O que faltou a Lage dizer

OPINIÃO29.06.202003:30

Ponto prévio: gosto de Bruno Lage. Como pessoa, por perceber (quase sempre) no seu discurso uma genuína preocupação em fazer do futebol um fenómeno de compreensão menos complicada a todos os níveis, e como treinador, por achar - independentemente do que penso, e já escrevi, sobre as suas responsabilidades, que as tem, no momento atual do Benfica -que quem faz o que Lage fez o ano passado tem de ser bom treinador. Estou à vontade para escrevê-lo, porque não conheço Bruno Lage pessoalmente. Nunca me pagou nenhum almoço, nem eu lhe paguei qualquer jantar, o que aparentemente, numa perceção distorcida da realidade que, espero, tenha um dia a humildade de explicar, Lage entende ser necessário para um jornalista, ou um comentador, escrever bem sobre alguém. Não é. Ponto. Mas mesmo que tivéssemos almoçado ou jantado, pagasse Lage ou eu, sentir-me-ia, também, à vontade para escrever o que vou escrever a seguir. Digo-o com a propriedade de quem, como jornalista ou chefe de redação, já almoçou e jantou incontáveis vezes com presidentes, treinadores, diretores de comunicação ou jogadores e nunca deixou, por isso, de escrever o que entendeu escrever. Elogiando ou criticando. É tão simples como isso.
Dito isto, e embora, lá está, goste de Bruno Lage, tenho de escrever que, se calhar ao contrário daquela que é a opinião de muito boa gente, não me satisfez a retratação do treinador do Benfica ao que dissera no final do jogo com o Santa Clara. O que Lage insinuou nessa conferência de imprensa é demasiado grave para limpar com um simples «lamento» ou um vago «retrato-me». Ainda por cima quando disse estar a referir-se «a uma pergunta específica», ou seja, estava a dirigir-se a um canal em concreto. Neste caso não há a A BOLA, A BOLA TV, CMTV, SIC, TVI, RTP, SportTV, Record ou o Jogo. Não. Hoje toca a outros, amanhã toca-me a mim. Não chega, portanto, dizer que se estava a referir a um caso específico, na esperança que todos os outros encolham os ombros e aceitem a retratação. Seria, meu caro Bruno Lage, como se eu lançasse para o ar, tendo como base qualquer opção (sempre discutível, como todas as opções de todos os que têm de decidir, seja qual for a área) que você tenha para o onze do Benfica, a ideia de que as escolhas de todos os treinadores tivessem como base uma troca de favores entre eles e os jogadores, sejam almoços, jantares ou outra coisa qualquer. E depois, apertado  pela classe dos treinadores, me retratasse, dizendo, sem especificar e sem apresentar provas, lamentar, que não queria ofender, mas que até estava a referir-me a um caso em concreto. E esperar que ficasse tudo bem. Não ficaria, pois não?
Em suma, Bruno Lage perdeu ontem uma oportunidade de matar de vez o assunto. Tinha duas opções e ambas exigiam coragem: ou dizia que não queria dizer nada do que insinuou e pedia DESCULPA a toda a classe (com todas as letras!!) ou apresentava provas daquilo que insinuara. Lage não fez nem uma coisa nem outra. Foi curto. E foi pena.
Até porque, e Lage sabe-o melhor do que ninguém, as críticas na imprensa são, neste momento, o seu menor problema. O verdadeiro problema de Bruno Lage está no Seixal, onde trabalha com uma estrutura que já o abandonou à sua sorte. Não sei, sinceramente não sei, se Vieira já lhe disse que está de saída do Benfica. Mas nem precisa Lage de ouvi-lo da boca do presidente. O silêncio de Vieira, e de toda a estrutura comunicacional do Benfica, em relação às notícias que dão conta de negociações com aquele que será o novo treinador - Jesus, Marco Silva, Emery, Pochettino e todos os outros que se seguirão... - diz tudo. Lage é inteligente e já percebeu tudo. Não terão sido, pois, inocentes os elogios às palavras de Conceição. Abandonado pelos seus, agradeceu o apoio do treinador do maior rival, mesmo que estivessem as palavras de Conceição carregadas de veneno dirigido à super-estrutura encarnada. Lage tem pouco tempo disto mas não é parvo...

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