazer milagres, mantendo a equipa em condições de se arriscar a ser feliz.  E se na moeda do triunfo dos Conquistadores, Charles foi cara, Ndoye, que saltou do banco aos 78 minutos e assinou os dois golos que colocaram a equipa de Luís Pinto na final, foi a coroa.

Uma coroa de Reis Magos, numa noite de Reis em que a prenda foi para o Vitória, e fava calhou a um Sporting, que só pode queixar-se de si mesmo, não só pela incapacidade de ampliar a vantagem (uma mão cheia de oportunidades), mas também pelas dificuldades que o seu jogo denotou, com a equipa menos homogénea do que habitualmente, a deixar espaços entre linhas, e a revelar vulnerabilidade nas alas, onde Saviolo pôs a cabeça em água a Fresneda.

Mas falar do Sporting e não referir as lesões de Ioannidis e Quaresma, que mexeram com a equipa, e se juntaram a outros impedimentos de peças relevantes, seria passar ao lado de uma fatia importante da história deste jogo, que pôs a nu que, no universo verde-e-branco, ao contrário do que tem sido demasiadas vezes dito, não é indiferente jogar A ou B. Como diria Orwell, todos são iguais, mas uns são mais iguais que os outros, e provavelmente é essa a lição que Rui Borges leva para estudar, em casa. 

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Atrevimento vitoriano

A primeira nota, ao apreciar-se esta meia-final da Taça da Liga, vai para a ousadia vimaranense. O Vitória resolveu pressionar alto o Sporting desde o apito inicial, baralhando as contas à turma de Alvalade. É verdade que cada vez que saíam do espartilho, os leões criavam situações delicadas junto à baliza vimaranense; mas não é menos verdade que o Sporting se viu amiúde forçado a falhar passes, passando, por isso, por alguns calafrios.  

Quando, ao minuto 13, Trincão teve um passe genial para Luís Suárez, que aproveitou o buraco criado na defesa vimaranense para dominar e marcar, ficou no ar a ideia de que poderíamos estar a caminho de novo ‘bar aberto’, à imagem do jogo da Liga, na cidade-berço.

Mas logo seis minutos volvidos, percebeu-se que o Vitória não deitava a toalha ao chão, e Matheus Reis teve de se aplicar para afastar o perigo da zona de Rui Silva, e aos 26 minutos Diogo Sousa falhou por muito pouco o alvo.  Dois minutos antes, a saída do lesionado Ioannidis levou a que Alisson entrasse para a direita do ataque e Trincão se juntasse a Suárez, o que levou os leões a perderem criatividade a meio-campo.

Mesmo com insuficiências e debilidades, o Sporting teve várias hipóteses de ampliar a vantagem antes do intervalo (aos 36 e 37, Charles evitou dois golos cantados), mas curiosamente a derradeira chance seria de Abascal, que com um pontapé desferido de trás da linha de meio-campo obrigou Rui Silva a uma defesa de recurso, apertada. 

Charles e Ndoye

Na segunda parte, o Vitória entrou com tudo, a pressionar a saída de bola como se não houvesse amanhã, e a ameaçar a partir dos flancos, onde Saviolo e Camará se mostravam muito ativos. O Sporting aceitou este estado de coisas, assumiu-se como força de contra-ataque, e foi assim que Trincão (48), João Simões (52), Suárez (56), Alisson (84), Matheus Reis (86) e Morita (90) obrigaram Charles a brilhar. Ao impedir o 2-0, o guarda-redes do Vitória manteve a sua equipa dentro do jogo, à espera de aproveitar o que o destino lhe reservasse.

Sendo certo que Luís Pinto deu uma ajuda ao destino, ao lançar Telmo Arcanjo (69) e sobretudo Ndoye (78), o filme não teria nunca um final feliz para os ‘Conquistadores’ se não fosse Charles. Mas, se as mudanças na equipa correram bem ao treinador do Vitória, Rui Borges não pode dizer o mesmo: Morita entrou a ‘empastelar’ o jogo e Kochorashvili, errático, acabou por estar no lance do 1-2, isto numa noite em que nem mesmo o pendular Hjulmand escapou ao desacerto.

Ou seja, o 4x3x3 que na cabeça de Rui Borges devia equilibrar a equipa e travar o Vitória, entrou em registo de queijo suíço. Como o Sporting não se ajudava – passes perdidos e, mesmo assim, múltiplas oportunidades falhadas – a sorte virou-se para quem mais andava à procura dela, acabando por ser amplamente premiado o inconformismo minhoto.